Tal como prometi ao meu
amigo A. P., divulgo agora o seu conto satírico, salientando que o texto é
ficcional e que qualquer semelhança com pessoas, lugares e situações será mera
coincidência:
“Jeremias era um político
moderno: restrita cultura mas imensa arte de gerir um currículo baseado em
apoios e traições, em unir e em afastar, em gritar ou ocultar. Embora tenha
aprendido a andar e a vestir como deputado citadino, nunca conseguiu, porém,
apagar o tom e o gosto de uma ruralidade a contaminar-lhe linguagem e discurso:
iniciava as conversas falando do tempo e do clima, como qualquer camponês
preocupado com a chuva e as sementeiras.
- Precisamos de
criar um clima; precisamos de criar um clima – suspirava a cada canto o nosso
político, falando de artes, de economia, de educação, de desporto ou de
finanças, aliás falava de tudo, como um rouxinol.
- Qual clima,
qual clima, tropical ou temperado? – Questionavam em volta.
- Um clima, um
clima – voltava aos seus trinados.
Um dia, os seus correlegionários
julgando agradar ao distinto político, que se alçara ao lugar mais alto do
grupo, decidiram espalhar pela cidade dezenas de cartazes com um clima
maravilhoso: sol brilhante, temperatura suave, brisa acariciadora.
- Loucos, loucos,
querem matar-me? Desci eu lá das montanhas e dediquei a minha juventude inteira
a que o tempo me desse razão para acabar deste modo, como se não pudesse haver
mais desgraças, mais misérias, mais conflitos, mais história?
Perplexos, os
seus apaniguados reuniram-se para ouvir o líder:
- Quando criarem
o meu clima, pintem-no cinzento e frio, com derrocadas e aluviões.
- Mas, se
estivermos no Verão? – Perguntou um ingénuo.
- Aí pintarão de
fogo e cinzas.
- Olhe em volta,
grande líder, a realidade ultrapassou a sua alta imaginação: já fomos todos
presenteados com todas essas desgraças, com tempestades no Inverno e incêndios
no Verão.
Jeremias inchou
de rubor, os olhos esbranquiçaram-lhe de prazer e gritou para os sequazes:
-Está criado o
clima, meus senhores. Para nossa felicidade, eis o clima!
- O clima? Mas o
povo sofre de fome e medo – insistiu o ingénuo.
- Por isso
erguerão as mãos carentes até mim.
Uma gritaria
histérica e ensurdecedora ecoou pela sala, por isso ninguém percebeu que as paredes
não aguentaram tanta algazarra e começavam a ruir, enquanto o tecto se desfazia
sobre as cabeças ululantes.
Então Jeremias
soltou as suas últimas palavras de ordem:
- O clima a
vermelho e negro, a vermelho e negro, a vermelho… e negro.”
A.P