quarta-feira, 21 de novembro de 2012

O clima




                Tal como prometi ao meu amigo A. P., divulgo agora o seu conto satírico, salientando que o texto é ficcional e que qualquer semelhança com pessoas, lugares e situações será mera coincidência:

                “Jeremias era um político moderno: restrita cultura mas imensa arte de gerir um currículo baseado em apoios e traições, em unir e em afastar, em gritar ou ocultar. Embora tenha aprendido a andar e a vestir como deputado citadino, nunca conseguiu, porém, apagar o tom e o gosto de uma ruralidade a contaminar-lhe linguagem e discurso: iniciava as conversas falando do tempo e do clima, como qualquer camponês preocupado com a chuva e as sementeiras.
                - Precisamos de criar um clima; precisamos de criar um clima – suspirava a cada canto o nosso político, falando de artes, de economia, de educação, de desporto ou de finanças, aliás falava de tudo, como um rouxinol.
                - Qual clima, qual clima, tropical ou temperado? – Questionavam em volta.
                - Um clima, um clima – voltava aos seus trinados.
                Um dia, os seus correlegionários  julgando agradar ao distinto político, que se alçara ao lugar mais alto do grupo, decidiram espalhar pela cidade dezenas de cartazes com um clima maravilhoso: sol brilhante, temperatura suave, brisa acariciadora.
                - Loucos, loucos, querem matar-me? Desci eu lá das montanhas e dediquei a minha juventude inteira a que o tempo me desse razão para acabar deste modo, como se não pudesse haver mais desgraças, mais misérias, mais conflitos, mais história?
                Perplexos, os seus apaniguados reuniram-se para ouvir o líder:
                - Quando criarem o meu clima, pintem-no cinzento e frio, com derrocadas e aluviões.
                - Mas, se estivermos no Verão? – Perguntou um ingénuo.
                - Aí pintarão de fogo e cinzas.
                - Olhe em volta, grande líder, a realidade ultrapassou a sua alta imaginação: já fomos todos presenteados com todas essas desgraças, com tempestades no Inverno e incêndios no Verão.
                Jeremias inchou de rubor, os olhos esbranquiçaram-lhe de prazer e gritou para os sequazes:
                -Está criado o clima, meus senhores. Para nossa felicidade, eis o clima!
                - O clima? Mas o povo sofre de fome e medo – insistiu o ingénuo.
                - Por isso erguerão as mãos carentes até mim.
                Uma gritaria histérica e ensurdecedora ecoou pela sala, por isso ninguém percebeu que as paredes não aguentaram tanta algazarra e começavam a ruir, enquanto o tecto se desfazia sobre as cabeças ululantes.
                Então Jeremias soltou as suas últimas palavras de ordem:
                - O clima a vermelho e negro, a vermelho e negro, a vermelho… e negro.”

                A.P
  

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Desculpas e maus pagadores




                As declarações do porta-voz do Partido Socialista sobre o encontro entre Passos Coelho e Ângela Merkel, chanceler alemã, mostram como à mediocridade partidária se liga facilmente, nos dias de hoje, a ânsia do assalto ao poder e ao aparelho de Estado. Afirmar que o Primeiro-ministro “prefere o consenso com a chanceler alemã em vez do consenso com o País” e falar que “o Governo demonstrou submissão e subserviência”, para além de aproximar o discurso socialista ao da esquerda comunista, atesta ignorância em relação à história do Partido Socialista.
                Formado em 1973, na República Federal Alemã, sob os auspícios da Fundação Friedrich Ebert, o Partido Socialista viria a receber avultadas somas do SPD alemão, tal como receberia de outros partidos da Internacional Socialista (com destaque para o PS-D Sueco), e dos próprios Estados Unidos, através da C.I.A., conforme descobriu Rui Mateus no seu livro “Contos Proibidos – Memórias de Um PS desconhecido”. Dirá o antigo responsável pelas Relações Internacionais do PS que, para exemplo, “no ano eleitoral de 1976, vários partidos e entidades estrangeiras entregaram avultadíssimas somas em dinheiro, por todos os meios, os quais a Administração Financeira – do PS - ia classificando como “angariação de fundos”.
                Como há quem acredite que neste mundo da política possa haver o conceito de desprendida solidariedade internacional, sob os auspícios de uma Internacional Socialista, cito uma extensa passagem do livro que venho referenciando: “foram criadas – durante os dois primeiros governos - as primeiras Fundações que teriam no PS um papel de grande relevo. Mário Soares seria sempre o primeiro fundador e a República Federal Alemã e os Estados Unidos passariam a ter um papel determinante na vida política portuguesa.
                Os enormes fundos das fundações políticas alemãs, ligadas aos partidos Social-Democrata, Democrata Cristão e Liberal, eram postos à disposição destes pelo Estado Alemão para garantir, no estrangeiro, a abertura de portas aos interesses daquele país. Nos países onde estas fundações actuam, às vezes com gestos de solidariedade em tempos difíceis, como foi o caso do apoio ao PS português durante a clandestinidade, há sempre uma fundação alemã próxima do governo desse país. No caso português, houve sempre fundações para as diferentes alternativas: a Friedrich Ebert ligada ao PS, a Konrad Adenauer ao CDS e a Friedrich Naumann ao PSD”.
                Talvez porque na altura ninguém sonhasse com redes sociais, não víamos militantes socialistas acusarem os líderes alemães de nazis ou anátemas do género – esquecidos de que o povo alemão livre sofreu a perseguição dos seus próprios governantes, que milhões de jovens soldados germânicos perderam as suas vidas no serviço militar obrigatório e que o povo alemão também sofreu o seu holocausto sob as bombas dos vencedores e nos trabalhos forçados nas sibérias soviéticas – nem os acusarem de dominadores económicos. Na altura exaltava-se a “Europa Connosco” e não se discutia as intenções dos Estados Unidas e da República Federal Alemã que nos emprestaram 1,5 mil milhões de dólares, com o aval do FMI e respectiva austeridade, no chamado Grande Empréstimo.
                Conforme diz Manuel Maria Carrilho, antigo ministro socialista, os portugueses estão perante uma perda de soberania dramática, pelo que não deveria haver perdão para quem nos conduziu até aqui.
                Como os responsáveis pela actual situação do povo português não estão dispostos a assumir a sua culpa, o mais fácil é acusar o estrangeiro, o eterno responsável pelas desgraças caseiras: uma xenofobia institucionalizada e facilmente inculcada.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

O sonho de Agamémnon




O sonho de Agamémnon


                O amor à arte e a insistência de um amigo obrigam-me a abandonar o silêncio a que me dediquei durante algum tempo.
                O meu amigo A. P., desempregado de um escritório falido, faltando-lhe o dinheiro para a costumada deambulação pelos bares da cidade, tem passado o tempo em casa a escrever e a comer bolachas. Falou-me das suas dificuldades económicas, ao entregar-me um embrulho de papel pardo, onde, segundo dizia, apresentava ainda manuscrita, imagine-se, a aurora da verdadeira literatura madeirense, pedindo-me, além de um empréstimo por conta dos futuros rendimentos da obra, que a lesse, comentasse e divulgasse.
                Em folhas amareladas e com dedadas de gordura, encontrei uns poemas “da decadência” - bem superiores ao lixo acumulado em versos de meninas de liceu que se andam a editar por aí, rimando a descoberta do “eu” com a partilha dos afectos -, um conto satírico chamado “O clima” e o texto dramático “O Novíssimo Agamémnon”, classificado como tragédia.
                Lido o Agamémnon de A. P, conversei com o autor. Não eram dignas de tão distinto género algumas frases, apropriadas, pelo contrário, à comédia burlesca, mas o meu amigo, teimoso e convencido como só os artistas, não admitiu mudança alguma. Lavo então as mãos em relação ao previsível fracasso editorial, lamentando a reduzidíssima esperança em reaver o dinheiro emprestado. Observai criticamente, caros leitores, esta passagem:

Da escuridão solta-se um som cavo, como um grito opresso, um gemido aflito. A mão de Agamémnon acende a luz ténue da mesa-de-cabeceira da sua cama de dossel e o príncipe soergue-se, inchado de medo, até um grande espelho, defronte. Ao seu lado, Clitemnestra desperta do sono e empunha de imediato uma raqueta.
CLITEMNESTRA – Um mosquito outra vez?
AGAMÉMNON – O sonho, o maldito sonho: espetam-me facas nas costas, os malditos. Permitiram-me os deuses, depois de tantas vitórias, pisar os bordados tapetes púrpura da minha habitação, mas são os meus, os meus, a quem ofereci quarenta e quatro triunfos e décadas de favores e prebendas, a desejarem a minha morte. E tu, Clitemnestra, tu sabes quem eles são. No meu sonho vejo-te ao lado dos mesquinhos e invejosos.
CLITEMNESTRA – Quem não é invejado, não é digno de o ser. E como poderia querer-te mal,
se até os deuses  te invejam? Só os ditadores permaneceram tantos invernos no trono. És realmente o único a obter tal número de vitórias pelo voto. Esquece o sonho, ou visita novamente a brasileira. Ela sempre previu o teu tapete de vitórias.
AGAMÉMNON – Facas, centenas, milhares, cada vez mais facas nas costas. Ofereci-lhes carros, casas, empregos e dinheiro, muito dinheiro, que nem sabiam donde vinha. Defendi-os como um pai, ou um padrinho. Deveriam ficar permanentemente agradecidos…
CLITEMNESTRA – Mais que um pai terreno, és o pai da pátria e o seu deus, e eles adoram-te.
AGAMÉMNON - Esses malditos apenas adoram o poder e o dinheiro. Quanto à pátria, prometi-a como ideal, e quis erguê-la, mas trocaram-na pelo vil metal. Facas nas costas… mas confrontá-los-ei um a um. Ameaçarei retirar-lhes títulos e benefícios e olhá-los-ei bem no fundo dos seus olhos, borrados de medo. E tu, Clitemnestra, desaparece-me do sonho. Apanhaste algum mosquito?”

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Outras vozes




            A voz dos poetas comove-nos profundamente, mas, quando a palavra nos surge da pena de José Tolentino Mendonça, ela possui o condão de nos interrogar como um espelho.
            Em prosa recente, Tolentino Mendonça alerta para o facto de vivermos “submersos num mundo de palavras manipuladas, esvaziadas de verdadeiro sentido, desresponsabilizadas”. Acertou-me na vontade de mais silêncio, face à gritaria reinante. Não me refiro apenas às massas ululantes mas também às vozes pretensamente autónomas, a repetirem refrões, frases feitas e epítetos.
            Muitas vezes falar menos significa dizer mais ou melhor. Confunde-se amiúde cidadania com discursos irresponsáveis ou com ofensas que desonram sobretudo quem as profere. Os órgãos de comunicação social, afirmando promover a participação, promovem o desrespeito, a malcriação e o linchamento público. Na política, antiquíssima arte nobre, substitui-se o serviço do bem colectivo pelo enganador artifício discursivo. As pessoas precisam de verdadeira comunicação, por vezes num silêncio que ajuda a pensar.
            Como diz o grande poeta madeirense no seu texto intitulado “Por uma nova comunicação”, “precisamos de contrariar este movimento de demissão, reencontrando uma arte de pensar, recuperando uma atenção mais crítica em relação ao que nos é servido a toda a hora; construindo espaços de distanciamento favoráveis ao silêncio e à reflexão”.
            O poeta encontrou-me nesta hora onde necessito sobretudo de ouvir o mar e a voz interior que me pede silêncio.
                                        in "Diário Cidade" de 2/10/12




terça-feira, 25 de setembro de 2012

Política ineficaz




                O grupo parlamentar do PS na Assembleia Legislativa da Madeira parece mais reduzido do que efectivamente é, entregue quase completamente à dupla Carlos Pereira/Victor Freitas.
            Este apagamento dos restantes quatro deputados pode induzir os cidadãos a imaginarem um grupo mais pequeno que o próprio PTP e considero uma má estratégia que o deputado Avelino da Conceição não ganhe relevo, tendo em conta que representa um concelho tão importante como Machico; que Luísa Mendonça não levante mais vezes a voz em defesa do Porto Santo; que Carina Ferro, eleita como representante da JS, não seja mais interveniente em nome de uma juventude com problemas gravíssimos à conta de décadas de políticas erradas das gerações anteriores. Quanto a Maximiano Martins, presumo que a sua situação se deva ao facto de ostentar conhecimentos na mesma área em que se move o líder do grupo parlamentar, Carlos Pereira: a economia.
            Um grupo parlamentar eficaz e credível poderia catapultar o PS para uma posição alternativa face a uma governação regional que perde popularidade e crédito em função das crescentes dificuldades económicas dos cidadãos, que começam a imputar às governações o descalabro em que se vêem mergulhados. Esses cidadãos não acreditarão no PS, porém, se o encontrarem sobretudo empenhado em guerrear o CDS para voltar a ser o maior partido da oposição regional  ou em fazer política de títulos para os jornais, colecionando “bocas” de efeito duvidoso, como tratar de “casa dos segredos” um lugar a quem já tinham apelidado antes de “casa dos horrores”.
            O frenesi do líder parlamentar socialista leva-o agora a considerar "vergonhoso" que a Assembleia Legislativa da Madeira continue encerrada, quando a Região atravessa momentos muitos difíceis, como se fosse a reabertura da Assembleia que poderia resolver algum dos graves problemas dos Madeirenses, a mesma Assembleia que Carlos Pereira disse, em Novembro de 2011, “que é um órgão de fantasia de uma democracia doente” e que “ao estarmos cá, toda a oposição, contribuímos para branquear  esta ALRAM que, como sabemos, não corresponde às exigências democráticas mínimas”.
            Não é “mandando bocas” para fabricar títulos jornalísticos que o PS-Madeira se pode tornar alternativa na Região. Afinal se a ALRAM é um órgão de fantasia, porque se dramatiza com as suas longas férias? Como pode uma instituição que Carlos Pereira acusa de não corresponder às exigências democráticas resolver os problemas do povo?
                               in "Diário Cidade", de 25/9/12








terça-feira, 18 de setembro de 2012

À espera de problemas



                Na noite de sábado passado, as televisões portuguesas postaram-se junto à Assembleia da República, para acompanhar, em directos constantes e demorados, o final da manifestação “contra a troika”. Os repórteres narravam dramaticamente as movimentações dos manifestantes e da polícia, aguardando com expressa emoção o momento do conflito que desse razão a tanto aparato mediático.
            Os repórteres estão habituados a que as claques desportivas ou os manifestantes políticos entoem com intensidade redobrada os seus cânticos e palavras de ordem quando se apercebem da entrada em directo das reportagens televisivas. Os actores percebem bem como a sua acção apenas se justifica com a difusão do espectáculo e com a multiplicação dos espectadores.
            Num noticiário regional da rádio pública, a propósito da abertura de aulas, interessei-me pela entrada de uma reportagem junto de alunos, onde o locutor fazia referência à alegria das crianças que conhecem uma escola nova e à desmotivação dos que já conhecem a escola. Como professor em véspera de iniciar as aulas, agucei o ouvido para perceber as causas da insatisfação dos jovens, porém não ouvi de nenhum deles palavras de desencanto. O repórter, no entanto, fazia questão de justificar a introdução da locutora, ou, quem sabe, as ordens superiores, e forcejou, questionando as crianças sobre as possíveis consequências negativas da crise económica na sua vida escolar. Finalmente perguntou a uma criança se não estava “à espera de problemas” na escola por causa da crise. O miúdo então respondeu que “talvez”.
            Não há notícias pintadas a cor-de-rosa nem sobre casamentos felizes, mas deve haver limites para esta actual busca mediática da desgraça maior ou do recorde da catástrofe e, sobretudo, em relação às crianças, poupai-as, senhores, poupai-as do vosso apetite pelo sangue e pelo negrume. 
                     in "Diário Cidade" de 18/9/2012

terça-feira, 11 de setembro de 2012

A Língua não é lixeira


           Nos comentários internáuticos a uma notícia de um diário local sobre a diminuição dos professores contratados nas escolas madeirenses, alguém que se diz professor “há 14 anos” (embora custe a acreditar) exemplificou uma possível vinculação extraordinária, com cujos termos não concorda, com esta ridícula hipótese de frase: “ O Manuel e docente à 11 anos tem média de 21”.
            Saiba-se que o indivíduo, que eventualmente por vergonha encobriu o seu nome, defendia um meio “claro – justo e meritocrata – para acabar com as vantagens dos menos capazes sobre os mais capazes”. Ao ser alertado para a sua incoerência, o homem justificou-se, dizendo que não era professor de Português mas de Inglês, catalogando logo de “miseráveis” os que não discutem ideias e projectos, ficando “pelos pormenores”. Mas, se é professor, não o é numa escola portuguesa e não está obrigado ao uso correcto do Português?
            No facebook e outras vias informáticas, encontramos diariamente uma profusão de erros ortográficos ou sintácticos a testemunhar uma grande ignorância da Língua Portuguesa, rapidamente desvalorizada da mesma forma que o fazem as crianças de escola pouco interessadas em aprender ou evoluir: “Não interessa a forma; não percebeu?”
            Este desprezo pela língua mátria aparece muitas vezes na boca de petulantes sempre prontos a desqualificar (através de preconceitos, frases feitas, imagens ou fotomontagens) estadistas, políticos, académicos, cientistas e outras pessoas que pensem ou decidam a contragosto de gente que nem a sua língua é capaz de usar com um mínimo de sabedoria.
                Num espaço onde se pode encontrar o óptimo e o péssimo, o belo e o horrível, o são e o putrefacto, o sábio e o ignorante, existem jardins e lixeiras. É importante, porém, que não nos confundamos na escolha: a Língua Portuguesa não é lixeira.
                       in "Diário Cidade", de 11-9-12

terça-feira, 4 de setembro de 2012

O rio, as margens e os tacanhos




                Conhecendo, pela Comunicação Social, o que se passou com o Presidente do Governo Regional no Porto da Cruz, recordei-me dos versos de Bertolt Brecht: “Do rio que tudo arrasta/ diz-se que é violento/ mas ninguém chama violentas/ às margens que o comprimem”.
            Ainda que Brecht tenha apontado para a violência dos desesperados, nenhum democrata se poderá congratular com actos de grande ou pequena violência, como se vivêssemos em plena “lei da selva”, onde cada um possa fazer justiça pelas suas próprias mãos.
            Apesar de eu já ter lido textos em que Jardim chama de “súcias” aos socialistas e de o ter ouvido dizer que “os tipos do PS dão uma imagem péssima da Madeira” e afirmar em comício que quando os populares virem “gente do PS” poderiam dizer “vai ali um traidor”; de ouvi-lo chamar “bastardos da comunicação social para não lhes chamar f… da p… “, e de que, com ele “quem tem de comer come”, em alarde de linguagem a cheirar a pólvora, reprovo qualquer acto de violência contra o Presidente do Governo Regional como contra qualquer cidadão.
            Lamento que alguns funcionários políticos testemunhem publicamente a sua satisfação envolta em sarcasmo de pseudo-superioridade moral. E se procurassem derrotá-lo pela via eleitoral?
           in "Diário Cidade" de 4/9/12
  

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Sem entusiasmo


Pelas razões já apresentadas anteriormente nestas colunas (relacionadas com a minha discordância pela realização do evento em ano de uma forte crise económica a que se juntou a desgraça dos incêndios), não fui à Festa da Liberdade, na Fonte do Bispo.
            As fotos e os vídeos disponibilizados pelo PS, via facebook, sem a preocupação, manifestada por alguns jornais, de redução de plano para aparentar muita gente frente ao palco, mostram, para além da fraca afluência de pessoas, uma triste falta de entusiasmo face aos discursos políticos e no momento da chegada de António José Seguro ao local da festa. Alguns jornalistas presentes reforçaram esta opinião sobre a falta de entusiasmo desta festa.
            Os dirigentes partidários necessitam de reflectir sobre a utilidade destas festas, num momento em que as pessoas atribuem à falta de qualidade dos políticos muitas das causas das tremendas dificuldades que atravessam e estas festas não credibilizam ninguém.
            Que ficou desta festa? Um enorme vácuo. Seguro veio à Madeira, acompanhado pelos responsáveis pela sua imagem, fazer um discurso para a comunicação social nacional, a propósito da RTP, mas só depois o PS fará a “reentré” política, como se a Fonte do Bispo não valesse nada, do ponto de vista partidário.
            A novidade discursiva esteve apenas presente no momento em que Vítor Freitas, emendando a opinião do seu líder parlamentar, apelou à presença dos “homens bons” nas listas  socialistas para as autárquicas, reconhecendo que a política não pode ser entregue apenas aos homens dos partidos. A ideia, porém, não é nova e costuma ser mais usada em regimes não democráticos, onde os “homens bons” só têm uma alternativa face à maldade intrínseca dos poderosos.
            No Chão da Lagoa também se apelará aos “homens bons”, agora com o nome de “verdadeiros madeirenses” ou “autonomistas”. No fundo, será mais uma festa, com discursos inflamados para a comunicação social do Continente, com muito álcool, menos gente e menos entusiasmo. Não é já tempo de se acabar com estes espectáculos pagos pelos cidadãos em crise real?

                                              in "Diário Cidade", de 28/8/2012

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Partidocracia


         Nos países comunistas (cujo maior exemplo era a União Soviética, mas onde se distinguiam as designadas repúblicas populares socialistas do Leste, a China ou Cuba), o poder político é sempre escolhido pelo comité central do Partido Comunista, sem que as populações possam interferir, pois vigora o sistema de partido único.
            Na República Democrática Popular da Coreia (Coreia do Norte), país governado, desder a sua fundação, logo após a II Guerra Mundial, pelo estalinista Partido dos Trabalhadores da Coreia, o poder passou de Kim-Il-sung para o seu filho Kim Jon-il e, com a recente morte deste, para o seu filho Kim Jong-Un, em autêntica monarquia comunista.
            No Bloco de Esquerda, que procura construir “uma esquerda socialista e popular” e que é uma plataforma que uniu o PSR (de tendência comunista trostskista e então liderado por Francisco Louçã) à UDP (de tendência comunista leninista-estalinista) e ao Movimento Política XXI, o seu líder anuncia abandonar a liderança e aponta os substitutos João Semedo e Catarina Martins para uma direcção bicéfala que será o expoente das quotas de género. Ninguém poderá estranhar, dado o método da escolha, a razão por que Louçã nunca experimentou uma direcção destas na sua liderança.
            Na Madeira, ouve-se que Alberto João Jardim será o responsável pela escolha do seu sucessor no PSD. As lideranças fortes, tantas vezes enaltecidas por comentadores de fraco espírito democrático, gostam de escolher os seus sucessores.

in "Diário Cidade" de 21/8/12
           
            

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Democracia ou partidocracia


A notícia do jornal I de que as reformas de alguns deputados e funcionários da Assembleia da República têm sido despachadas muito mais rapidamente pela Caixa Nacional de Pensões do que as dos funcionários comuns é mais um sinal da partidocracia instalada no nosso País.
            Esta situação dá razão ao cidadão que aponta o dedo aos políticos que se servem dos cargos de pseudo representação para defenderem os seus interesses individuais ou de grupo em prejuízo da colectividade. Nos parlamentos, criam regimentos, estatutos e leis onde não descuidam os seus benefícios pessoais ou empresariais, enquanto vão preparando adequadamente as aposentações ou “reintegrações”.
            Medina Carreira, no livro Portugal que Futuro?, afirmava, em 2009, que os principais partidos “nem sempre se têm comportado com suficiente lisura: prometem o que nem sequer sabem se podem cumprir; prometem e, pura e simplesmente, não cumprem; prometem mesmo o que já sabem não poder cumprir; fazem o que se comprometeram a não fazer; fazem, enfim, o que lhes convém e não o que interessa à sociedade”.
            Continua Medina Carreira, com as suas verdades corrosivas: “O nosso País está a suportar, assim e inconscientemente, a acção de um sistema político-partidário fechado sobre si mesmo, com reduzida qualidade, intencionalmente “armadilhado” na criação dos requisitos para a sua sobrevivência e, até agora, sem qualquer capacidade para promover a sua requalificação”. Dizia o antigo ministro das Finanças que o País suportava esta partidocracia de forma inconsciente, mas os Portugueses, atingidos por um choque devastador a que chamaram crise, têm tomado progressiva consciência de que afinal o mal não está no partido A ou no B, mas no edifício partidocrático que tomou de assalto os meios disponibilizados pelo esforço dos cidadãos.
            Os partidos terão de mudar obrigatoriamente, se quiserem obter pelo menos o benefício da dúvida e, para isso, terão de abrir-se verdadeiramente à sociedade, com alterações estatutárias que permitam uma verdadeira representatividade dos eleitos.
            Porque a democracia corre riscos sérios sob o domínio partidocrático e porque a cidadania não se esgota na vivência partidária, começa-se a valorizar mais os movimentos de cidadãos, tal como se deve investir nas associações e clubes independentes dos poderes públicos. Isto não significa que os movimentos sejam constituídos por gente desinteressada ou mais capacitada do que os dirigentes partidários, até porque se conhecem casos de gente que criou movimentos apartidários só depois de ter sido preterida de lugares cimeiros nas listas dos seus partidos.
            As pessoas não são melhores por estarem ou não filiadas em partidos políticos ou em movimentos de cidadania, por isso defendo, como a Secção Portuguesa do Movimento Internacional Lusófono, que, nas eleições legislativas, os deputados possam ser eleitos como independentes ou em listas não partidárias e que todos os deputados, mesmo que integrados em listas partidárias, respondam perante os cidadãos que os elegeram e não aos respectivos partidos.
            Os partidos seriam mais atractivos e menos sujeitos às lógicas aparelhísticas se houvesse ainda limitação dos mandatos dos deputados e primárias para a escolha de todos os lugares da lista. De igual modo, ganharia a democracia representativa se os eleitores pudessem escolher através do voto uninominal, votando no candidato e não apenas no partido.
                           in Diário Cidade de 14/8/2012

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Só os deuses sobem ao Olimpo


Apesar do excelente comportamento de alguns atletas, entre os quais se incluem os madeirenses Marcos Freitas, no ténis de mesa, e Helena Rodrigues, na canoagem, ouve-se já, antes do encerramento dos Jogos Olímpicos, o lamento por Portugal não conseguir conquistar medalhas olímpicas.
            Algumas pessoas começam a pedir a cabeça de responsáveis pelo Comité Olímpico, outras iniciam o coro dos queixumes pela falta de apoios estatais ou das próprias federações. Quem raramente se interessa pelo fenómeno desportivo vitupera atletas e a própria mediocridade portuguesa, seguindo o habitual menosprezo colectivo que nos contamina durante longos períodos.
            Quem esperava as duas ou três medalhas do atletismo esquece as lesões que atingiram atletas como Francis Obikwelu, Nélson Évora ou Naide Gomes, de quem se aguardava as conquistas. Quanto ao judo, falharam os atletas portugueses como os de muitos outros países e é isto o desporto. Ao invés, no remo, na canoagem, na vela, no ténis de mesa e até na maratona feminina, os lusitanos conseguiram bons resultados.
            No desporto, ganha-se ou perde-se. Nos Jogos Olímpicos estão os melhores dos melhores de todos os países, logo ganhar é dificílimo, e é isso que todos devemos considerar. Só os deuses sobem ao Olimpo. Muitos deuses actuais são formatados desde meninos por homens, máquinas e seringas, como muitas vezes se verifica semanas, meses ou anos após os Jogos Olímpicos.
            Para os que lamentam a falta de medalhas, num tempo em que todos precisamos de uma alegria portuguesa, verifique-se como a Espanha, com uma população quatro vezes maior que a nossa e uma aposta desportiva muito vincada, só possui três medalhas (duas de prata na natação e uma de bronze na canoagem), a Bélgica duas e a Áustria continua a zeros. E que dizer da rica Alemanha, com mais de 82 milhões de habitantes e apenas vinte e duas medalhas, quando antes da reunificação o Leste e o Oeste mediam forças com a União Soviética e os Estados Unidos?
            A falta de medalhas deverá levar-nos a pensar como custam a ganhar, valorizando-se mais os grandes atletas medalhados ao longo das diversas competições olímpicas. Para que continuem a surgir campeões portugueses, as escolas, a partir do 3º ciclo, deverão considerar a possibilidade de horários diferenciados ou turmas para os jovens desportistas identificados como de qualidade ímpar ou já integrados no desporto de alta competição. Agora com professores sem carga horária (ou horário zero), não será difícil possibilitar aos jovens desportistas compatibilizarem treino e estudo. Talvez assim surjam mais campeões olímpicos.
            Quem sabe se um português não ganha uma medalha nestes dias que faltam… Se assim não acontecer, percebamos que o desporto também é vida, onde se ganha e perde. Não é por acaso que se chama a alguns desportistas jogadores.

 in "Diário Cidade", de 7/8/2012

terça-feira, 31 de julho de 2012

Tempo de férias


Não abordarei as férias dos desempregados, dos funcionários públicos ou dos empregados em empresas com dificuldades. Para todos estes, no fundo a maioria da população, estas férias correspondem apenas a tempo de descanso sem dinheiro para gastos e muito menos para viagens para fora da ilha.
            Falarei do tempo de calmaria que nos oferecerão comentadores e políticos de diversos quadrantes, após meses de tentativa de nos convencerem das suas pessoalíssimas verdades ou das virtudes das suas ideologias. A malta que não vai de férias já não conseguia aguentar mais as acusações de uns para outros, a culpa da “troika” ou de Merkel, a culpa do neo-liberalismo, dos mercados, do sistema, da constituição, da falta de produtividade e de todos os inimigos públicos responsáveis pela crise, pelos incêndios e por toda a desgraça, todos, todos, todos menos os governos da simpatia dos acusadores.
            Ficaremos livres dos deputados que compuseram certamente os piores oito meses da história do parlamento regional e que transformaram o círculo da Assembleia num circo. Ainda ontem um amigo desculpabilizava a mediocridade desse espectáculo político, com a falta de tempo dos deputados, muito preocupados com os seus negócios ou com o marketing relacional a que se dedicam, a justificar o joguinho do “entra e sai” e a vulgaridade discursiva.
            Um descanso, meus senhores, após estes últimos dias de balanço altissonante e auto-elogioso ao trabalho parlamentar, numa azáfama de querer falar de tudo e atacar todos: ele era os incêndios e a falta de helicópteros, ele era a protecção civil e a falta de coordenação, ele era o CINM e os governos de cá e de lá, ele era o Estatuto da Carreira Docente e as explicações aos professores, ele era a RTP-Madeira que antes era um “telejardim” e agora deve ser protegida, ele era a redução do IVA, ele era o cardápio  de decretos, audições parlamentares, comissões de inquérito e requerimentos, uma trabalheira a pedir meças à habitual contabilidade do BE e do PCP na Assembleia da República.
            Que bom, o sossego!
                                                                  in "Diário Cidade" de 31/7/2012 

terça-feira, 24 de julho de 2012

Festa da solidariedade


Foi decepcionante para muitos socialistas a conferência de imprensa de Vítor Freitas, líder do PS-Madeira, nesta segunda-feira.
Apesar de uma azáfama de conferências de imprensa em que ora se garantia a necessidade de meios aéreos para o combate aos fogos, ora se propunha estudos sobre os mesmos meios; de deslocações de roupinha branca e de sapatos de verniz aos locais dos incêndios, com câmaras de filmar atrás, a criticar falta de coordenação, num aproveitamento partidário visível, esperava-se muito mais da direcção socialista.
Convém verificar, a propósito, a diferença de atitude, quanto aos incêndios, do PS-Madeira e do PS nacional, pois, segundo o Diário de Notícias, o próprio António José Seguro “recusou comentar a eventual falta de coordenação no combate às chamas no Algarve e ausência de meios aéreos na Madeira, alegando que os incêndios não devem servir para fazer política partidária”.
Alguns militantes movimentaram-se pressionando a direcção para anular a “Festa da Liberdade” na Fonte do Bispo, aplicando a verba de cerca de meia centena de euros no apoio directo às pessoas que perderam os seus bens. E essa verba poderia crescer com o compromisso da direcção em diminuir as verbas a aplicar na próxima campanha eleitoral autárquica.
Ainda que o mundo não pare com as desgraças que vão acontecendo um pouco por todo o lado e haja culturas onde se faz festa diante do morto, a verdade é que os partidos políticos sobrevivem com meios financeiros provenientes dos impostos dos cidadãos e a sua função primeira não é a de oferecer música à população, logo as festividades bem poderiam ser suspensas num ano em que a própria Fonte do Bispo (local da festa) foi afectada.
Oferece o PS-Madeira o lucro de barraquinhas e o “merchandising” do partido, quando estes não prometem nada que se veja em ano de dificuldades. Resta o valor dos bilhetes de autocarro, que não chegará a um quinto do que o PS-Madeira poderia dispor, em sinal de verdadeira solidariedade, se anulasse a sua festa deste ano.
O PSD também fará a sua festa? Esse é um problema desse partido. As acções ficam com quem as pratica.
                                  in Diário Cidade, de 24/7/2012

terça-feira, 17 de julho de 2012

Oportunidades para todos


A licenciatura de Miguel Relvas, ou o modo como foi conseguida, tem servido para os habituais discursos políticos assentes no acessório, quando sobretudo testemunha a situação a que chegou a política educativa no nosso país.
            A utilização da expressão “política educativa” visa, neste meu texto, mostrar como as duas palavras estão ligadas, de modo a podermos também falar de “educação política” sem nos desviarmos do essencial. Importa sobretudo sublinhar como a ascensão de determinadas figuras à mais elevada hierarquia de poder nos partidos políticos depende de certas “competências” e não de conhecimentos científicos ou humanísticos acerca do mundo e da sociedade.
            Como os poderes partidários estão sujeitos a um desgaste constante, ao ataque continuado e às alternâncias, os políticos “competentes” usam as estruturas onde se integram para estabelecer relações privilegiadas com o poder económico, seja através de sociedades secretas, seja pelas fundações, seja através do mundo empresarial.
            Certos políticos ascendem a uma elite económica e social que facilmente se apercebe das limitações de personalidade e de ciência de figuras formatadas por discursos vazios e repetitivos e alimentadas por televisões e jornais a padecerem das mesmas insuficiências. Para disfarçarem incapacidades, procuram decorar as paredes das suas casas com diplomas e títulos académicos, os quais até poderão servir para garantir um bom cargo em empresa pública ou instituto.
            Apesar da ironia de vermos um adversário do projecto “Novas Oportunidades” aproveitar o que a lei lhe permitiu, não deveríamos estar agora a assistir à segunda parte do jogo Sócrates-Relvas (como representantes do PS-PSD), com tiradas de mau gosto a substituírem os discursos políticos que interessava discutir. Quanto melhor seria analisarmos como os políticos desvalorizaram, ao longo de décadas, conhecimentos, saberes, escolas e universidades, substituindo-os por competências adquiridas em qualquer esquina da vida, com esforços mínimos…
            Reduzindo as dificuldades e o esforço exigidos pelo verdadeiro conhecimento, fingindo não perceber como a lhaneza do saber permite democratizar a mediocridade, alguns políticos, no seu pedestal de Bolonha, têm arrasado o elitismo universitário, para que possam enfim reinar os chicos-espertos.
            Sendo a política uma ciência de duas faces, sendo uma a nobre arte de governar a Cidade em favor dos cidadãos e a outra a “porca” arte de sobrevivência dos poderosos, fácil é perceber o lado onde os ministros adquirem as competências que lhes permitem os créditos universitários.

                                   in "Diário Cidade", de 17/7/2012


terça-feira, 10 de julho de 2012

A Língua Portuguesa nos exames nacionais


Os resultados dos exames de 12º Ano são aguardados nervosamente por todo o sistema de ensino, pela importância que têm na continuidade do percurso académico de cerca de setenta mil jovens de todo o País. Desta avaliação dependerá o curso escolhido e a universidade onde se matricular, com custos variáveis para as bolsas dos encarregados de educação.
            O ministério da Educação é sempre posto à prova, ano após ano, com alguma comunicação social, sindicatos, federações de pais e políticos a apontarem imediatamente erros e incompetências a sistemas e reformas, como se, em Educação, os resultados pudessem aparecer após meses de trabalho ou num simples estalar de dedos.
            Da angústia dos exames não se livram igualmente professores e escolas, visto que os resultados dos alunos dependem do seu esforço mas também da organização escolar e da qualidade do ensino. Apesar da compreensível desculpa de que os resultados dependem muito do número de alunos por turma e do estrato social dos educandos (e dos apoios que as elites ou classes médias podem dispor para os seus filhos), sabem as escolas e percebem os professores que os pais começam a estar atentos às escolas com melhores resultados nos “rankings” destes exames, que não podem ser vistos como um pormenor.
            Ainda que a média dos resultados da disciplina de Português seja um pouco melhor que os de Matemática ou de Física e Química, não deixa de ser negativa, a exigir análise e a impor melhorias. A propósito do início do ano escolar, o capelão-mor da Universidade Católica de Moçambique lembrava que “A entrada na Universidade não se preparava nas vésperas do exame (…)” mas “…desde o primeiro dia de aulas do ensino básico até ao último dia do 12º.” Já agora, e porque a visão é antitética à do nosso sistema de ensino, até agora predominantemente facilitista e baseado no ludismo, continuo a citar o mesmo clérigo de Moçambique: “Hoje em dia, Moçambique precisa de Homens e de Mulheres formados profissionalmente com qualidade, não precisa de profissionais que passaram com 10: desses temos muitos, não há mais vagas para essa turma. Temos muitas vagas para os estudantes que queiram passar o ano de 14 para a frente. É desses que Moçambique precisa”.
            Falando de números, as escolas terão de diminuir o fosso entre a avaliação interna de 14 valores e a nota de exame (média de 9,5), porque a avaliação da oralidade não gera esse desnível, que facilmente pode ser imputado à inflação facilitadora.
            Para além de mais rigor e exigência, o ensino do Português deve centrar-se no que é fundamental: ler, interpretar, escrever. Avaliar atitudes e valores não deve competir a esta disciplina. Os alunos devem cumprir o seu código de conduta, simplesmente. Ensinar competências como a de saber ouvir não deveria fazer perder tempo em relação ao fundamental. O mesmo se diga da Gramática, no modo como está a ser ensinada, a raiar a inutilidade. No exame, apenas 25 dos 200 pontos atestam conhecimentos especificamente gramaticais, pelo que, na realidade, sabendo interpretar e escrever, qualquer aluno se candidataria a uma boa nota.
            Nenhuma obra grandiosa pode ser concretizada sem esforço, nem “cos passeios moles e ouciosos”. O caminho do conhecimento é longo e difícil, mas no final os prémios e as recompensas estão destinados a “os que são de fama amigos” e aos que buscam “co seu forçoso braço”. Não era disso que falava Camões nos versos saídos no exame?
          
                                                         in "Diário Cidade", de 10/7/2012


terça-feira, 3 de julho de 2012

Contando os nomes


As dificuldades do ensino da Gramática colidiram, ao longo de décadas, com um sistema de ensino de tendência marcadamente facilitista e com a visão de uma escola submetida aos ludismos.
            Francamente contra o facto de, na escola, a Gramática (Conhecimento Explícito da Língua) passar a mais uma competência distintiva, em lugar de ocupar o seu posto normativo e auxiliar da leitura, da interpretação e da escrita, temo que se passe de um estádio de dificuldade dos professores para um nível onde estes se tornem papagaios desanimados.
            Hoje falarei do percurso escolar do “nome” ou “substantivo”. A tendência é para que esta classe de palavras deixe mesmo de ser “substantivo”, termo riquíssimo, derivado de “substância” ou “essência”. O problema, imagine-se, seria ligar a “esse”, o “ser” latino. Em vez de permitir os caminhos pelo Latim ou até pela Filosofia, num tempo tão inimigo da cultura e do pensamento, tudo se torna mais fácil com a aceitação de “nome”, ainda que, depois se tenha que ensinar as orações subordinadas “substantivas”, quando estas desempenham uma função característica do “nome”.
            Numa gramática didática atualíssima, definem-se “nomes” como “palavras que funcionam como núcleo do grupo nominal”. Mais do que um truísmo, esta definição é uma nulidade, semelhante a definir “mistério” como o caráter do que é misterioso. Na mesma gramática, ainda que se diga que “os elementos desta classe podem denotar entidades concretas ou abstratas, a verdade é que a tradicional divisão dos nomes entre concretos e abstratos desaparece no Dicionário Terminológico em vigor. Para além de continuar a haver nomes próprios e comuns e estes englobarem o “coletivo”, desaparece a referida dicotomia concreto/abstrato para surgir a oposição “contável/não contável”, sem que se perceba a utilidade destas novas subclasses para a compreensão da língua.
             Estamos efetivamente num tempo de números, onde interessa contar e não pensar ou filosofar. Tornava-se difícil explicar a alunos habituados, desde os primeiros anos, a perceber os concretos como os “substantivos” que indicavam o que podia ser apreendido pelos sentidos, que palavras como “Deus” ou “anjo”, seres impercetíveis, podiam ser concretos. Mas essa era uma tarefa enriquecedora das aulas e do pensamento. O que interessa agora é o mundo explícito, contável, material, que pode e deve ser veiculado com uma folha na mão, bem preparadinha na noite de véspera pelos burocratas dum ensino que caminha para erradicar de vez a imaginação e o pensamento. Nomes? Contáveis ou não contáveis? Alta sabedoria!

                                                                         in "DIário Cidade", de 3/7/12

terça-feira, 26 de junho de 2012

Massacre ou Conhecimento Explícito da Língua






                Teolinda Gersão, ex-professora catedrática da Universidade Nova de Lisboa, onde ensinou Literatura Alemã e Literatura Comparada, e escritora de méritos reconhecidos, como atestam vários prémios literários, entre os quais se destaca o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores, para o seu livro A Casa da Cabeça de Cavalo, em 1995, escreveu recentemente um artigo para o jornal “Público”, onde, ficcionando uma redação de um aluno do 8º Ano, zurze no estado atual do ensino de Língua Portuguesa, especialmente no que concerne à Gramática, a que ora se dá o nome de Conhecimento Explícito da Língua.
            A redação, de um tal João Abelhudo, intitula-se “Declaração de Amor à Língua Portuguesa” e denuncia sarcasticamente as mudanças na terminologia gramatical que, a cavalo de um grupo de linguistas mais interessados na difusão das suas teses académicas do que na defesa e ensino da Língua Portuguesa, atravessou caminhos tortuosos como a TLEBS (Terminologia Linguística para os Ensinos Básico e Secundário) para encalhar no Dicionário Terminológico e neste CEL (Conhecimento Explícito da Língua), imposto à disciplina de Português a partir de 2009 como mais uma competência essencial.
            João Abelhudo, começando por afirmar que “as aulas de português são um massacre”, estranha a passagem de alguns complementos circunstanciais para a nova designação de complementos oblíquos ou até para estranhos predicativos do sujeito, como na frase “O Quim está na retrete”, em que “na retrete” passa a ter o mesmo valor sintático que “bonita” na frase “ela é bonita”. Depois ironiza com “verbos epistémicos, percetivos, psicológicos e outros” e com muito mais: “o tema e o rema, e deve haver coerência e relevância do tema com o rema; há o determinante e o modificador, o determinante possessivo pode ocorrer no modificador apositivo e as locuções coordenativas podem ocorrer em locuções contínuas correlativas”. Pergunta ainda: “o que acham de adjetivalização deverbal e deadjetival, pronomes com valor anafórico, catafórico ou deítico, classes e subclasses do modificador, signo linguístico, hiperonímia, hiponímia, holonímia, meronímia, modalidade epistémica, apreciativa e deôntica, discurso e interdiscurso, texto, cotexto, intertexto, hipotexto, metatatexto, prototexto, macroestruturas e microestruturas textuais, implicação e implicaturas conversacionais?”
            Para não deitar a gramática na retrete, como ameaça o João Abelhudo, é necessário que haja mais vozes a gritar que o rei vai nu nestas terminologias e sobretudo no ensino da Língua Portuguesa, como já avisou Maria do Carmo Vieira ao falar da TLEBS no livro editado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos: “Nem sequer é uma nova terminologia, mas uma nova e voluntarista teimosia em emplastrar os Ensinos Básico e Secundário com pastosas nomencla(tor)turas que, salvo um ou outro aspeto mais fecundo, não devem, à letra, ser usadas nestes níveis de ensino”.
            A valorização do CEL nos novos programas de Português acompanha, como é óbvio, o incremento da pragmática e a desvalorização dos conteúdos literários, caminhando forçadamente a disciplina para o “massacre” de que se queixa o João Abelhudo. Só a beleza e o simbolismo dos textos literários e o amor à Língua Portuguesa por parte de pessoas como Teolinda Gersão, professores e outros intelectuais poderão impedir o desastre.
                                              


terça-feira, 19 de junho de 2012

Golos contra a inveja


Bem mais importante que um jogo de futebol foram as eleições na Grécia e quiçá o próprio ato eleitoral francês, mas para analisar estes momentos políticos andam por aí muitos especialistas, formados em apressados cursos de economia, onde aprenderam a misturar a xenofobia antigermânica com anátemas antiliberais e a confundir discursos trotskistas com manifestos antitroikistas.
            Deixarei essas análises para os políticos que defendem como doutores a estratégia dos eurobonds e que podiam aprender com Mário Soares como trocar as voltas a essa entidade nebulosa a que chamaram mercados: ligar a máquina de fazer notas, e ir imprimindo noite e dia. Já em criança me custava a compreender como os governos não ajudavam os pobres, se podiam fabricar moeda e distribuir por toda a gente. Também estranhava a razão por que se emitiam notas pequenas, se elas poderiam ser todas de mil.
            Por hoje resta-me falar de futebol, correndo o risco de ser apontado como mais um a desviar a atenção do povo face aos problemas que o cercam, mas o que hei de fazer se me enviam pelo facebook o relato, feito por Nuno Matos, da Antena 1, do segundo golo de Portugal contra a Holanda? Foi por emoções destas que comecei a gostar de futebol antes de saber o que era um campo de jogo, mas disto nunca perceberão certos racionalistas de fino, frio e organizado pensamento político e económico.
            Falarei de futebol e de Cristiano Ronaldo, lá terá de ser, umbilicalmente ligados na hora que passa. O madeirense é um dos maiores futebolistas atuais, mas o futebol é um jogo coletivo e tanto considero errado destacar-se até ao Olimpo o marcador dos golos de ontem em todos os títulos mediáticos como obscurecer-lhe a prestação, quando a equipa não brilha. Depois dos golos contra a Holanda cantam-lhe hossanas, mas antes ecoavam críticas pelo seu narcisismo, auto-endeusamento e exibicionismo. Esquecidos de que Cristiano se fez estrela por querer muito ser o que é, por trabalhar desde menino para alcançar os seus objetivos, por desejar superar-se constantemente, muitos dos seus críticos veiculam tristemente a mesquinhez de quem não consegue atingir o cume da montanha que um dia desejou escalar, por ter desistido à primeira dificuldade.
            Há anos ouvi uma anedota a ilustrar este espírito mesquinho: “Numa cidade americana, à saída de uma fábrica onde trabalhavam muitas mulheres, dois operários assistiram ao exibicionismo de um indivíduo que fazia piões ao volante de um Ferrari Testarrossa. Um dos operários disse ao outro que um dia haveria de ter também um carro daqueles, para mostrar às mulheres. Numa cidade portuguesa, o Funchal, dois amigos veem um Ferrari Testarrossa a passar repetidamente junto à Sé, com grande ruído do escape, a exibir-se perante as raparigas que saíam do comércio, ao final da tarde. Um dos amigos disse ao outro: oxalá este “gajo” se espatife ali na ponte do Bazar do Povo”.
            Se a inveja é doença coletiva, ela destaca-se principalmente quando vem de uma pretensa elite intelectual e se dirige àqueles que a si próprios se fazem, escalando a pirâmide à custa dos seus próprios braços ou, como é o caso, através de uma atividade em relação à qual não há cunha ou herança familiar que ajude a distinguir. Certos racionalistas tratam o futebol desdenhosamente como “ludopédio”, quando ele é capaz de motivar e entusiasmar até ao clímax milhões de pessoas em cada país. No Campeonato da Europa como noutros grandes momentos, presidentes e governantes interrompem as suas tarefas políticas para estarem presentes. Raras atividades merecem tão grande atenção como o Futebol. Que faz de tão grandioso gente que procura diminuir o futebol e os futebolistas de alto nível?
            Cada golo de Portugal é um manifesto contra os que acusam o futebol de alienante. Cada golo de Cristiano Ronaldo é um golo contra a inveja.
                                                                                       in Diário Cidade, de 19/6/2012

terça-feira, 12 de junho de 2012

Rol de contradições




                 Prosseguindo uma azáfama que lhe vem garantindo artigos, fotografias e páginas num diário da nossa praça (crendo nas estratégias de comunicação que prometem vitórias eleitorais à custa de propaganda e boa circulação nos órgãos de comunicação social), os socialistas procuram sobretudo disputar com o CDS o lugar de maior partido da oposição regional, e o resto é conversa mal feita.
            Visitando a Calheta, disponibilizaram muitas fotografias a entregar jornais partidários à porta das igrejas, a um passo apenas do seu interior, depois de terem criticado negativamente, durante semanas a fio, o facto de o PSD e o CDS terem estado a fazer o mesmo. Como o local devia ser propício, Victor Freitas pôs-se a perorar sobre o que é de Deus e o que é de César. Desgraçadamente, foi para a porta da igreja falar de pecados, seminários, padres e bispos em vez de falar da política (de César), ou seja, praticou o que procurava criticar.
             Mas não se ficou por aí Victor Freitas, e, (descontando a ignorância de o sítio do PS-M noticiar que Victor Freitas anunciou o desemprego e a imigração (sic) como os principais problemas da Região), na sua ânsia de juntar o CDS e o PSD como culpados da situação regional, afirmou: “todos os madeirenses (e porto-santenses) já perceberam que ele já não manda no seu próprio governo; quem manda no Governo Regional, infelizmente para mal dos nossos pecados, são Pedro Passos Coelho e Paulo Portas e o Dr. Alberto João Jardim não mandando no que foi eleito para mandar…”. Vejamos o que diz Victor Freitas: Pedro Passos Coelho e Paulo Portas mandam no Governo Regional (para mal dos nossos pecados), pelo que implicitamente quer dizer que seria bom que Jardim continuasse a mandar. Depois critica Jardim por não mandar, quando foi eleito para o fazer, mas há alguns dias atrás foi o Grupo Parlamentar do PS a fazer um chinfrim a propósito de uma menção de censura, onde se garantia que o povo que elegeu Jardim para mandar já o queria ver pelas costas. Contradição atrás de contradições, mas não há problemas, porque certo diário da nossa praça continua a garantir artigos, fotografias e páginas.
            A visita à Calheta seguiu-se a uma visita à Assembleia da República, onde Carlos Zorrinho, líder parlamentar do PS nacional ameaçou com um projeto de lei para obrigar o Jornal da Madeira a respeitar regras comerciais, democráticas e de competição económica. Depois de tanto se apregoar defender a Autonomia contra o malvado governo da República, a impor regras nas contas regionais que a oposição (todos ao molho) muito critica (e com razão), vai-se a correr pedir ajuda ao Continente numa luta que não é apenas pela liberdade de empresa, pois é evidente o combate cerrado entre dois jornais e grupos económicos.
            Zorrinho esqueceu-se de dizer que o Presidente da República, a quem mais uma vez o PS-Madeira apela no caso “Jornal da Madeira”, vetou por duas vezes uma proposta de lei do pluralismo e da não concentração nos meios de comunicação social por o PS, com maioria absoluta, não ter sabido criar consenso com os outros partidos na Assembleia da República. Praticamente nada alterou, na segunda proposta, em relação à primeira, em possível demonstração de duas hipóteses: ou não queria o PS que a proposta de lei fosse aceite ou quis mostrar o seu poder absoluto em situação de maioria absoluta. Contradições atrás de contradições, quando se fala do papel do Estado na Comunicação Social, do perigo de concentração dos meios de comunicação em grupos económicos e da liberdade de expressão e respeito pelas vozes minoritárias.

terça-feira, 5 de junho de 2012

Que alegria quando me disseram


Senti-me envolvido por uma alegria esfusiante quando me disseram que todos os partidos de oposição regional se uniram num pacto pela democracia, “de modo a trazer para o quotidiano regional a ética democrática e valores da Liberdade e da livre expressão”. Para que tudo fosse magnífico, assinaram esse pacto partidos defensores de regimes totalitários como as ditaduras do proletariado ou as repúblicas populares que nunca respeitaram minorias e direitos individuais.
            Que alegria saber que “a batalha fundamental dos partidos deve centrar-se no funcionamento da ALRAM” e não no contacto com os cidadãos e com as preocupações e dificuldades destes.
            Que alegria quando estes partidos todos se comprometeram a lutar pela ilegalidade e inconstitucionalidade de algumas normas do Regimento da Assembleia e até o vão tentar alterar, apesar de este parlamento já se submeter a este regime há sete meses e o PSD ditar regimentos e normas parlamentares semelhantes há décadas.
            Que alegria quando este pacto defende a redução dos custos do parlamento e a revisão do Estatuto Político Administrativo da Região, “estabelecendo um conjunto de incompatibilidades, extinção de subsídios de reintegração e subvenções vitalícias de deputados, a duração dos mandatos e a acumulação de reformas como propostas urgentes”. Que alegria, porque não concebo que esta gente seja hipócrita e só defenda estas ideias porque sabe que serão derrotadas pela maioria PSD. Que alegria, porque acredito votarão juntinhos pela diminuição drástica do jackpot, mesmo que isso implique diminuição de festanças e propaganda partidárias. Que alegria, porque calculo que neste grupo não estejam deputados à espera de mais uns aninhos para a sua subvenção vitalícia nem outros a acumular reformas com vencimentos, quando a lei permite que se suspendam reformas. Que alegria, porque acredito que, como se acabaram os direitos adquiridos para os restantes cidadãos, estes representantes do povo cortarão a eito nas mordomias adquiridas por antigos deputados, a gozarem, com bom corpo e saúde para o trabalho, subvenções e reformas sem idade para isso.
            Que alegria quando se percebe que estes deputados pretendem acabar com incompatibilidades como a acumulação da atividade parlamentar (que proporciona imensas e privilegiadas relações com o mundo empresarial) com a vida dos negócios. Que alegria constatar que estes deputados não estão apenas a pensar nos que, sendo do PSD, acumulam funções de compatibilidade duvidosa, mas em alguns deles próprios, assinantes do pacto. Que alegria prever o fim da partidocracia e da demagogia!
            Que alegria quando me disseram: vamos para a casa da Democracia.

                                             in Diário Cidade de 5/6/2012