terça-feira, 18 de setembro de 2012

À espera de problemas



                Na noite de sábado passado, as televisões portuguesas postaram-se junto à Assembleia da República, para acompanhar, em directos constantes e demorados, o final da manifestação “contra a troika”. Os repórteres narravam dramaticamente as movimentações dos manifestantes e da polícia, aguardando com expressa emoção o momento do conflito que desse razão a tanto aparato mediático.
            Os repórteres estão habituados a que as claques desportivas ou os manifestantes políticos entoem com intensidade redobrada os seus cânticos e palavras de ordem quando se apercebem da entrada em directo das reportagens televisivas. Os actores percebem bem como a sua acção apenas se justifica com a difusão do espectáculo e com a multiplicação dos espectadores.
            Num noticiário regional da rádio pública, a propósito da abertura de aulas, interessei-me pela entrada de uma reportagem junto de alunos, onde o locutor fazia referência à alegria das crianças que conhecem uma escola nova e à desmotivação dos que já conhecem a escola. Como professor em véspera de iniciar as aulas, agucei o ouvido para perceber as causas da insatisfação dos jovens, porém não ouvi de nenhum deles palavras de desencanto. O repórter, no entanto, fazia questão de justificar a introdução da locutora, ou, quem sabe, as ordens superiores, e forcejou, questionando as crianças sobre as possíveis consequências negativas da crise económica na sua vida escolar. Finalmente perguntou a uma criança se não estava “à espera de problemas” na escola por causa da crise. O miúdo então respondeu que “talvez”.
            Não há notícias pintadas a cor-de-rosa nem sobre casamentos felizes, mas deve haver limites para esta actual busca mediática da desgraça maior ou do recorde da catástrofe e, sobretudo, em relação às crianças, poupai-as, senhores, poupai-as do vosso apetite pelo sangue e pelo negrume. 
                     in "Diário Cidade" de 18/9/2012

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