Na noite de sábado passado, as
televisões portuguesas postaram-se junto à Assembleia da República, para acompanhar,
em directos constantes e demorados, o final da manifestação “contra a troika”.
Os repórteres narravam dramaticamente as movimentações dos manifestantes e da
polícia, aguardando com expressa emoção o momento do conflito que desse razão a
tanto aparato mediático.
Os
repórteres estão habituados a que as claques desportivas ou os manifestantes
políticos entoem com intensidade redobrada os seus cânticos e palavras de ordem
quando se apercebem da entrada em directo das reportagens televisivas. Os
actores percebem bem como a sua acção apenas se justifica com a difusão do
espectáculo e com a multiplicação dos espectadores.
Num
noticiário regional da rádio pública, a propósito da abertura de aulas,
interessei-me pela entrada de uma reportagem junto de alunos, onde o locutor
fazia referência à alegria das crianças que conhecem uma escola nova e à
desmotivação dos que já conhecem a escola. Como professor em véspera de iniciar
as aulas, agucei o ouvido para perceber as causas da insatisfação dos jovens,
porém não ouvi de nenhum deles palavras de desencanto. O repórter, no entanto,
fazia questão de justificar a introdução da locutora, ou, quem sabe, as ordens
superiores, e forcejou, questionando as crianças sobre as possíveis
consequências negativas da crise económica na sua vida escolar. Finalmente
perguntou a uma criança se não estava “à espera de problemas” na escola por
causa da crise. O miúdo então respondeu que “talvez”.
Não há
notícias pintadas a cor-de-rosa nem sobre casamentos felizes, mas deve haver
limites para esta actual busca mediática da desgraça maior ou do recorde da
catástrofe e, sobretudo, em relação às crianças, poupai-as, senhores, poupai-as
do vosso apetite pelo sangue e pelo negrume.
in "Diário Cidade" de 18/9/2012
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