Os resultados dos exames de 12º Ano são aguardados
nervosamente por todo o sistema de ensino, pela importância que têm na
continuidade do percurso académico de cerca de setenta mil jovens de todo o
País. Desta avaliação dependerá o curso escolhido e a universidade onde se
matricular, com custos variáveis para as bolsas dos encarregados de educação.
O ministério
da Educação é sempre posto à prova, ano após ano, com alguma comunicação
social, sindicatos, federações de pais e políticos a apontarem imediatamente
erros e incompetências a sistemas e reformas, como se, em Educação, os
resultados pudessem aparecer após meses de trabalho ou num simples estalar de
dedos.
Da angústia
dos exames não se livram igualmente professores e escolas, visto que os
resultados dos alunos dependem do seu esforço mas também da organização escolar
e da qualidade do ensino. Apesar da compreensível desculpa de que os resultados
dependem muito do número de alunos por turma e do estrato social dos educandos
(e dos apoios que as elites ou classes médias podem dispor para os seus
filhos), sabem as escolas e percebem os professores que os pais começam a estar
atentos às escolas com melhores resultados nos “rankings” destes exames, que
não podem ser vistos como um pormenor.
Ainda que a
média dos resultados da disciplina de Português seja um pouco melhor que os de
Matemática ou de Física e Química, não deixa de ser negativa, a exigir análise
e a impor melhorias. A propósito do início do ano escolar, o capelão-mor da
Universidade Católica de Moçambique lembrava que “A entrada na Universidade não
se preparava nas vésperas do exame (…)” mas “…desde o primeiro dia de aulas do
ensino básico até ao último dia do 12º.” Já agora, e porque a visão é
antitética à do nosso sistema de ensino, até agora predominantemente
facilitista e baseado no ludismo, continuo a citar o mesmo clérigo de
Moçambique: “Hoje em dia, Moçambique precisa de Homens e de Mulheres formados
profissionalmente com qualidade, não precisa de profissionais que passaram com
10: desses temos muitos, não há mais vagas para essa turma. Temos muitas vagas
para os estudantes que queiram passar o ano de 14 para a frente. É desses que Moçambique
precisa”.
Falando de
números, as escolas terão de diminuir o fosso entre a avaliação interna de 14
valores e a nota de exame (média de 9,5), porque a avaliação da oralidade não
gera esse desnível, que facilmente pode ser imputado à inflação facilitadora.
Para além de
mais rigor e exigência, o ensino do Português deve centrar-se no que é
fundamental: ler, interpretar, escrever. Avaliar atitudes e valores não deve
competir a esta disciplina. Os alunos devem cumprir o seu código de conduta,
simplesmente. Ensinar competências como a de saber ouvir não deveria fazer
perder tempo em relação ao fundamental. O mesmo se diga da Gramática, no modo
como está a ser ensinada, a raiar a inutilidade. No exame, apenas 25 dos 200
pontos atestam conhecimentos especificamente gramaticais, pelo que, na
realidade, sabendo interpretar e escrever, qualquer aluno se candidataria a uma
boa nota.
Nenhuma obra
grandiosa pode ser concretizada sem esforço, nem “cos passeios moles e
ouciosos”. O caminho do conhecimento é longo e difícil, mas no final os prémios
e as recompensas estão destinados a “os que são de fama amigos” e aos que
buscam “co seu forçoso braço”. Não era disso que falava Camões nos versos
saídos no exame?
in "Diário Cidade", de 10/7/2012
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