A licenciatura de
Miguel Relvas, ou o modo como foi conseguida, tem servido para os habituais
discursos políticos assentes no acessório, quando sobretudo testemunha a
situação a que chegou a política educativa no nosso país.
A utilização da expressão “política
educativa” visa, neste meu texto, mostrar como as duas palavras estão ligadas,
de modo a podermos também falar de “educação política” sem nos desviarmos do
essencial. Importa sobretudo sublinhar como a ascensão de determinadas figuras
à mais elevada hierarquia de poder nos partidos políticos depende de certas
“competências” e não de conhecimentos científicos ou humanísticos acerca do
mundo e da sociedade.
Como os poderes partidários estão sujeitos
a um desgaste constante, ao ataque continuado e às alternâncias, os políticos
“competentes” usam as estruturas onde se integram para estabelecer relações
privilegiadas com o poder económico, seja através de sociedades secretas, seja
pelas fundações, seja através do mundo empresarial.
Certos políticos ascendem a uma
elite económica e social que facilmente se apercebe das limitações de
personalidade e de ciência de figuras formatadas por discursos vazios e
repetitivos e alimentadas por televisões e jornais a padecerem das mesmas
insuficiências. Para disfarçarem incapacidades, procuram decorar as paredes das
suas casas com diplomas e títulos académicos, os quais até poderão servir para
garantir um bom cargo em empresa pública ou instituto.
Apesar da ironia de vermos um
adversário do projecto “Novas Oportunidades” aproveitar o que a lei lhe
permitiu, não deveríamos estar agora a assistir à segunda parte do jogo
Sócrates-Relvas (como representantes do PS-PSD), com tiradas de mau gosto a
substituírem os discursos políticos que interessava discutir. Quanto melhor
seria analisarmos como os políticos desvalorizaram, ao longo de décadas,
conhecimentos, saberes, escolas e universidades, substituindo-os por
competências adquiridas em qualquer esquina da vida, com esforços mínimos…
Reduzindo as dificuldades e o
esforço exigidos pelo verdadeiro conhecimento, fingindo não perceber como a
lhaneza do saber permite democratizar a mediocridade, alguns políticos, no seu
pedestal de Bolonha, têm arrasado o elitismo universitário, para que possam
enfim reinar os chicos-espertos.
Sendo a política uma ciência de duas
faces, sendo uma a nobre arte de governar a Cidade em favor dos cidadãos e a
outra a “porca” arte de sobrevivência dos poderosos, fácil é perceber o lado
onde os ministros adquirem as competências que lhes permitem os créditos
universitários.
in "Diário Cidade", de 17/7/2012
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