terça-feira, 6 de novembro de 2012

O sonho de Agamémnon




O sonho de Agamémnon


                O amor à arte e a insistência de um amigo obrigam-me a abandonar o silêncio a que me dediquei durante algum tempo.
                O meu amigo A. P., desempregado de um escritório falido, faltando-lhe o dinheiro para a costumada deambulação pelos bares da cidade, tem passado o tempo em casa a escrever e a comer bolachas. Falou-me das suas dificuldades económicas, ao entregar-me um embrulho de papel pardo, onde, segundo dizia, apresentava ainda manuscrita, imagine-se, a aurora da verdadeira literatura madeirense, pedindo-me, além de um empréstimo por conta dos futuros rendimentos da obra, que a lesse, comentasse e divulgasse.
                Em folhas amareladas e com dedadas de gordura, encontrei uns poemas “da decadência” - bem superiores ao lixo acumulado em versos de meninas de liceu que se andam a editar por aí, rimando a descoberta do “eu” com a partilha dos afectos -, um conto satírico chamado “O clima” e o texto dramático “O Novíssimo Agamémnon”, classificado como tragédia.
                Lido o Agamémnon de A. P, conversei com o autor. Não eram dignas de tão distinto género algumas frases, apropriadas, pelo contrário, à comédia burlesca, mas o meu amigo, teimoso e convencido como só os artistas, não admitiu mudança alguma. Lavo então as mãos em relação ao previsível fracasso editorial, lamentando a reduzidíssima esperança em reaver o dinheiro emprestado. Observai criticamente, caros leitores, esta passagem:

Da escuridão solta-se um som cavo, como um grito opresso, um gemido aflito. A mão de Agamémnon acende a luz ténue da mesa-de-cabeceira da sua cama de dossel e o príncipe soergue-se, inchado de medo, até um grande espelho, defronte. Ao seu lado, Clitemnestra desperta do sono e empunha de imediato uma raqueta.
CLITEMNESTRA – Um mosquito outra vez?
AGAMÉMNON – O sonho, o maldito sonho: espetam-me facas nas costas, os malditos. Permitiram-me os deuses, depois de tantas vitórias, pisar os bordados tapetes púrpura da minha habitação, mas são os meus, os meus, a quem ofereci quarenta e quatro triunfos e décadas de favores e prebendas, a desejarem a minha morte. E tu, Clitemnestra, tu sabes quem eles são. No meu sonho vejo-te ao lado dos mesquinhos e invejosos.
CLITEMNESTRA – Quem não é invejado, não é digno de o ser. E como poderia querer-te mal,
se até os deuses  te invejam? Só os ditadores permaneceram tantos invernos no trono. És realmente o único a obter tal número de vitórias pelo voto. Esquece o sonho, ou visita novamente a brasileira. Ela sempre previu o teu tapete de vitórias.
AGAMÉMNON – Facas, centenas, milhares, cada vez mais facas nas costas. Ofereci-lhes carros, casas, empregos e dinheiro, muito dinheiro, que nem sabiam donde vinha. Defendi-os como um pai, ou um padrinho. Deveriam ficar permanentemente agradecidos…
CLITEMNESTRA – Mais que um pai terreno, és o pai da pátria e o seu deus, e eles adoram-te.
AGAMÉMNON - Esses malditos apenas adoram o poder e o dinheiro. Quanto à pátria, prometi-a como ideal, e quis erguê-la, mas trocaram-na pelo vil metal. Facas nas costas… mas confrontá-los-ei um a um. Ameaçarei retirar-lhes títulos e benefícios e olhá-los-ei bem no fundo dos seus olhos, borrados de medo. E tu, Clitemnestra, desaparece-me do sonho. Apanhaste algum mosquito?”

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