O sonho de Agamémnon
O amor à arte e a
insistência de um amigo obrigam-me a abandonar o silêncio a que me dediquei
durante algum tempo.
O meu amigo A.
P., desempregado de um escritório falido, faltando-lhe o dinheiro para a costumada
deambulação pelos bares da cidade, tem passado o tempo em casa a escrever e a
comer bolachas. Falou-me das suas dificuldades económicas, ao entregar-me um
embrulho de papel pardo, onde, segundo dizia, apresentava ainda manuscrita,
imagine-se, a aurora da verdadeira literatura madeirense, pedindo-me, além de
um empréstimo por conta dos futuros rendimentos da obra, que a lesse,
comentasse e divulgasse.
Em folhas
amareladas e com dedadas de gordura, encontrei uns poemas “da decadência” - bem
superiores ao lixo acumulado em versos de meninas de liceu que se andam a
editar por aí, rimando a descoberta do “eu” com a partilha dos afectos -, um
conto satírico chamado “O clima” e o texto dramático “O Novíssimo Agamémnon”,
classificado como tragédia.
Lido o Agamémnon
de A. P, conversei com o autor. Não eram dignas de tão distinto género algumas
frases, apropriadas, pelo contrário, à comédia burlesca, mas o meu amigo,
teimoso e convencido como só os artistas, não admitiu mudança alguma. Lavo
então as mãos em relação ao previsível fracasso editorial, lamentando a
reduzidíssima esperança em reaver o dinheiro emprestado. Observai criticamente,
caros leitores, esta passagem:
“Da escuridão solta-se um som
cavo, como um grito opresso, um gemido aflito. A mão de Agamémnon acende a luz
ténue da mesa-de-cabeceira da sua cama de dossel e o príncipe soergue-se,
inchado de medo, até um grande espelho, defronte. Ao seu lado, Clitemnestra
desperta do sono e empunha de imediato uma raqueta.
CLITEMNESTRA – Um mosquito outra vez?
AGAMÉMNON – O sonho, o maldito sonho: espetam-me facas nas costas, os
malditos. Permitiram-me os deuses, depois de tantas vitórias, pisar os bordados
tapetes púrpura da minha habitação, mas são os meus, os meus, a quem ofereci
quarenta e quatro triunfos e décadas de favores e prebendas, a desejarem a
minha morte. E tu, Clitemnestra, tu sabes quem eles são. No meu sonho vejo-te
ao lado dos mesquinhos e invejosos.
CLITEMNESTRA – Quem não é invejado, não é digno de o ser. E como
poderia querer-te mal,
se até os deuses te invejam? Só
os ditadores permaneceram tantos invernos no trono. És realmente o único a
obter tal número de vitórias pelo voto. Esquece o sonho, ou visita novamente a
brasileira. Ela sempre previu o teu tapete de vitórias.
AGAMÉMNON – Facas, centenas, milhares, cada vez mais facas nas costas.
Ofereci-lhes carros, casas, empregos e dinheiro, muito dinheiro, que nem sabiam
donde vinha. Defendi-os como um pai, ou um padrinho. Deveriam ficar
permanentemente agradecidos…
CLITEMNESTRA – Mais que um pai terreno, és o pai da pátria e o seu
deus, e eles adoram-te.
AGAMÉMNON - Esses malditos apenas adoram o poder e o dinheiro. Quanto
à pátria, prometi-a como ideal, e quis erguê-la, mas trocaram-na pelo vil
metal. Facas nas costas… mas confrontá-los-ei um a um. Ameaçarei retirar-lhes
títulos e benefícios e olhá-los-ei bem no fundo dos seus olhos, borrados de
medo. E tu, Clitemnestra, desaparece-me do sonho. Apanhaste algum mosquito?”
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