quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Desculpas e maus pagadores




                As declarações do porta-voz do Partido Socialista sobre o encontro entre Passos Coelho e Ângela Merkel, chanceler alemã, mostram como à mediocridade partidária se liga facilmente, nos dias de hoje, a ânsia do assalto ao poder e ao aparelho de Estado. Afirmar que o Primeiro-ministro “prefere o consenso com a chanceler alemã em vez do consenso com o País” e falar que “o Governo demonstrou submissão e subserviência”, para além de aproximar o discurso socialista ao da esquerda comunista, atesta ignorância em relação à história do Partido Socialista.
                Formado em 1973, na República Federal Alemã, sob os auspícios da Fundação Friedrich Ebert, o Partido Socialista viria a receber avultadas somas do SPD alemão, tal como receberia de outros partidos da Internacional Socialista (com destaque para o PS-D Sueco), e dos próprios Estados Unidos, através da C.I.A., conforme descobriu Rui Mateus no seu livro “Contos Proibidos – Memórias de Um PS desconhecido”. Dirá o antigo responsável pelas Relações Internacionais do PS que, para exemplo, “no ano eleitoral de 1976, vários partidos e entidades estrangeiras entregaram avultadíssimas somas em dinheiro, por todos os meios, os quais a Administração Financeira – do PS - ia classificando como “angariação de fundos”.
                Como há quem acredite que neste mundo da política possa haver o conceito de desprendida solidariedade internacional, sob os auspícios de uma Internacional Socialista, cito uma extensa passagem do livro que venho referenciando: “foram criadas – durante os dois primeiros governos - as primeiras Fundações que teriam no PS um papel de grande relevo. Mário Soares seria sempre o primeiro fundador e a República Federal Alemã e os Estados Unidos passariam a ter um papel determinante na vida política portuguesa.
                Os enormes fundos das fundações políticas alemãs, ligadas aos partidos Social-Democrata, Democrata Cristão e Liberal, eram postos à disposição destes pelo Estado Alemão para garantir, no estrangeiro, a abertura de portas aos interesses daquele país. Nos países onde estas fundações actuam, às vezes com gestos de solidariedade em tempos difíceis, como foi o caso do apoio ao PS português durante a clandestinidade, há sempre uma fundação alemã próxima do governo desse país. No caso português, houve sempre fundações para as diferentes alternativas: a Friedrich Ebert ligada ao PS, a Konrad Adenauer ao CDS e a Friedrich Naumann ao PSD”.
                Talvez porque na altura ninguém sonhasse com redes sociais, não víamos militantes socialistas acusarem os líderes alemães de nazis ou anátemas do género – esquecidos de que o povo alemão livre sofreu a perseguição dos seus próprios governantes, que milhões de jovens soldados germânicos perderam as suas vidas no serviço militar obrigatório e que o povo alemão também sofreu o seu holocausto sob as bombas dos vencedores e nos trabalhos forçados nas sibérias soviéticas – nem os acusarem de dominadores económicos. Na altura exaltava-se a “Europa Connosco” e não se discutia as intenções dos Estados Unidas e da República Federal Alemã que nos emprestaram 1,5 mil milhões de dólares, com o aval do FMI e respectiva austeridade, no chamado Grande Empréstimo.
                Conforme diz Manuel Maria Carrilho, antigo ministro socialista, os portugueses estão perante uma perda de soberania dramática, pelo que não deveria haver perdão para quem nos conduziu até aqui.
                Como os responsáveis pela actual situação do povo português não estão dispostos a assumir a sua culpa, o mais fácil é acusar o estrangeiro, o eterno responsável pelas desgraças caseiras: uma xenofobia institucionalizada e facilmente inculcada.

Sem comentários:

Enviar um comentário