As declarações do
porta-voz do Partido Socialista sobre o encontro entre Passos Coelho e Ângela
Merkel, chanceler alemã, mostram como à mediocridade partidária se liga
facilmente, nos dias de hoje, a ânsia do assalto ao poder e ao aparelho de
Estado. Afirmar que o Primeiro-ministro “prefere o consenso com a chanceler
alemã em vez do consenso com o País” e falar que “o Governo demonstrou
submissão e subserviência”, para além de aproximar o discurso socialista ao da
esquerda comunista, atesta ignorância em relação à história do Partido
Socialista.
Formado em 1973,
na República Federal Alemã, sob os auspícios da Fundação Friedrich Ebert, o
Partido Socialista viria a receber avultadas somas do SPD alemão, tal como
receberia de outros partidos da Internacional Socialista (com destaque para o
PS-D Sueco), e dos próprios Estados Unidos, através da C.I.A., conforme
descobriu Rui Mateus no seu livro “Contos Proibidos – Memórias de Um PS
desconhecido”. Dirá o antigo responsável pelas Relações Internacionais do PS
que, para exemplo, “no ano eleitoral de 1976, vários partidos e entidades
estrangeiras entregaram avultadíssimas somas em dinheiro, por todos os meios,
os quais a Administração Financeira – do PS - ia classificando como “angariação
de fundos”.
Como há quem
acredite que neste mundo da política possa haver o conceito de desprendida
solidariedade internacional, sob os auspícios de uma Internacional Socialista,
cito uma extensa passagem do livro que venho referenciando: “foram criadas –
durante os dois primeiros governos - as primeiras Fundações que teriam no PS um
papel de grande relevo. Mário Soares seria sempre o primeiro fundador e a
República Federal Alemã e os Estados Unidos passariam a ter um papel
determinante na vida política portuguesa.
Os enormes fundos
das fundações políticas alemãs, ligadas aos partidos Social-Democrata,
Democrata Cristão e Liberal, eram postos à disposição destes pelo Estado Alemão
para garantir, no estrangeiro, a abertura de portas aos interesses daquele
país. Nos países onde estas fundações actuam, às vezes com gestos de
solidariedade em tempos difíceis, como foi o caso do apoio ao PS português
durante a clandestinidade, há sempre uma fundação alemã próxima do governo
desse país. No caso português, houve sempre fundações para as diferentes
alternativas: a Friedrich Ebert ligada ao PS, a Konrad Adenauer ao CDS e a
Friedrich Naumann ao PSD”.
Talvez porque na
altura ninguém sonhasse com redes sociais, não víamos militantes socialistas
acusarem os líderes alemães de nazis ou anátemas do género – esquecidos de que
o povo alemão livre sofreu a perseguição dos seus próprios governantes, que
milhões de jovens soldados germânicos perderam as suas vidas no serviço militar
obrigatório e que o povo alemão também sofreu o seu holocausto sob as bombas
dos vencedores e nos trabalhos forçados nas sibérias soviéticas – nem os
acusarem de dominadores económicos. Na altura exaltava-se a “Europa Connosco” e
não se discutia as intenções dos Estados Unidas e da República Federal Alemã
que nos emprestaram 1,5 mil milhões de dólares, com o aval do FMI e respectiva
austeridade, no chamado Grande Empréstimo.
Conforme diz
Manuel Maria Carrilho, antigo ministro socialista, os portugueses estão perante
uma perda de soberania dramática, pelo que não deveria haver perdão para quem
nos conduziu até aqui.
Como os
responsáveis pela actual situação do povo português não estão dispostos a
assumir a sua culpa, o mais fácil é acusar o estrangeiro, o eterno responsável
pelas desgraças caseiras: uma xenofobia institucionalizada e facilmente
inculcada.
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