Bem mais importante
que um jogo de futebol foram as eleições na Grécia e quiçá o próprio ato
eleitoral francês, mas para analisar estes momentos políticos andam por aí
muitos especialistas, formados em apressados cursos de economia, onde
aprenderam a misturar a xenofobia antigermânica com anátemas antiliberais e a
confundir discursos trotskistas com manifestos antitroikistas.
Deixarei essas análises para os
políticos que defendem como doutores a estratégia dos eurobonds e que podiam
aprender com Mário Soares como trocar as voltas a essa entidade nebulosa a que
chamaram mercados: ligar a máquina de fazer notas, e ir imprimindo noite e dia.
Já em criança me custava a compreender como os governos não ajudavam os pobres,
se podiam fabricar moeda e distribuir por toda a gente. Também estranhava a
razão por que se emitiam notas pequenas, se elas poderiam ser todas de mil.
Por hoje resta-me falar de futebol,
correndo o risco de ser apontado como mais um a desviar a atenção do povo face
aos problemas que o cercam, mas o que hei de fazer se me enviam pelo facebook o
relato, feito por Nuno Matos, da Antena 1, do segundo golo de Portugal contra a
Holanda? Foi por emoções destas que comecei a gostar de futebol antes de saber
o que era um campo de jogo, mas disto nunca perceberão certos racionalistas de
fino, frio e organizado pensamento político e económico.
Falarei de futebol e de Cristiano
Ronaldo, lá terá de ser, umbilicalmente ligados na hora que passa. O madeirense
é um dos maiores futebolistas atuais, mas o futebol é um jogo coletivo e tanto
considero errado destacar-se até ao Olimpo o marcador dos golos de ontem em
todos os títulos mediáticos como obscurecer-lhe a prestação, quando a equipa
não brilha. Depois dos golos contra a Holanda cantam-lhe hossanas, mas antes
ecoavam críticas pelo seu narcisismo, auto-endeusamento e exibicionismo.
Esquecidos de que Cristiano se fez estrela por querer muito ser o que é, por
trabalhar desde menino para alcançar os seus objetivos, por desejar superar-se
constantemente, muitos dos seus críticos veiculam tristemente a mesquinhez de
quem não consegue atingir o cume da montanha que um dia desejou escalar, por
ter desistido à primeira dificuldade.
Há anos ouvi uma anedota a ilustrar
este espírito mesquinho: “Numa cidade americana, à saída de uma fábrica onde
trabalhavam muitas mulheres, dois operários assistiram ao exibicionismo de um
indivíduo que fazia piões ao volante de um Ferrari Testarrossa. Um dos operários
disse ao outro que um dia haveria de ter também um carro daqueles, para mostrar
às mulheres. Numa cidade portuguesa, o Funchal, dois amigos veem um Ferrari
Testarrossa a passar repetidamente junto à Sé, com grande ruído do escape, a
exibir-se perante as raparigas que saíam do comércio, ao final da tarde. Um dos
amigos disse ao outro: oxalá este “gajo” se espatife ali na ponte do Bazar do
Povo”.
Se a inveja é doença coletiva, ela
destaca-se principalmente quando vem de uma pretensa elite intelectual e se
dirige àqueles que a si próprios se fazem, escalando a pirâmide à custa dos
seus próprios braços ou, como é o caso, através de uma atividade em relação à
qual não há cunha ou herança familiar que ajude a distinguir. Certos
racionalistas tratam o futebol desdenhosamente como “ludopédio”, quando ele é
capaz de motivar e entusiasmar até ao clímax milhões de pessoas em cada país.
No Campeonato da Europa como noutros grandes momentos, presidentes e
governantes interrompem as suas tarefas políticas para estarem presentes. Raras
atividades merecem tão grande atenção como o Futebol. Que faz de tão grandioso
gente que procura diminuir o futebol e os futebolistas de alto nível?
Cada golo de Portugal é um manifesto
contra os que acusam o futebol de alienante. Cada golo de Cristiano Ronaldo é
um golo contra a inveja.
in Diário Cidade, de 19/6/2012
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