quinta-feira, 25 de julho de 2024

Gazeta Insular, edição 4, de 25/7/24

 Aqui, ou na página facebook de Agostinho Soares, a edição 4 de Gazeta Insular.

RESUMO:

página 1: Musk e a guerra ao Wokismo: o meu filho morreu; 

                O wokismo.

página 2: Diana é um verbo transitivo;

                A transexualidade em Diana é um verbo transitivo;

                As pessoas que menstruam.

página 3: Uma voltinha no quintal: Dez mil euros por lagartixa?

                O wokismo na linguagem: Novilíngua epolícia de pensamento (Sobre Tudo é tabu, de Pedro Correia).



               

quinta-feira, 18 de julho de 2024

GAZETA INSULAR


             Um modo de vida
                        Um amigo no inferno

A Gazeta Insular é um boletim (em formato de jornal de 4 páginas), editado por Agostinho Soares, que pode ser encontrado na página de facebook deste autor.

A Gazeta Insular é um semanário com saída preferencial às quintas-feiras, com temática essencialmente política (regional, nacional e internacional). No entanto, outros aspectos do quotidiano têm ou terão existência neste boletim, que aguarda a visita de quem goste de ler, pensar e, até, escrever.

Na Gazeta Insular nº 3, a sair no final desta tarde (18/7), apresentará os seguintes temas:
página 1: (A ALM e a discussão do Orçamento Regional 2024), com foco na Iniciativa Liberal;
página 2: Um amigo no Inferno: Corrupção, nepotismo, amiguismo ou favor?
página 3: Uma voltinha no quintal - Resquícios da tradição (Sobre o comércio "tradicional")
página 4: O PS receia perda eleitoral - Recuo ou contorcionismo? (sobre o voto do PS no OR 2024)

Boa leitura!

quarta-feira, 12 de junho de 2024

PETIÇÃO SOBRE JERUSALÉM (Documento original)

Documento original na minha posse encontrado em livro  do Visconde do Porto da Cruz (uma carta dirigida a uma senhora - "Chère amie"-, pedindo a intercessão para obter as assinaturas de Olivier Guichard, Jacques Baumes, e, se possível, de Pompidou e Palewsky, e de qualquer outra personalidade do primeiro plano político).


A petição, que deveria ser enviada à O. N. U. pelo Príncipe Xavier de Bourbon Parme, é da responsabilidade de "Le Comité PAIX A JERUSALEM" e pedia que se alertasse a consciência do mundo acerca dos acontecimentos em Jerusalém,


A carta possui parte da fórmula de despedida em forma manuscrita e tinta azul original, tal como é original a assinatura, de autor que não consigo reconhecer.
Eis os nomes referidos no documento, a ajudar a delimitar temporalmente a data da carta:
Príncipe Xavier de Bourbon Parme (n. 1889 -- 7-5-1977) foi Chefe da Casa Ducal de Parma  e pretendente carlista ao trono de Espanha sob o nome de Javier I;
François Porcet (n. 1887 -- 8-1978) foi um político e diplomata francês cujo cargo como embaixador na Alemanha lhe permitiu testemunhar a ascensão ao poder de Adolf Hitler e do Partido Nazi;
Gabriel Marcel (n.1889  -- 8-10-1973 foi um filósofo e compositor francês;
François Mauriac (n. 1885 -- 1-9-1970), escritor francês;
Maréchele de Lattre de Tassigny (n. 1906 -- 3-6-2002), esposa do marechal francês Jean de Lattre de Tassigny, foi presidente da edilidade de Mouilleron-en-Pareds (Vendée), entre 1956 e 1977.
Robert Schumman (n. 1886 -- 4-9-1963), luxemburguês, primeiro-ministro de França entre 1947 e 1948, propôs a   criação da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, que foi origem da atual União Europeia;
Olivier Guichard (n. 1920 -- 20-1-2004), político e ministro francês;
Jaccques Baumel (n. 1918 -- 17-2-2006), político francês especialista em diplomacia parlamentar;
Georges Pompidou (n. 1911 -- 2-4-1974), presidente da França de 1969 a 1974;
Palewsky (Gaston Palewskin, n. 1901 --3-9- 1984), político francês, foi colaborador próximo de De Gaulle;
Thant (Maha Thray Sithu U Thant. n. 1909 -- 25-9-1974), político birmanês, foi o terceiro secretário-geral das Nações Unidas, com dois mandatos, de 30 de Novembro de1961 a 1971.
A partir da das datas de falecimento destas individualidades, verificamos que, tendo Roberto Schumman falecido a de 4 de Setembro de 1963, a carta foi escrita antes desta data, mas depois do início do primeiro mandato de Maha U Thant como secretário geral das Nações Unidas, a 30 de Novembro de 1961. Significa isto que esta carta foi escrita entre 30 de Novembro de 1961 e 4 de Setembro de 1963.
Que acontecimentos se terão passado em data próxima no Médio Oriente, antes da Guerra dos Seis Dias?
Em 1956, o Egipto nacionalizou o canal do Suez, até então sob o domínio britânico, impedindo, assim, o acesso de Israel ao Mar Vermelho. Com o apoio do Reino Unido e da França, Israel declarou guerra ao Egipto de Nasser, mas a ameaça da União Soviética de usar armas nucleares contra os seus adversários políticos ocidentais levou a que os Estados Unidos e a ONU provocassem a retirada dos três invasores do Egipto.
Quanto a Jerusalém, que foi declarada capital de Israel, logo na fundação deste, esteve dividida após a Jordânia ter anexado a Jerusalém Oriental, em 1950 e assumido o poder dos lugares sagrados na Cidade Velha, tendo sido proibido aos israelitas  o acesso aos lugares sagrados judaicos, muitos dos quais profanados. Só a Guerra dos Seis Dias, em 1967, permitiu a Israel o domínio de toda a cidade.













terça-feira, 11 de junho de 2024

O ÓDIO AOS JUDEUS (Parte III)

Hannah  Arendt, no Prefácio à I parte de As Origens do Totalitarismo, afirma "que a história do anti-semitismo, como a história do ódio aos judeus é parte intricante da longa e intrincada história das relações que prevaleciam entre os judeus e gentios desde o início da dispersáo judaica"  e, mais ã frente, refere: "Dois factos reais foram decisivos para a formação dos conceitos erróneos e fatídicos que ainda permeiam as versões populares da história  judaica: 1, Em parte nenhuma e em tempo nenhum depois da destruiçáo do Templo de Jerusalém (no ano 70) os judeus possuíram território próprio e Estado próprio; 2. A sua existência física dependeu sempre da protecção, embora se lhes concedesse, em várias regiões, alguns meios de autodefesa, como, por exemplo, aos judeus da França e da Alemanha até começos do século XIII o direito de usar armas. Isto não significa que os judeus nunca tiveram força, mas a verdade é que, em qualquer disputa violenta, não importa por que motivos, os judeus eram  não apenas vulneráveis mas também indefesos".

Regresso ao texto de Joel Fishman, nomeado na Parte II deste tríptico: Desde a década de 1960, a inversão da verdade e da realidade tem sido um dos métodos de propaganda mais favorecidos pelos adversários de Israel. Uma das suas expressões mais frequentes tem sido a acusação de que o povo judeu, vítima dos nazis, se tornou agora nos novos nazis, agressores e opressores dos árabes palestinianos. Observadores contemporâneos identificaram este método e descreveram-no como uma “inversão da realidade”, um “truque de confiança intelectual”, “inversão da responsabilidade moral” ou “lógica distorcida”. Como os inimigos de Israel, durante quase meio século, repetiram tais difamações sem contestação, algumas pessoas começaram a acreditar nelas (...) O investigador e filósofo francês Pierre-André Taguieff aplicou o termo “anti-semitismo absoluto” para descrever a perspectiva pós-1967 dos palestinianos. Ele escreveu que para eles, “o sionismo, então, é um novo 'nazismo' que ameaça dominar e destruir toda a espécie humana…. Assim, num contexto em que as elites ocidentais nunca se cansam de pedir que se evitem declarações 'islamofóbicas', o chefe do Centro Islâmico em Genebra, Hani Ramadan, denunciou friamente 'o genocídio que está a ser organizado contra os muçulmanos."

É digno de nota que o enredo do Ramadã é quase idêntico ao dos propagandistas nazistas. Ambos se apresentaram como alvos de uma conspiração judaica, e o resultado potencial do seu “processo lógico” – para usar a expressão de Hannah Arendt – foi o genocídio. Embora ambos tenham invertido a verdade, as suas afirmações contêm uma característica adicional que é perturbadora e perigosa: a inversão da moralidade que leva ao comportamento criminoso e à violência sem restrições".

Regressar à "Terra prometida" foi o sonho e a esperança dos judeus que sempre se sentiram discriminados, perseguidos, escorraçados e queimados "per saecula saeculorum". Em 1917, durante a I Guerra Mundial, o Ministro Britânico de Relações Exteriores emitiu  a Declaração Balfour: "O governo de Sua Majestade encara favoravelmente o estabelecimento na Palestina de um lar nacional para o Povo Judeu".
O Estado de Israel resulta do movimento sionista, surgido em defesa da ideia de estabelecer um Estado judaico na Palestina. A criação do Estado de Israel foi oficializada em 14 de maio de 1948, concretizando a proposta da ONU de dividir o território da Palestina em duas nações: Israel e Palestina.
Israel tem sido obrigado a defender-se em guerras a que vários estados árabes o têm obrigado, no seu apoio aos palestinianos, que não aceitam a perspectiva da existência de dois estados (Israel e Palestina). Os líderes palestinianos  têm insistido que o seu objectivo é a destruição do Estado de Israel, deixando a este a fatalidade de lutar pela sobrevivência: matar ou morrer.

(imagem de Telavive, crédito de Jose Hernandez)

O modo como a comunicação social ocidental se tem posicionado surge na sequência da política que Moscovo ditou no seu período bolchevista, de ataque e "progroms" aos judeus nos países de Leste, e apoio aos países árabes anti-sionistas. Testemunha esta afirmação o documento que encontramos na internet (https://palmediaforum.org/wp-content/uploads/2023/09/02-Pr-Jerusalem.pdf), produzido por "Internacional Forum Palestine", por "Amigos da Palestina" e por "Vision Center for Political Development", intitulado: "Manual de política da mídia para cobrir a questão de Jerusalém", que começa com a indicação "Enfatize que a cidade de Jerusalém é a capital da Palestina, uma cidade árabe enraizada na história, ela com suas santidades islâmicas e cristãs e seus valores civis e humanos de status mundial tornaram ela um fórum para a coexistência de comunidades religiosas, por um lado, e um destino de ganância e destino para campanhas de guerra e ocupação, por outro, As gangues sionistas ocuparam o oeste de Jerusalém em 1948 durante os eventos da Nakba, então a ocupação foi estendida pela força militar para Jerusalém Oriental e foi ocupada em 1967 sem qualquer direito histórico de governar lá". Depois insiste-se na negativa: "refutar e reservar a narrativa sionista sobre a Jerusalém histórica e moderna e os locais sagrados e as reivindicações, e por outro lado, promover a presença e divulgação da historia árabe e islâmica científica confiável em torno de Jerusalém e seus lugares sagrados, sua história, sua civilização e a ocupação atual."
Embora se deva ler o texto na íntegra, para perceber como estas orientações dos amigos da Palestina tem sido aplicada por uma grande maioria da comunicação social no Ocidente e, especificamente em Portugal, no referido "Manual", retiro ainda a indicação da parcialidade que o documento propõe: "Vincular os desenvolvimentos campais, como levantes, ataques e atos de resistência palestina em Jerusalém pela realidade da ocupação, agressão e violações cometidas pela ocupação na cidade, é uma reação lógica e legítima. Além de aprofundar a base de que a luta nacional palestina não está separada da luta árabe, especificamente na questão de Jerusalém. Evitar a dependência de fontes de notícias secundárias como fontes de ocupação em relação à questão de Jerusalém, e confiar principalmente nas fontes locais da Palestina, órgãos e instituições preocupados com assuntos de Jerusalém e fontes confiáveis de informação", ou ainda esta "pérola" da tentativa de unificar a expressão, logo o pensamento: "Não usar os termos usados pela ocupação, sem esclarecimento, como (o município de Jerusalém), e colar a palavra «ocupação» às instituições do Estado ocupante e termos que refletem a «violação dos direitos humanos» em particular, tais como: (o governo de ocupação, o exército de ocupação, a polícia de ocupação, o parlamento de ocupação etc., a agressão de ocupação, os crimes de ocupação, o terrorismo de ocupação, etc.).
Ah, e que ninguém se esqueça dos nomes: que nunca se diga "Terra prometida", mas "Terra da Palestina. Não nos esqueceremos, "per saecula saeculorum".










sexta-feira, 7 de junho de 2024

O ÓDIO AOS JUDEUS (Parte II)

 

Joel Fishman, membro do Centro de Assuntos Públicos de Jerusalém e presidente da Fundação para a Pesquisa dos Judeus Holandeses da Universidade Hebraica de Jerusalém escreveu num artigo intitulado “A Grande Mentira e a Guerra da Comunicação Social  Contra Israel: Da Inversão da Verdade à Inversão da Realidade”:

“O historiador Jeffrey Herf descreve a intenção e a lógica da propaganda de guerra da Alemanha nazi contra os judeus: Se a simples repetição, em contextos públicos e privados, pode ser tomado como prova de fé, então parece que Hitler, Goebbels, Dietrich (Director do Gabinete de Imprensa do Reich), as suas equipas e uma quantidade indeterminada de ouvintes e leitores alemães acreditaram que uma conspiração judaica internacional foi a força motriz por trás da coligação anti-Hitler na Segunda Guerra Mundial… Eles certamente agiram como se a Solução Final fosse a punição da Alemanha nazi aos judeus, que os nazis consideravam culpados de iniciar e prolongar a II Guerra Mundial”

No seu texto, Herf deu um exemplo assustador da ligação entre propaganda e genocídio, a saber, o discurso de Hitler no Reichstag de 30 de Janeiro de 1939, que apresentou “o que tornou a narrativa nazi central do conflito que se apresentava”: “Eu quero hoje ser um profeta novamente: se as finanças internacionais judaicas dentro e fora da Europa conseguirem mergulhar as nações mais uma vez numa guerra mundial, o resultado não será a bolchevização da terra e, portanto, a vitória dos judeus, mas a aniquilação da raça judaica na Europa”.



Os nazis  no gueto de Varsóvia


O madeirense Alfredo António Maria de Castro Leal Teles de Meneses de Vasconcelos de Bettencourt de Freitas Branco, Visconde do Porto da Cruz, nazi confesso e que trabalhou na rádio alemã durante a II Guerra Mundial, ao serviço do poder que admirava, falou assim dos Judeus, no seu conto “Dolorosa realidade” (inserto no livro Contos Vividos na Guerra): 
“Quando em 1938 o III Reich alemão deliberou expulsar os judeus do seu território afirmando que constituíam uma perigosa ameaça para a paz interna e para a prosperidade da Nação, levantou-se em todo o mundo um intenso clamor contra medida de tamanha violência. Os judeus apresentam-se como “vítimas” inocentes de uma perseguição sem igual e apelavam para o sentimentalismo dos Povos cristãos  pedindo protecção e auxílio.

Não houve país que lhes não franqueasse as suas portas. Mas logo que se viam instalados os judeus “refugiados” compreendiam a conveniência de se desembaraçarem rapidamente de hóspedes tão incómodos. Foi então que seguiram para o Norte de África e para a América verdadeiros carregamentos destes foragidos”

Claro que a história deste conto mesquinho acaba com um germânico, que dera acolhimento em Bruxelas a um judeu, antes daquele partir para a guerra, deixando a sua esposa grávida, no regresso constatar que a filha que a sua espessa dera à luz “era o fiel retrato daquele judeu que ele albergara caridosamente na sua casa”.

No conto “Na Comédia dos centres d´Accueil”, onde começa por dizer que  “os aliados espalharam pelos quatro pontos cardiais, com tendenciosa má-fé, as “atrocidades” dos “nazis”, acompanhando essa campanha com vasta “documentação” fotográfica “fabricada” com o propósito de criar uma atmosfera de indignação que justificasse represálias que estavam já preparadas, embora os propaladores dessas infâmias soubessem que não informavam a verdade”, o Visconde do Porto da Cruz decide criticar, pelo contrário, as condições dos “centres d´accueil” que recebia alemães derrotados e “colaboracionistas” e depois centra-se numa personagem feminina pertencente a um casal refugiado, “que pertencia a uma família de judeus ricos que tinham fugido para França (…) Leon Blum, também judeu e milionário, era chefe do governo francês e por isso se explica o motivo das facilidades que tiveram os israelitas, conseguindo a legalização dos documentos falsificados”. Prosseguindo a narrativa, a rapariga acaba em Lisboa, onde “pede o auxílio dos judeus, pois que dada a infiltração que eles tinham feito na vida portuguesa, dispunham das influências suficientes para resolverem o problema. Logo nessa tarde, quando os barcos de guerra americanos já tinham saído a barra, compareceram nos calabouços da polícia alguns judeus. A jovem exultou de alegria. Declarou-lhes que dispunha de dinheiro bastante para satisfazer as exigências que lhe fossem postas. Um desses judeus era advogado… Assegurou as maiores facilidades e pediu uma avultada soma “para as primeiras despesas” (…) O advogado visitava-a de vez em quando para levar-lhe esperanças e exigir-lhe novas importâncias. (…) Mas um dia foi parar à polícia um político a quem a pobre rapariga contou a sua odisseia (…) O português compadeceu-se daquela jovem e sem lhe extorquir um centavo resolveu o assunto restituindo-a à liberdade, com o protesto do advogado hebraico que via assim terminar aquela rendosa “exploração”. A rapariga sofreu outros percalços e ia relatando aos “seus companheiros de infortúnio o seu curioso drama. E nos seus relatos dizia que “em Portugal os judeus são fascistas”, englobando no seu rancor pelas horas amargas que sofreu em Lisboa, por causa do advogado que era seu irmão de raça, todos os outros…”

E conclui o narrador/ comentador: “Era ingrata a judia austríaca. Mas os judeus são em regra assim. Quando estão na “mó de baixo” imploram misericórdia, apresentam-se como vítimas indefesas, prometem impossíveis… Mas logo que chegam à “mó de cima” tornam-se despóticos, esmagadores, impiedosos e maus, esquecendo o que beneficiaram e desenvolvendo a mais negra ingratidão”.

O ÓDIO AOS JUDEUS parte I

 

Eram mais de duas dezenas de manifestantes com a bandeira da Palestina, alguns com as palmas das mãos pintadas de vermelho, outros com cartazes e gritos de ordem a pedir “liberdade” para o povo palestiniano e a acusar a atual presidente da Comissão, gritando palavras de ordem em inglês: “Podes esconder-te, mas não podes esconder que financias o genocídio”, in “Observador” de 6/6/2024, a propósito da campanha da AD no Porto, que teve a presença de Ursula Von der Leyen.

No final da década de 70, uma mão cheia de anos após a revolução e mais de trinta depois do holocausto e da perseguição dos judeus na Europa, ainda ouvia pela rua dos Murças o desdém dos jovens que se queixavam do preço da bebedeira, designando o dono do bar, um meu homónimo, de “judeu”, um epíteto que designaria um explorador  ou alguém que procurava o lucro.

O Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente, representado pela primeira vez em 1517, dado nas escolas aos alunos do 9º Ano é geralmente apresentado como uma sátira social que denuncia os males da sociedade portuguesa do início do séc. XVI. Trata mais impiedosamente a personagem “Judeu”, um usurário, do que qualquer das restantes personagens que embarcam para o Inferno, pelas acções que praticaram em vida. Tal como o Onzeneiro (que emprestava a onze por cento), ou até o Sapateiro, esta personagem é criticada por desejar o lucro, mas, e principalmente, por judaizar, ou seja, assumir a sua religiosidade, distinta do cristianismo.  É tal a rejeição e a maldade que lhe é imputada que até o próprio Diabo não lhe permite entrar na barcaça, humilhação máxima, tendo de fazer a viagem amarrado à barca diabólica.

Gil Vicente, desculpado pela “circunstância da época”, apenas veiculava o pensamento dominante no seu tempo, pois D. Manuel, no seu casamento, assumia o compromisso de expulsar de Portugal os judeus que os Reis Católicos de Castela haviam  escorraçado do seu reino em 1492. António José Saraiva, em Inquisição e Cristãos Novos mostra como a ideia do rei português de criação da figura do cristão-novo permitiu depois que a Coroa e a Igreja, através da Inquisição, se unissem para beneficiar da riqueza acumulada por estes judeus, vítimas das mais horrorosas torturas e autos-de-fé onde eram queimados diante de populações exuberantes de ódio.


António José da Silva, relembrado no drama O Judeu, de Bernardo Santareno, foi, como sabemos, um dramaturgo luso-brasileiro perseguido, torturado e queimado em auto-de-fé pela Inquisição portuguesa. Bernardo Santareno parte desse fundo histórico para nos mostrar como clero, nobreza e povo se juntavam no ódio aos judeus:

“PADRE PREGADOR (Dirigindo-se aos espectadores de «O Judeu», que, nesta cena, funcionam como assistentes do auto-de-fé.)

 Ai, irmãos, meus muito amados nas entranhas benditas de Nosso Senhor! Ai, cristãos, herdeiros da justiça e da misericórdia divinas! Vinde e contemplai comigo a fera bruteza da herética pravidade: Pior que a lepra do corpo, que nos apodrece as carnes, nos rói os ossos, nos bebe a luz dos olhos e nos desfibra a raiz da fala… pior que a lepra do corpo, é a lepra da alma — o pecado mortal. Uma criatura humana em pecado mortal: Um túmulo nojento, engravidado pelo pus e mais sumos da podridão, pelos vermes inchados, pelos répteis venenosos! O pecado; os vossos pecados, meus irmãos! Ai, os vossos pecados mortais!…

(Vindo da assistência, ouve-se um choro de mulher aflita.)

Eu sei, amados meus, eu sei: Os vossos, são os pecados da humana fraqueza (…) Mas o pecado de heresia não é fraqueza, antes força: Força pertinaz e convicta, a que o sémen maldito do Demónio dá a erecta contundência! (…) Lobos raivosos, panteras sanguinárias… (Apontando para os réus, com voz de estertor:) Judeus! Raça de víboras! Raça maldita dos Judeus!! (Pouco a pouco surgem da sombra os penitentes do Santo Ofício: De pé, ao longo dos dois genuflexórios, descalços e de cabeça descoberta, envergando uma espécie de hábito negro sem mangas; alguns vestem sobre este hábito um sambenito com línguas de fogo pintadas; todos empunham na mão direita um círio aceso. Ao lado e um pouco atrás de cada réu, está um fidalgo Familiar do Santo Ofício; junto dos que se destinam à fogueira, também um Padre Jesuíta. Rumor hostil do povo exaltado.) Sobre o crime nefando dos judeus deicidas passaram mil anos, mais quinhentos, mais duzentos ainda… e eles continuam surdos aos apelos terníssimos de Nosso Senhor, planeando — hoje como outrora… — o sangradoiro da Sua divina carne!  Hoje como dantes, podeis vê-los diante daquela Santa Imagem (aponta o Cristo Crucificado) trincando as surdas orações do ódio, mil serpentes de sombra traiçoeira escoando-se-lhes dos olhos vis…! Hoje como outrora, podeis vê-los diante da Divina Figura de Jesus Crucificado, ougados de vício nefando, a baba pestilenta da fornicação demoníaca escorrendo dos seus danados beiços…!

VOZ DE HOMEM DO POVO (Entre os espectadores.) Ao queimadeiro! Façam a barba aos cães judeus!…

PADRE PREGADOR (Impondo silêncio.) Judeus conversos? Cristãos-novos? que venham, sus! A Santa Madre Igreja abrir- lhes-á as suas portas com repique de sinos alvissareiros, beijar-lhes-á as faces, enxugar-lhes-á os pés!… (Com ódio ateado nos olhos:) Mas que dispam as imundas vestes hebraicas antes de entrarem! As vestes manchadas com o Sangue bendito de Nosso Senhor… Que as dispam resolutos, sem impostura, nem disfarce!! (,,,) E são estes heresiarcas — verdugos do Senhor, matadores de Jesus! — que possuem a grossura desta terra, onde habitam com mais folgança que muitos de vós, seus naturais: Os judeus — eles são praga, neste infeliz reino! — não lavram, nem plantam, nem constroem, nem guerreiam… Qual quê?! Vivem do trabalho suado dos outros, sem esforço dos membros próprios, ociosos e cozidos de todas aas manhas!… Como os ratos correm ao queijo, eles vão de desgraça em desgraça, de miséria em miséria: Enganam, corrompem, roubam… E desta sorte, ainda por cima, acham mando, honra, favor e dinheiro! Nunca houve, não há, nem jamais haverá, nação mais inclinada à usura que a nação judaica: Já o disse São Jerónimo, já o gritava Santo Agostinho! Porque vos admirais, cristãos, porque vos admirais do mar de fome e moléstias, de crime e concupiscência que afoga este reino?! Esta terra foi lavrada para a semente demoníaca dos hereges, a gangrena alastra das chagas horrendas que nela ferem protestantes e feiticeiros, iluminados e mais desquitados, místicos e materialistas averroístas, judeus… ai, judeus, judeus! (Teatral, retórico:) Acudi-nos, Senhor, salvai-nos e salvai Portugal! (Com fúria santa:) Judeus, heresiarcas hediondos, açoutes de Deus!! (Clamor do povo.) Ano após ano, as colheitas dos vossos campos cada vez mais se vos negam de secas e minguadas (,,,) Castigo de Deus".

(continua)


 

 



sábado, 23 de março de 2024



Os 180 democratas


 Imagem de gulag na Uniáo Soviética, "o farol do Comunismo" (foto do site "Tete-a-tete")

Custou muito a Augusto Santos Silva sair do Assembleia da República por ter perdido as eleições pelo círculo de Fora da Europa, onde era cabeça-de-lista. A Aliança Democrática obteve 1 deputado, com 22.470 votos, e o Chega também 1, com 17.862. O Partido Socialista, com 14.343 não elegeu ninguém.

Fez bem o ex-presidente da AR assumir, no dia 20 do corrente , a sua derrota “política e pessoal”, dizendo que ela fazia “parte do jogo democrático”. No entanto, o “Ação Socialista”, órgão oficial do Partido Socialista, referindo-se à entrevista que o seu candidato derrotado deu à SIC após a derrota, prolonga: “No ano em que o 25 de Abril faz 50 anos, Santos Silva disse preferir concentrar-se na maioria de 180 deputados que provêm de partidos democráticos do que tecer comentários sobre os resultados alcançados pela extrema-direita na última contenda eleitoral”.

Os 180 deputados são todos os que não são do Chega, logo Augusto Santos Silva denuncia aquilo que já sabíamos sobre o pensamento político do PS: o Comunismo é democrático, já que os partidos que defendem o totalitarismo vermelho (com o seu partido único), ou seja, a extrema esquerda, composta pelo PCP (disfarçado de CDU), pelo BE e pelo Livre são entendidos como democráticos e a extrema-direita não.

As afirmações de Augusto Santos Silva, a desclassificar o Chega, não respeitam afinal o “jogo democrático”, nem as pessoas que nele votaram. Fez tábua rasa principalmente das motivações de voto dos emigrantes no Brasil, cansados dos jogos de inércia e demagogia. Exemplifico: em 8/4/22, o “Observador” dava conta do mau funcionamento do consulado de São Paulo: “Os portugueses residentes no Brasil relatam dificuldades no agendamento de serviços consulares na cidade brasileira de São Paulo, sendo incapazes de utilizar o seu sistema eletrónico”. O jornal ouviu alguns lamentos, como “O português Tiago Gouveia, 40 anos, explicou que tentou entrar no site do Consulado em São Paulo para acompanhar e tentar adiantar o atendimento para um pedido de emissão de cartão cidadão e de passaporte para os seus filhos gémeos, mas sem sucesso. Especialista em Tecnologia da Informação, Gouveia disse considerar que “eles (consulado) tentam empurrar o problema para o utilizador, na verdade o que realmente parece é que o erro tem relação com o sistema deles. Derrubaram, provavelmente, de propósito o ‘site’ para não ter que atender à procura. Sinto-me totalmente desamparado pelo Governo português”, acrescentou.

 

Em 27/11/93, a CNN Portugal publicava um texto sobre a operação Agendódromo: “ A Polícia Judiciária participou em buscas em Portugal e no Brasil, num caso que investiga suspeitas de corrupção no Consulado-Geral de Portugal no Rio de Janeiro e envolve um esquema de legalização ilícita de documentos para obtenção de nacionalidade portuguesa. Cerca de 10 pessoas, portugueses e brasileiros, foram constituídas arguidas na investigação. Em comunicado, a PJ explica que os inquéritos investigam suspeitas dos crimes de corrupção passiva e ativa, participação económica em negócio, peculato, acesso ilegítimo, usurpação de funções, abuso de poder, concussão, falsificação de documentos e abuso de poder”.

Alguns dias depois, em 8/12/2023, a mesma CNN fala do caso que ainda hoje todos se recordam: Duas gémeas luso-brasileiras vieram para Portugal fazer um tratamento para a atrofia muscular espinhal, uma doença neurodegenerativa da qual padecem. Tinham começado um tratamento no Brasil com um medicamento, mas os pais queriam que as filhas recebessem um fármaco que era administrado de forma gratuita, no nosso país, e que é considerado o mais caro do mundo. O tratamento custou mais de quatro milhões de euros ao erário público e a forma célere como decorreu todo o processoque terá tido influências políticas, tornaram a história notícia”. 

Depois destes acontecimentos, alguém pensaria que o voto seria diferente? Não será mesmo necessário respeitar a vontade do povo? Não faltará muito para que de um lado esteja o povo que vota livre depois do 25 de Abril  e do outro os que não abdicam do preâmbulo constitucional votado por uma Assembleia Constituinte obrigada ao socialismo: “…  e de abrir caminho para uma sociedade socialista”.

Em 9/2/2023, o Chega e a IL propuseram, na AR, alterações ao preâmbulo da Constituição, tendo PS, PSD, BE, PCP, PAN e Livre  rejeitado essa proposta. Com essa rejeição, percebe-se tudo e tornam-se mais que justificadas as palavras de André Ventura, a propósito da não eleição de Augusto Santos Silva, por causa dos votos no Chega:  “É o símbolo da vitória do Chega sobre o sistema socialista”.

segunda-feira, 11 de março de 2024

São cravos ainda, não rosas


O CHEGA conseguiu um deputado pela RA Madeira nas eleições de ontem, enquanto o PS passou de 3 para 2. Estes foram os vencedores e perdedores na nossa região.

Comparativamente às eleições legislativas de há dois anos, o CHEGA passa de 6,08% para 17,56%. Por seu turno, o PS desliza de 31,47% para 19,84%, ou seja, são quase equivalentes os números da subida do CHEGA e da descida socialista, em percentagem, mas se olharmos para os votos entrados nas urnas, impressiona que o CHEGA tenha passado de 7.227 para 26.296, ganhando 19.069, enquanto o  PS perdeu 10.281 votantes, passando de 40,004 para 29.723. Mais nenhum partido perdeu número significativo de votantes além do PS, pelo que os restantes votos a mais do CHEGA vieram de ex-abstencionistas e de novos votantes.

O CHEGA atinge 18,06% e passa a ser decisivo para o futuro do país, apesar da generalidade dos discursos ouvidos na comunicação social, pela voz dos políticos dos restantes partidos, dos comentadores e dos bem-pensantes da "ocidental praia lusitana". Estranha-se que, apesar de 1.108.764 votos neste partido (muito mais que um milhão) se continue a ouvir, após as eleições, as mesmas pessoas a vilipendiar e a procurar ostracizar este partido e a argumentar, veja-se bem, que o cravo do 25 de Abril murchou no seu cinquentenário, quando uma das maiores virtudes do 25 de Abril foi ter permitido dar voz e expressão a todos os portugueses.

Olhemos para as televisões e para jornalistas e comentadores que aí debitam opinião e a ideologia que os enforma. Desviemos depois o olhar para os números da recente votação: se juntarmos todos os partidos à esquerda do PS (BE 274.011 + CDU 202.565 + LIVRE 198.890 + PTP 2.498 + PCTP 14.748) dá apenas 692.712. Se ainda incluirmos os 118.574 do PAN, o total passa para 811.286, ainda assim a 297.478 dos votantes no CHEGA. Onde estão estes votantes representados na comunicação social?

O CHEGA é da extrema-direita (também já li e ouvi quem a este partido junte a IL)? Qual é o problema, se nenhum anátema se difunde contra a extrema-esquerda, se o problema é de extremismos e radicalismos? Vem de longe, meus senhores, do século XIX, a ideia de que o pensamento marxista e socialista é eticamente superior às ideologias liberais e capitalistas. Da mesma base socialista nasceram o comunismo e o nacional-socialismo que se confrontaram ao longo de todo o século XX e continua a produzir a ideologia predominante nas universidades. Gramsci dixit!

Atacar o CHEGA e aceitar bondosamente o PCP, o BE e tutti quanti dessa área faz algum sentido? Olhai para o Alentejo. O "bom povo" que desfraldava com José Afonso o seu hino (Se eu fosse carpinteiro/ Casava com uma ceifeira/ Juntava a foice ao martelo/ Fazia a nossa bandeira) passa agora a "povo fascista"?



quinta-feira, 29 de fevereiro de 2024

Avante, Avante P'lo Benfica - Hino Oficial do Sport Lisboa e Benfica


Pelos 120 anos do Sport Lisboa e Benfica, uma paixão que se explica.

O Benfica estava cá quando eu nasci, como a mãe, o pai, o irmão, a casa, o mar, as árvores, a terra e o caminho. Já falei de como o meu amor nasceu, em "Benfica, 1962", em A Curva dos Dias, em que não referi as canções que ouvia na "Música pedida" da rádio, como "Benfica, eu sou do coração/ Benfica, até debaixo de água" ou "A minha mulher em casa me diz/ Ó Xavier, venha quem vier, eu amo o Benfica". Mas também poderia falar do que passei naquele 26 de Novembro de 1969, pelos meus 13 anos:
O Benfica havia perdido por 3-0 em Glasgow contra o Celtic na 1ª mão da 2ª ronda (oitavos-de-final) da Taça dos Clubes Campeões Europeus e disputava-se no imenso Estádio da Luz, nessa noite, o segundo jogo. Como me acontecia sempre (e ainda se vai passando, como hoje, enquanto não chega o desafio contra o Sporting) que o Benfica enfrentava grandes adversários, pouco me apetecia fazer e o tempo parecia não passar até à hora do jogo, após as aulas de manhã. Passei o tempo na varanda, olhando o mar, à espera.
Estranhamente, depois do jantar, quis ficar na cozinha para ouvir o relato, mas a mãe não deixou, pela primeira vez. Que eu ainda não tinha estudado, disse. Mas eu não precisava, tirava boas notas sempre; não tinha trabalhos para fazer, ripostava, não servindo de nada, não, não e não.
Voltei a pedir na hora em que o jogo se iniciava: não! Sentei-me, deitei-me, tornei a sentar-me. Levantei-me, fui à janela, esperando ouvir gritar golo pela vizinhança. Ouvia os sons de rádios ao longe, momentos de intensidade gritada, parecia-me que gritavam golo constantemente, não podia ser; seria ou não seria? O vizinho mais próximo era um maritimista dos sete costados, mas benfiquista também; de certeza ouviria o relato. Dirigi-me à casa de banho, onde passei quase meia hora empoleirado junto da pequena vidraça aberta: ali ouvia-se melhor os ruídos da casa vizinha e confirmava que se ouvia o relato: golos, mais gritos, mais golos, não podia ser. Seria ou não seria?
Cansado e para fingir que estudava regressei ao quarto, esperando que os 90 minutos se concluíssem. 
- Mãe, deixa-me ouvir o resultado?
- Vá lá, ouve!
Corri, liguei o aparelho e ouvi alto e em bom som: GOOOOOOOOLO DO BENFICA! DIAMANTINO! BENFICA, 3; CELTIC, 0. Bola ao centro e acaba a partida! Vamos para prolongamento. Comecei a tremer, nas mãos, no peito, tremia com aquele golo, tremia mesmo! 
Nada se passou no prolongamento e acabava o jogo. Seguia-se o sorteio da moeda ao ar (não havia desempate por pontapés de grande penalidade naquele tempo). Nunca deixei de tremer durante esse período de espera. 
O locutor descreveu o que percebia: Benfica! Passou o Benfica! Não; não, Celtic, e pronuciou o nome da equipa escocesa devagar, pausadamente, como se não a quisesse dizer!
Continuei a tremer; tremia sem parar. A mãe assustou-se, fez-me um chá "para os nervos; para dormir". Na cama tremia ainda... até acordar no dia seguinte, com as nuvens cinzentas de Novembro, mas sem tremer, aguardando dias mais luminosos.

HINO:
letra: Félix Bermudes música: Alves Coelho Interpretação do Orfeão Sport Lisboa e Benfica
(canal youtube de António Maia)

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2024

O tempo da justiça e outras coisas que tais


Mais fatal que o fado é o habitual dicurso, usado por responsáveis políticos quando são associados a casos de corrupção, ou alguma figura destacada do partido onde ocupam posição de destaque sofre essa acusação, de que, enquanto o acusado não sofre pena judicial, se está no tempo da justiça e não no da política. Dizem isso ou, parafraseando Jesus, extremam a distância: à justiça o que é da justiça e à política o que é da política.

Quando se trata de comentar uma acusação a um político de partido concorrente aos lugares do Estado por que se batem, a generalidade dos políticos esquece-se imediatamente das justiças que estão a funcionar ou dos tempos dela face aos dias da política. Juízes sem martelo, não resistem ao ataque desenfreado, 

No recente caso que levou à queda do Governo da Região Autónoma da Madeira e à demissão do presidente da Câmara Municipal do Funchal, tão colossal como a magnitude da acusação do Ministério Público ou dos meios bélicos utilizados (a gerar obviamente sentimentos contra o centralismo do Estado), foi o chorrilho de afirmações justicialistas por parte dos partidos oposicionistas desta Região (e a repentina retirada do apoio a um governo dirigido por Miguel Albuquerque, por parte do PAN).

Como outros, o líder dos socialistas madeirenses, afirmando que estava "na altura de pôr um ponto final em quase 50 anos de uma governação podre e desgastada", exigiu também que Albuquerque não se refugiasse na imunidade e se demitisse, no que foi corroborado pelo líder do seu grupo parlamentar regional.

A ânsia do ataque procura fazer esquecer que Miguel Albuquerque é presidente do Governo Regional desde 2015, quando é evidente que a sua responsabilidade governativa dura há sete anos e não há 50 - e, seguindo o seu pensamento, deveria ter referido 48 anos, se quisesse ser verdadeiro e credível, pois o I governo da RAM tomou posse em Junho de 1976 -, tal como Paulo Cafôfo não é responsável por o PS-Madeira nunca ter ganho eleições para o Governo Regional durante esses 48 anos. 

Enquanto Cafôfo vai dizendo que "Um governo que saia deste quadro parlamentar é um governo fraco e sem legitimidade por parte do povo", como se o povo não tivesse votado maioritariamente na Coligação PSD/ CDS há menos de cinco meses, e a insistir que "num momento como este, devolver a palavra ao povo é a unica forma para fazermos a Democracia funcionar e sairmos desta crise, Vítor Freitas, por seu turno, acusa PSD/CDS e PAN de serem os responsáveis por não termos orçamento", quando é claro que novas eleições atirariam a aprovação do orçamento para o final de 2024. Em que ficamos?

E em que ficamos agora, depois de o juiz de instrução ter libertado os detidos da estranha operação com meios militares, por "uma total falta de indícios"? Que dirão estes políticos da oposição e como dormirão descansados todos aqueles que encheram as redes sociais com "memes", dichotes e anátemas judicativos? Estarão seguros de que as vítimas destes "corajosos" que tanto apreciam espezinhar as vítimas ou os que estão indefesos nos seus momentos mais difíceis não os levarão à justiça por difamação?

Uma palavra para dois "Miguéis" que foram, sobretudo, humanos, neste momento. Miguel Silva Gouveia e Miguel Fonseca foram de uma dignidade, nas suas intervenções públicas sobre o caso e sobre os acusados, que eu devo realçar, por justiça.