quarta-feira, 14 de fevereiro de 2024

O tempo da justiça e outras coisas que tais


Mais fatal que o fado é o habitual dicurso, usado por responsáveis políticos quando são associados a casos de corrupção, ou alguma figura destacada do partido onde ocupam posição de destaque sofre essa acusação, de que, enquanto o acusado não sofre pena judicial, se está no tempo da justiça e não no da política. Dizem isso ou, parafraseando Jesus, extremam a distância: à justiça o que é da justiça e à política o que é da política.

Quando se trata de comentar uma acusação a um político de partido concorrente aos lugares do Estado por que se batem, a generalidade dos políticos esquece-se imediatamente das justiças que estão a funcionar ou dos tempos dela face aos dias da política. Juízes sem martelo, não resistem ao ataque desenfreado, 

No recente caso que levou à queda do Governo da Região Autónoma da Madeira e à demissão do presidente da Câmara Municipal do Funchal, tão colossal como a magnitude da acusação do Ministério Público ou dos meios bélicos utilizados (a gerar obviamente sentimentos contra o centralismo do Estado), foi o chorrilho de afirmações justicialistas por parte dos partidos oposicionistas desta Região (e a repentina retirada do apoio a um governo dirigido por Miguel Albuquerque, por parte do PAN).

Como outros, o líder dos socialistas madeirenses, afirmando que estava "na altura de pôr um ponto final em quase 50 anos de uma governação podre e desgastada", exigiu também que Albuquerque não se refugiasse na imunidade e se demitisse, no que foi corroborado pelo líder do seu grupo parlamentar regional.

A ânsia do ataque procura fazer esquecer que Miguel Albuquerque é presidente do Governo Regional desde 2015, quando é evidente que a sua responsabilidade governativa dura há sete anos e não há 50 - e, seguindo o seu pensamento, deveria ter referido 48 anos, se quisesse ser verdadeiro e credível, pois o I governo da RAM tomou posse em Junho de 1976 -, tal como Paulo Cafôfo não é responsável por o PS-Madeira nunca ter ganho eleições para o Governo Regional durante esses 48 anos. 

Enquanto Cafôfo vai dizendo que "Um governo que saia deste quadro parlamentar é um governo fraco e sem legitimidade por parte do povo", como se o povo não tivesse votado maioritariamente na Coligação PSD/ CDS há menos de cinco meses, e a insistir que "num momento como este, devolver a palavra ao povo é a unica forma para fazermos a Democracia funcionar e sairmos desta crise, Vítor Freitas, por seu turno, acusa PSD/CDS e PAN de serem os responsáveis por não termos orçamento", quando é claro que novas eleições atirariam a aprovação do orçamento para o final de 2024. Em que ficamos?

E em que ficamos agora, depois de o juiz de instrução ter libertado os detidos da estranha operação com meios militares, por "uma total falta de indícios"? Que dirão estes políticos da oposição e como dormirão descansados todos aqueles que encheram as redes sociais com "memes", dichotes e anátemas judicativos? Estarão seguros de que as vítimas destes "corajosos" que tanto apreciam espezinhar as vítimas ou os que estão indefesos nos seus momentos mais difíceis não os levarão à justiça por difamação?

Uma palavra para dois "Miguéis" que foram, sobretudo, humanos, neste momento. Miguel Silva Gouveia e Miguel Fonseca foram de uma dignidade, nas suas intervenções públicas sobre o caso e sobre os acusados, que eu devo realçar, por justiça.






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