sexta-feira, 7 de junho de 2024

O ÓDIO AOS JUDEUS parte I

 

Eram mais de duas dezenas de manifestantes com a bandeira da Palestina, alguns com as palmas das mãos pintadas de vermelho, outros com cartazes e gritos de ordem a pedir “liberdade” para o povo palestiniano e a acusar a atual presidente da Comissão, gritando palavras de ordem em inglês: “Podes esconder-te, mas não podes esconder que financias o genocídio”, in “Observador” de 6/6/2024, a propósito da campanha da AD no Porto, que teve a presença de Ursula Von der Leyen.

No final da década de 70, uma mão cheia de anos após a revolução e mais de trinta depois do holocausto e da perseguição dos judeus na Europa, ainda ouvia pela rua dos Murças o desdém dos jovens que se queixavam do preço da bebedeira, designando o dono do bar, um meu homónimo, de “judeu”, um epíteto que designaria um explorador  ou alguém que procurava o lucro.

O Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente, representado pela primeira vez em 1517, dado nas escolas aos alunos do 9º Ano é geralmente apresentado como uma sátira social que denuncia os males da sociedade portuguesa do início do séc. XVI. Trata mais impiedosamente a personagem “Judeu”, um usurário, do que qualquer das restantes personagens que embarcam para o Inferno, pelas acções que praticaram em vida. Tal como o Onzeneiro (que emprestava a onze por cento), ou até o Sapateiro, esta personagem é criticada por desejar o lucro, mas, e principalmente, por judaizar, ou seja, assumir a sua religiosidade, distinta do cristianismo.  É tal a rejeição e a maldade que lhe é imputada que até o próprio Diabo não lhe permite entrar na barcaça, humilhação máxima, tendo de fazer a viagem amarrado à barca diabólica.

Gil Vicente, desculpado pela “circunstância da época”, apenas veiculava o pensamento dominante no seu tempo, pois D. Manuel, no seu casamento, assumia o compromisso de expulsar de Portugal os judeus que os Reis Católicos de Castela haviam  escorraçado do seu reino em 1492. António José Saraiva, em Inquisição e Cristãos Novos mostra como a ideia do rei português de criação da figura do cristão-novo permitiu depois que a Coroa e a Igreja, através da Inquisição, se unissem para beneficiar da riqueza acumulada por estes judeus, vítimas das mais horrorosas torturas e autos-de-fé onde eram queimados diante de populações exuberantes de ódio.


António José da Silva, relembrado no drama O Judeu, de Bernardo Santareno, foi, como sabemos, um dramaturgo luso-brasileiro perseguido, torturado e queimado em auto-de-fé pela Inquisição portuguesa. Bernardo Santareno parte desse fundo histórico para nos mostrar como clero, nobreza e povo se juntavam no ódio aos judeus:

“PADRE PREGADOR (Dirigindo-se aos espectadores de «O Judeu», que, nesta cena, funcionam como assistentes do auto-de-fé.)

 Ai, irmãos, meus muito amados nas entranhas benditas de Nosso Senhor! Ai, cristãos, herdeiros da justiça e da misericórdia divinas! Vinde e contemplai comigo a fera bruteza da herética pravidade: Pior que a lepra do corpo, que nos apodrece as carnes, nos rói os ossos, nos bebe a luz dos olhos e nos desfibra a raiz da fala… pior que a lepra do corpo, é a lepra da alma — o pecado mortal. Uma criatura humana em pecado mortal: Um túmulo nojento, engravidado pelo pus e mais sumos da podridão, pelos vermes inchados, pelos répteis venenosos! O pecado; os vossos pecados, meus irmãos! Ai, os vossos pecados mortais!…

(Vindo da assistência, ouve-se um choro de mulher aflita.)

Eu sei, amados meus, eu sei: Os vossos, são os pecados da humana fraqueza (…) Mas o pecado de heresia não é fraqueza, antes força: Força pertinaz e convicta, a que o sémen maldito do Demónio dá a erecta contundência! (…) Lobos raivosos, panteras sanguinárias… (Apontando para os réus, com voz de estertor:) Judeus! Raça de víboras! Raça maldita dos Judeus!! (Pouco a pouco surgem da sombra os penitentes do Santo Ofício: De pé, ao longo dos dois genuflexórios, descalços e de cabeça descoberta, envergando uma espécie de hábito negro sem mangas; alguns vestem sobre este hábito um sambenito com línguas de fogo pintadas; todos empunham na mão direita um círio aceso. Ao lado e um pouco atrás de cada réu, está um fidalgo Familiar do Santo Ofício; junto dos que se destinam à fogueira, também um Padre Jesuíta. Rumor hostil do povo exaltado.) Sobre o crime nefando dos judeus deicidas passaram mil anos, mais quinhentos, mais duzentos ainda… e eles continuam surdos aos apelos terníssimos de Nosso Senhor, planeando — hoje como outrora… — o sangradoiro da Sua divina carne!  Hoje como dantes, podeis vê-los diante daquela Santa Imagem (aponta o Cristo Crucificado) trincando as surdas orações do ódio, mil serpentes de sombra traiçoeira escoando-se-lhes dos olhos vis…! Hoje como outrora, podeis vê-los diante da Divina Figura de Jesus Crucificado, ougados de vício nefando, a baba pestilenta da fornicação demoníaca escorrendo dos seus danados beiços…!

VOZ DE HOMEM DO POVO (Entre os espectadores.) Ao queimadeiro! Façam a barba aos cães judeus!…

PADRE PREGADOR (Impondo silêncio.) Judeus conversos? Cristãos-novos? que venham, sus! A Santa Madre Igreja abrir- lhes-á as suas portas com repique de sinos alvissareiros, beijar-lhes-á as faces, enxugar-lhes-á os pés!… (Com ódio ateado nos olhos:) Mas que dispam as imundas vestes hebraicas antes de entrarem! As vestes manchadas com o Sangue bendito de Nosso Senhor… Que as dispam resolutos, sem impostura, nem disfarce!! (,,,) E são estes heresiarcas — verdugos do Senhor, matadores de Jesus! — que possuem a grossura desta terra, onde habitam com mais folgança que muitos de vós, seus naturais: Os judeus — eles são praga, neste infeliz reino! — não lavram, nem plantam, nem constroem, nem guerreiam… Qual quê?! Vivem do trabalho suado dos outros, sem esforço dos membros próprios, ociosos e cozidos de todas aas manhas!… Como os ratos correm ao queijo, eles vão de desgraça em desgraça, de miséria em miséria: Enganam, corrompem, roubam… E desta sorte, ainda por cima, acham mando, honra, favor e dinheiro! Nunca houve, não há, nem jamais haverá, nação mais inclinada à usura que a nação judaica: Já o disse São Jerónimo, já o gritava Santo Agostinho! Porque vos admirais, cristãos, porque vos admirais do mar de fome e moléstias, de crime e concupiscência que afoga este reino?! Esta terra foi lavrada para a semente demoníaca dos hereges, a gangrena alastra das chagas horrendas que nela ferem protestantes e feiticeiros, iluminados e mais desquitados, místicos e materialistas averroístas, judeus… ai, judeus, judeus! (Teatral, retórico:) Acudi-nos, Senhor, salvai-nos e salvai Portugal! (Com fúria santa:) Judeus, heresiarcas hediondos, açoutes de Deus!! (Clamor do povo.) Ano após ano, as colheitas dos vossos campos cada vez mais se vos negam de secas e minguadas (,,,) Castigo de Deus".

(continua)


 

 



1 comentário:

  1. Caríssimo aguardo a continuidade. E para que não fiquem dúvidas não vou de arrasto face às posições vigentes. Teremos oportunidade de ir falando. Até breve.

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