Eram
mais de duas dezenas de manifestantes com a bandeira da Palestina, alguns com
as palmas das mãos pintadas de vermelho, outros com cartazes e gritos de ordem
a pedir “liberdade” para o povo palestiniano e a acusar a atual presidente da
Comissão, gritando palavras de ordem em inglês: “Podes esconder-te, mas não
podes esconder que financias o genocídio”, in “Observador” de 6/6/2024, a
propósito da campanha da AD no Porto, que teve a presença de Ursula Von der
Leyen.
No
final da década de 70, uma mão cheia de anos após a revolução e mais de trinta
depois do holocausto e da perseguição dos judeus na Europa, ainda ouvia pela
rua dos Murças o desdém dos jovens que se queixavam do preço da bebedeira, designando
o dono do bar, um meu homónimo, de “judeu”, um epíteto que designaria um
explorador ou alguém que procurava o
lucro.
O
Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente, representado pela primeira vez
em 1517, dado nas escolas aos alunos do 9º Ano é geralmente apresentado como
uma sátira social que denuncia os males da sociedade portuguesa do início do
séc. XVI. Trata mais impiedosamente a personagem “Judeu”, um usurário, do que
qualquer das restantes personagens que embarcam para o Inferno, pelas acções
que praticaram em vida. Tal como o Onzeneiro (que emprestava a onze por cento),
ou até o Sapateiro, esta personagem é criticada por desejar o lucro, mas, e
principalmente, por judaizar, ou seja, assumir a sua religiosidade, distinta do
cristianismo. É tal a rejeição e a
maldade que lhe é imputada que até o próprio Diabo não lhe permite entrar na
barcaça, humilhação máxima, tendo de fazer a viagem amarrado à barca diabólica.
Gil
Vicente, desculpado pela “circunstância da época”, apenas veiculava o
pensamento dominante no seu tempo, pois D. Manuel, no seu casamento, assumia o
compromisso de expulsar de Portugal os judeus que os Reis Católicos de Castela haviam
escorraçado do seu reino em 1492.
António José Saraiva, em Inquisição e Cristãos Novos mostra como a ideia
do rei português de criação da figura do cristão-novo permitiu depois que a
Coroa e a Igreja, através da Inquisição, se unissem para beneficiar da riqueza
acumulada por estes judeus, vítimas das mais horrorosas torturas e autos-de-fé
onde eram queimados diante de populações exuberantes de ódio.
António
José da Silva, relembrado no drama O Judeu, de Bernardo Santareno, foi,
como sabemos, um dramaturgo luso-brasileiro perseguido, torturado e queimado em
auto-de-fé pela Inquisição portuguesa. Bernardo Santareno parte desse fundo
histórico para nos mostrar como clero, nobreza e povo se juntavam no ódio aos
judeus:
“PADRE PREGADOR (Dirigindo-se
aos espectadores de «O Judeu», que, nesta cena, funcionam como assistentes do
auto-de-fé.)
Ai, irmãos, meus muito amados nas entranhas
benditas de Nosso Senhor! Ai, cristãos, herdeiros da justiça e da misericórdia
divinas! Vinde e contemplai comigo a fera bruteza da herética pravidade: Pior
que a lepra do corpo, que nos apodrece as carnes, nos rói os ossos, nos bebe a
luz dos olhos e nos desfibra a raiz da fala… pior que a lepra do corpo, é a
lepra da alma — o pecado mortal. Uma criatura humana em pecado mortal: Um
túmulo nojento, engravidado pelo pus e mais sumos da podridão, pelos vermes
inchados, pelos répteis venenosos! O pecado; os vossos pecados, meus irmãos!
Ai, os vossos pecados mortais!…
(Vindo da assistência, ouve-se um
choro de mulher aflita.)
Eu sei, amados meus, eu sei: Os
vossos, são os pecados da humana fraqueza (…) Mas o pecado de heresia não é
fraqueza, antes força: Força pertinaz e convicta, a que o sémen maldito do
Demónio dá a erecta contundência! (…) Lobos raivosos, panteras sanguinárias… (Apontando
para os réus, com voz de estertor:) Judeus! Raça de víboras! Raça maldita
dos Judeus!! (Pouco a pouco surgem da sombra os penitentes do Santo Ofício:
De pé, ao longo dos dois genuflexórios, descalços e de cabeça descoberta,
envergando uma espécie de hábito negro sem mangas; alguns vestem sobre este
hábito um sambenito com línguas de fogo pintadas; todos empunham na mão direita
um círio aceso. Ao lado e um pouco atrás de cada réu, está um fidalgo Familiar
do Santo Ofício; junto dos que se destinam à fogueira, também um Padre Jesuíta.
Rumor hostil do povo exaltado.) Sobre o crime nefando dos judeus deicidas
passaram mil anos, mais quinhentos, mais duzentos ainda… e eles continuam
surdos aos apelos terníssimos de Nosso Senhor, planeando — hoje como outrora… —
o sangradoiro da Sua divina carne! Hoje
como dantes, podeis vê-los diante daquela Santa Imagem (aponta o Cristo
Crucificado) trincando as surdas orações do ódio, mil serpentes de sombra
traiçoeira escoando-se-lhes dos olhos vis…! Hoje como outrora, podeis vê-los
diante da Divina Figura de Jesus Crucificado, ougados de vício nefando, a baba
pestilenta da fornicação demoníaca escorrendo dos seus danados beiços…!
VOZ DE HOMEM DO POVO (Entre os
espectadores.) Ao queimadeiro! Façam a barba aos cães judeus!…
PADRE PREGADOR (Impondo
silêncio.) Judeus conversos? Cristãos-novos? que venham, sus! A Santa
Madre Igreja abrir- lhes-á as suas portas com repique de sinos alvissareiros,
beijar-lhes-á as faces, enxugar-lhes-á os pés!… (Com ódio ateado nos olhos:)
Mas que dispam as imundas vestes hebraicas antes de entrarem! As vestes
manchadas com o Sangue bendito de Nosso Senhor… Que as dispam resolutos, sem
impostura, nem disfarce!! (,,,) E são estes heresiarcas — verdugos do Senhor,
matadores de Jesus! — que possuem a grossura desta terra, onde habitam com mais
folgança que muitos de vós, seus naturais: Os judeus — eles são praga, neste
infeliz reino! — não lavram, nem plantam, nem constroem, nem guerreiam… Qual
quê?! Vivem do trabalho suado dos outros, sem esforço dos membros próprios,
ociosos e cozidos de todas aas manhas!… Como os ratos correm ao queijo, eles
vão de desgraça em desgraça, de miséria em miséria: Enganam, corrompem, roubam…
E desta sorte, ainda por cima, acham mando, honra, favor e dinheiro! Nunca
houve, não há, nem jamais haverá, nação mais inclinada à usura que a nação
judaica: Já o disse São Jerónimo, já o gritava Santo Agostinho! Porque vos
admirais, cristãos, porque vos admirais do mar de fome e moléstias, de crime e
concupiscência que afoga este reino?! Esta terra foi lavrada para a semente demoníaca
dos hereges, a gangrena alastra das chagas horrendas que nela ferem
protestantes e feiticeiros, iluminados e mais desquitados, místicos e
materialistas averroístas, judeus… ai, judeus, judeus! (Teatral, retórico:)
Acudi-nos, Senhor, salvai-nos e salvai Portugal! (Com fúria santa:)
Judeus, heresiarcas hediondos, açoutes de Deus!! (Clamor do povo.) Ano
após ano, as colheitas dos vossos campos cada vez mais se vos negam de secas e
minguadas (,,,) Castigo de Deus".
(continua)

Caríssimo aguardo a continuidade. E para que não fiquem dúvidas não vou de arrasto face às posições vigentes. Teremos oportunidade de ir falando. Até breve.
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