Tudo como dantes
Por Agostinho Soares
Depois da
inócua festarola da semana passada, com fogo-de-artifício solto nalgumas sedes
partidárias, aposto em como a partir desta semana tudo volta ao mesmo.
Se a
ostentação policial não houvesse sido tão megalómana, diria que estaríamos
perante uma nova encenação do poder a preparar mais um apoteótico final à beira
das urnas em outono vindouro. Em primeiro lugar, criou-se ingente suspeita, a
motivar as mais desabridas línguas e infindável rol de boatos. Depois, uma
nuvem de fumo escondeu a fogueira ateada, através de discussões laterais e
fúteis. Num terceiro momento, levantaram-se as vozes mediáticas da ilha e do
reino a defender honra, justeza e virtudes dos senhores ilhéus. No final do
melodrama, a absolvição do protagonista implicará não a catarse mas o peso na
consciência dos espetadores. O ator sairá em ombros, mais uma vez.
Tudo voltará
ao mesmo, então, como ficou provado em mais um convénio, onde os oponentes se
juntam em coro, para que assim os espetadores os vejam juntinhos e os avaliem
por atacado.
Juntos,
aguardam que o protagonista caia vencido, para encetarem o festim sobre os
despojos, mas aguardam como sempre, de livro de contas na mão, já que não
passam de contabilistas.
Alguém salta
para o tablado, jovem ainda, de cartilha na mão e mostra que afinal isto não é
só contas e discursos de brincar: desnuda tudo, mais uma vez, diz com todas as
letras o que é um sistema, desde o ovo.
Por detrás
da cortina, limpando os cantos da boca e mexendo os cordéis, tratam de seus
negócios os deuses olímpicos, os da ilha e os do reino, os do poder e os do
contra. Mas isto não pode aparecer numa primeira página, nem dum lado nem do
outro da mesma rua.
in "Diário Cidade", de 1 de Maio de 2012
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