Ontem realizaram-se dois atos eleitorais muito importantes na
Europa: na França venceram os socialistas; na Grécia ganharam os conservadores.
Nas hostes socialistas portuguesas já se
levanta um coro a cantar a mudança rumo a uma nova era, pela ascensão ao poder
de um novo “mon ami”, mas seria prudente algum comedimento, porque aos
socialistas gregos aconteceu uma derrota clamorosa, passando de primeiro para
terceiro partido e de 160 para 41 deputados.
Destas duas
eleições conclui-se que perderam as forças ligadas ao poder que se viu impelido
a adotar medidas de austeridade, resultado lógico, atendendo a que ninguém
gosta de ver os seus rendimentos reduzidos nem os mecanismos de apoios sociais
diminuídos. Não se trata, ao contrário do que alguns julgam, de vitórias da
esquerda ou da direita e, muito menos, de ondas de transformação, apesar de
todos os “changement” invocados.
As
democracias europeias tenderão, no entanto, a confrontar-se rapidamente com os
radicalismos que surgem à esquerda e à direita do espetro partidário se os
candidatos das forças que têm garantido, ao longo das décadas de paz, o
crescimento, o bem-estar e a segurança social não adotarem um discurso de
verdade e, sobretudo, se não enveredarem pela criação de uma sociedade mais
justa, sem obscenas desigualdades.
Se na França
ainda se assistiu à tradicional mudança entre forças nucleares do sistema
democrático, as promessas de crescimento económico ou de diminuição da idade de
reforma podem, pela ilusão de volte-face na crise da economia europeia,
provocar o recrudescimento de forças extremistas e aumentar as dificuldades
governativas. A desilusão também possui os seus limites.
Se os partidos
europeus mais comprometidos com a democracia europeia do pós-guerra não
sanearem do Estado e das suas próprias organizações os vícios que alimentam os
germes da injustiça social, da crise poderá surgir o caos, que os resultados
destas eleições fazem temer já na Grécia. Outra vez a Grécia…
in Diário Cidade, 8/5/2912
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