terça-feira, 29 de maio de 2012

Por uma guitarra


Dead Combo: pelo som de uma guitarra viajo. Afasto-me para uma praça grande, à beira do rio e depois, com o cheiro a sardinha subo becos e estreitas ruas com alma.
            Eu sou aquele que arrastou por Alfama a sua mala vermelha e um coração saudoso enquanto se acendiam os fogareiros nos lugares do fado.
            Eu sou aquele que partiu no grande veleiro duma cidade chorando mulata para atear o incêndio de uma ilha.
            Eu sou aquele que viu o mar misturar seus calhaus com os lameiros da serra por debaixo da cama.
            Eu sou aquele que tremeu sob os rugidos vingativos de uma ribeira brava enquanto a mãe lavava uma fralda de sangue e dor.
            Eu sou aquele que sonhou o horizonte e sua morada de antanho se os barcos vogavam em luz de sonho.
            Eu sou aquele que chora os barcos ao longe, as águas correndo e o mar em fundo.
            Onde estão os riachos, as pedras da calçada, a terra do chão e os amores de burro? Onde estão as bufas de senhora, os amores-perfeitos e as malvas do caminho?
            Eu sou quem foge dos lugares vazios, das ponchas inglesas e das levadas cantadas.
            Por um olhar que era só meu, ao som de uma guitarra. Meu fado. Minha viagem: Dead Combo.


            in "Diário Cidade" de 29/5/12

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