A Joana também
Por Agostinho Soares
Uns bonecos
tontos dum diário que ninguém compra mas a todos custa desenterrou a famigerada
história dos anos do Joãozinho, para assustar jornalistas travessos ou ganhar
silêncios.
Vindo donde
vem, a anedota requentada traz o azedo dos tempos e, como tal, já ninguém a
engole, até porque os seus narradores pertencem todos à brigada do reumático,
incapaz de atemorizar quem quer que seja. Os decrépitos comensais à mesa do
João, de mão tremente, ventre inchado e tique nervoso ao canto da boca recordam
os tempos áureos, em que se impuseram à custa dos seus santinhos e senhas. Na
hora do cinzento ocaso, recordam seus brinquedos flamejantes.
Vivem
recordando, esses velhinhos, mas só brincam às suas saudades, porque sabem que
muitos dos que estiveram a seu lado estão dispostos a desmascarar-lhes as faces
engelhadas pela arrogância, pela prepotência, pela mentira acumulada e pelos
montes de manha com que se disfarçaram. Muitos dos seus antigos aliados
levantam agora os dedos acusadores, porque, afinal, também se tornaram vítimas
e colheram as migalhas do chão de palácios que, sendo aparentemente faustosos,
deixam ver a fragilidade do ferro oxidado em que assentam as suas colunas.
Os
decrépitos comensais à mesa do João, de mão tremente, ventre inchado e tique
nervoso ao canto da boca, querem ensinar às criancinhas como construíram seus
palácios, mas, em sua senil pedagogia, não enxergam que das colunas azuis e
amarelas só sobra o triste ferro oxidado.
Não há manha
que lhes valha agora, até porque se isto se torna o da Joana, ela também poderá
querer festejar o seu aniversário. Ou já chegámos à Madeira?
in "Diário Cidade", de 22/5/12
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