terça-feira, 29 de maio de 2012

Por uma guitarra


Dead Combo: pelo som de uma guitarra viajo. Afasto-me para uma praça grande, à beira do rio e depois, com o cheiro a sardinha subo becos e estreitas ruas com alma.
            Eu sou aquele que arrastou por Alfama a sua mala vermelha e um coração saudoso enquanto se acendiam os fogareiros nos lugares do fado.
            Eu sou aquele que partiu no grande veleiro duma cidade chorando mulata para atear o incêndio de uma ilha.
            Eu sou aquele que viu o mar misturar seus calhaus com os lameiros da serra por debaixo da cama.
            Eu sou aquele que tremeu sob os rugidos vingativos de uma ribeira brava enquanto a mãe lavava uma fralda de sangue e dor.
            Eu sou aquele que sonhou o horizonte e sua morada de antanho se os barcos vogavam em luz de sonho.
            Eu sou aquele que chora os barcos ao longe, as águas correndo e o mar em fundo.
            Onde estão os riachos, as pedras da calçada, a terra do chão e os amores de burro? Onde estão as bufas de senhora, os amores-perfeitos e as malvas do caminho?
            Eu sou quem foge dos lugares vazios, das ponchas inglesas e das levadas cantadas.
            Por um olhar que era só meu, ao som de uma guitarra. Meu fado. Minha viagem: Dead Combo.


            in "Diário Cidade" de 29/5/12

terça-feira, 22 de maio de 2012

A Joana também



A Joana também
Por Agostinho Soares
            Uns bonecos tontos dum diário que ninguém compra mas a todos custa desenterrou a famigerada história dos anos do Joãozinho, para assustar jornalistas travessos ou ganhar silêncios.
            Vindo donde vem, a anedota requentada traz o azedo dos tempos e, como tal, já ninguém a engole, até porque os seus narradores pertencem todos à brigada do reumático, incapaz de atemorizar quem quer que seja. Os decrépitos comensais à mesa do João, de mão tremente, ventre inchado e tique nervoso ao canto da boca recordam os tempos áureos, em que se impuseram à custa dos seus santinhos e senhas. Na hora do cinzento ocaso, recordam seus brinquedos flamejantes.
            Vivem recordando, esses velhinhos, mas só brincam às suas saudades, porque sabem que muitos dos que estiveram a seu lado estão dispostos a desmascarar-lhes as faces engelhadas pela arrogância, pela prepotência, pela mentira acumulada e pelos montes de manha com que se disfarçaram. Muitos dos seus antigos aliados levantam agora os dedos acusadores, porque, afinal, também se tornaram vítimas e colheram as migalhas do chão de palácios que, sendo aparentemente faustosos, deixam ver a fragilidade do ferro oxidado em que assentam as suas colunas.
            Os decrépitos comensais à mesa do João, de mão tremente, ventre inchado e tique nervoso ao canto da boca, querem ensinar às criancinhas como construíram seus palácios, mas, em sua senil pedagogia, não enxergam que das colunas azuis e amarelas só sobra o triste ferro oxidado.
            Não há manha que lhes valha agora, até porque se isto se torna o da Joana, ela também poderá querer festejar o seu aniversário. Ou já chegámos à Madeira?
                                    in "Diário Cidade", de 22/5/12

terça-feira, 15 de maio de 2012

As medalhas


Disputa-se esta semana uma inesperada final da Liga dos Campeões, em futebol, entre o Bayern Munique e o Chelsea, que se segue ao grande jogo da Liga Europa entre o Atlético de Madrid e o Atlético de Bilbau.
            Para além do excelente jogo de futebol entre duas equipas espanholas e de uma exibição extraordinária de Falcão, um dos melhores ponta-de-lanças mundiais, apetece-me exaltar o desportivismo com que os futebolistas encararam o resultado final.
            Os jogadores do Atlético de Bilbau bateram-se com uma galhardia incomum, porque ostentavam no peito o emblema de um clube que representa não apenas uma agremiação desportiva mas um espírito próprio de um povo com cultura e língua próprias, em compita secular com o avassalador poder castelhano, aqui representado pelo Atlético da capital espanhola. O Atlético de Bilbau mantém esse espírito através de uma estratégia assente em atletas naturais do País Basco e que, muitas vezes, rejeitam propostas aliciantes para se transferirem para outras coletividades.
            Na hora da derrota, caíram e choraram, porque perceberam o significado da vitória para o clube e para a sua terra, mas também porque quem sonha vitórias e se vê derrotado sofre danadamente, em desilusão dobrada face à vitória do adversário. Ainda sacudindo o peito em soluços, um atleta basco enxugou as lágrimas nas costas da mão, mas não resistiu ao ver erguida a taça levantada por um madridista e, de novo, não conseguiu esconder as infindáveis lágrimas.
            Passaram, desolados e chorosos, por entre as filas dos vencedores, que os consolavam. Não foram humilhados, não passaram sob o jugo. Subiram dignamente para receber as medalhas de participantes na grande final. Ninguém tirou a medalha do pescoço, ninguém a guardou num bolso, ninguém a atirou ao chão. Aceitaram-na desportivamente e, com ela ao pescoço, ainda que desencantados, aplaudiram a vitória dos seus adversários.
            Que distância vai entre esta atitude e aquela que se vê noutras ocasiões, com outras equipas e outras figuras, algumas delas portuguesas, que chegam a retirar do pescoço, um metro adiante, a medalha acabada de receber em cerimónia. E eu vi Jorge Jesus fazer isto após ganhar a Taça da Liga, em Portugal. Após ganhar. Que diferença de comportamento…
                                                             
                                             in Diário Cidade, de 15 Maio 2012

terça-feira, 8 de maio de 2012

Da crise ao caos


Ontem realizaram-se dois atos eleitorais muito importantes na Europa: na França venceram os socialistas; na Grécia ganharam os conservadores.
             Nas hostes socialistas portuguesas já se levanta um coro a cantar a mudança rumo a uma nova era, pela ascensão ao poder de um novo “mon ami”, mas seria prudente algum comedimento, porque aos socialistas gregos aconteceu uma derrota clamorosa, passando de primeiro para terceiro partido e de 160 para 41 deputados.
            Destas duas eleições conclui-se que perderam as forças ligadas ao poder que se viu impelido a adotar medidas de austeridade, resultado lógico, atendendo a que ninguém gosta de ver os seus rendimentos reduzidos nem os mecanismos de apoios sociais diminuídos. Não se trata, ao contrário do que alguns julgam, de vitórias da esquerda ou da direita e, muito menos, de ondas de transformação, apesar de todos os “changement” invocados.
            As democracias europeias tenderão, no entanto, a confrontar-se rapidamente com os radicalismos que surgem à esquerda e à direita do espetro partidário se os candidatos das forças que têm garantido, ao longo das décadas de paz, o crescimento, o bem-estar e a segurança social não adotarem um discurso de verdade e, sobretudo, se não enveredarem pela criação de uma sociedade mais justa, sem obscenas desigualdades.
            Se na França ainda se assistiu à tradicional mudança entre forças nucleares do sistema democrático, as promessas de crescimento económico ou de diminuição da idade de reforma podem, pela ilusão de volte-face na crise da economia europeia, provocar o recrudescimento de forças extremistas e aumentar as dificuldades governativas. A desilusão também possui os seus limites.
            Se os partidos europeus mais comprometidos com a democracia europeia do pós-guerra não sanearem do Estado e das suas próprias organizações os vícios que alimentam os germes da injustiça social, da crise poderá surgir o caos, que os resultados destas eleições fazem temer já na Grécia. Outra vez a Grécia…

in Diário Cidade, 8/5/2912

terça-feira, 1 de maio de 2012

Tudo como dantes


Tudo como dantes
Por Agostinho Soares
            Depois da inócua festarola da semana passada, com fogo-de-artifício solto nalgumas sedes partidárias, aposto em como a partir desta semana tudo volta ao mesmo.
            Se a ostentação policial não houvesse sido tão megalómana, diria que estaríamos perante uma nova encenação do poder a preparar mais um apoteótico final à beira das urnas em outono vindouro. Em primeiro lugar, criou-se ingente suspeita, a motivar as mais desabridas línguas e infindável rol de boatos. Depois, uma nuvem de fumo escondeu a fogueira ateada, através de discussões laterais e fúteis. Num terceiro momento, levantaram-se as vozes mediáticas da ilha e do reino a defender honra, justeza e virtudes dos senhores ilhéus. No final do melodrama, a absolvição do protagonista implicará não a catarse mas o peso na consciência dos espetadores. O ator sairá em ombros, mais uma vez.
            Tudo voltará ao mesmo, então, como ficou provado em mais um convénio, onde os oponentes se juntam em coro, para que assim os espetadores os vejam juntinhos e os avaliem por atacado.
            Juntos, aguardam que o protagonista caia vencido, para encetarem o festim sobre os despojos, mas aguardam como sempre, de livro de contas na mão, já que não passam de contabilistas.
            Alguém salta para o tablado, jovem ainda, de cartilha na mão e mostra que afinal isto não é só contas e discursos de brincar: desnuda tudo, mais uma vez, diz com todas as letras o que é um sistema, desde o ovo.
            Por detrás da cortina, limpando os cantos da boca e mexendo os cordéis, tratam de seus negócios os deuses olímpicos, os da ilha e os do reino, os do poder e os do contra. Mas isto não pode aparecer numa primeira página, nem dum lado nem do outro da mesma rua.
           
            in "Diário Cidade", de 1 de Maio de 2012