Dead Combo: pelo som de uma guitarra viajo. Afasto-me para
uma praça grande, à beira do rio e depois, com o cheiro a sardinha subo becos e
estreitas ruas com alma.
Eu sou
aquele que arrastou por Alfama a sua mala vermelha e um coração saudoso
enquanto se acendiam os fogareiros nos lugares do fado.
Eu sou
aquele que partiu no grande veleiro duma cidade chorando mulata para atear o incêndio
de uma ilha.
Eu sou
aquele que viu o mar misturar seus calhaus com os lameiros da serra por debaixo
da cama.
Eu sou
aquele que tremeu sob os rugidos vingativos de uma ribeira brava enquanto a mãe
lavava uma fralda de sangue e dor.
Eu sou
aquele que sonhou o horizonte e sua morada de antanho se os barcos vogavam em
luz de sonho.
Eu sou
aquele que chora os barcos ao longe, as águas correndo e o mar em fundo.
Onde estão
os riachos, as pedras da calçada, a terra do chão e os amores de burro? Onde
estão as bufas de senhora, os amores-perfeitos e as malvas do caminho?
Eu sou quem
foge dos lugares vazios, das ponchas inglesas e das levadas cantadas.
Por um olhar
que era só meu, ao som de uma guitarra. Meu fado. Minha viagem: Dead Combo.
in "Diário Cidade" de 29/5/12