Devo ainda estar afectado pelos vapores do álcool para agora me pôr a falar contra o Festival de Jazz, tão unanimamente aceite e local de culto da sociedade madeirense.
O cartaz deste ano prometia, e a música, pelo muito que me foi dado ouvir, correspondeu às altas expetativas, com momentos de brilhantismo, sim senhor.
Aqui devo abrir um parêntesis para informar que também gosto muito de jazz, desde jovem, e sempre defendi que os gostos se discutem, logo o que vou dizer a seguir nada tem contra a música, que, conforme já afirmei, era de qualidade.
O grande problema é que, por razões particulares, não fui ao parque de Santa Catarina e queria dormir. Apetecia-me, tinha necessidade.
Com o vento favorável, não era necessário pagar bilhete para ouvir a música: entrava-me pela janela dentro. Com a cidade iluminada a meus pés e o mar em frente, soube-me bem ouvir jazz quinta, sexta e sábado.
Porém, depois da meia-noite e após ter ouvido os designados cabeças de cartaz, quis repousar, sem conseguir: a música perseguia-me e, em ondas, envolvia-me de tal maneira que não dava espaço à chegada de Morfeu, e era boa, a peste.
Quinta-feira lá consegui adormecer um bocado depois, sexta foi mais difícil e sábado foi um tormento: o espetáculo terminou lá para as cinco da manhã.
Ao pensar na Lei do Ruído, PDMs e mapas de ruído, enquanto o sono não chegava, viajei até à natureza das leis e até quem as faz, analisa, aplica, aplica coimas ou passa atestados de isenção.
Como exigir a uma câmara que aplique uma lei do ruído se ela se pode dispensar a si mesma do que exige aos cidadãos e empresas? Não deveria ser apertada a malha das incompatibilidades entre quem legisla e quem beneficia com as exceções?
Acima de tudo, nestas noites do final da semana, o que esteve em causa foi o desrespeito pelos cidadãos, a falta de respeito pelo seu descanso. O espetáculo poderia ter começado três horas mais cedo, por exemplo, não demorando quase até à manhã seguinte.
Algumas pessoas se referiram aos benefícios que um cartaz cultural deste jaez pode trazer ao necessitado setor do Turismo, mas desconfio que serão maiores os prejuízos que os ganhos se os turistas se virem privados do sossego que tanto procuram nesta terra. E mesmo que assim não seja, e porque a ilha não é um hotel, permitam que os funchalenses descansem nas horas apropriadas. Afinal a vida não pode ser uma festa permanente…
Ia pensando isto tudo e não tive outro remédio: levantei-me, fui à frasqueira e abri uma garrafa de vinho. Talvez assim conseguisse adormecer…
in Diário Cidade, de 12/7/2011
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