Documento original na minha posse encontrado em livro do Visconde do Porto da Cruz (uma carta dirigida a uma senhora - "Chère amie"-, pedindo a intercessão para obter as assinaturas de Olivier Guichard, Jacques Baumes, e, se possível, de Pompidou e Palewsky, e de qualquer outra personalidade do primeiro plano político).
quarta-feira, 12 de junho de 2024
PETIÇÃO SOBRE JERUSALÉM (Documento original)
terça-feira, 11 de junho de 2024
O ÓDIO AOS JUDEUS (Parte III)
Hannah Arendt, no Prefácio à I parte de As Origens do Totalitarismo, afirma "que a história do anti-semitismo, como a história do ódio aos judeus é parte intricante da longa e intrincada história das relações que prevaleciam entre os judeus e gentios desde o início da dispersáo judaica" e, mais ã frente, refere: "Dois factos reais foram decisivos para a formação dos conceitos erróneos e fatídicos que ainda permeiam as versões populares da história judaica: 1, Em parte nenhuma e em tempo nenhum depois da destruiçáo do Templo de Jerusalém (no ano 70) os judeus possuíram território próprio e Estado próprio; 2. A sua existência física dependeu sempre da protecção, embora se lhes concedesse, em várias regiões, alguns meios de autodefesa, como, por exemplo, aos judeus da França e da Alemanha até começos do século XIII o direito de usar armas. Isto não significa que os judeus nunca tiveram força, mas a verdade é que, em qualquer disputa violenta, não importa por que motivos, os judeus eram não apenas vulneráveis mas também indefesos".
É digno de nota que o enredo do
Ramadã é quase idêntico ao dos propagandistas nazistas. Ambos se apresentaram
como alvos de uma conspiração judaica, e o resultado potencial do seu “processo
lógico” – para usar a expressão de Hannah Arendt – foi o genocídio. Embora
ambos tenham invertido a verdade, as suas afirmações contêm uma característica
adicional que é perturbadora e perigosa: a inversão da moralidade que leva ao
comportamento criminoso e à violência sem restrições".
sexta-feira, 7 de junho de 2024
O ÓDIO AOS JUDEUS (Parte II)
Joel Fishman, membro do Centro de Assuntos
Públicos de Jerusalém e presidente da Fundação para a Pesquisa dos Judeus
Holandeses da Universidade Hebraica de Jerusalém escreveu num artigo intitulado
“A Grande Mentira e a Guerra da Comunicação Social Contra Israel: Da Inversão da Verdade à
Inversão da Realidade”:
“O historiador Jeffrey Herf descreve a intenção e a lógica da
propaganda de guerra da Alemanha nazi contra os judeus: Se a simples repetição,
em contextos públicos e privados, pode ser tomado como prova de fé, então
parece que Hitler, Goebbels, Dietrich (Director do Gabinete de Imprensa do
Reich), as suas equipas e uma quantidade indeterminada de ouvintes e leitores
alemães acreditaram que uma conspiração judaica internacional foi a força
motriz por trás da coligação anti-Hitler na Segunda Guerra Mundial… Eles
certamente agiram como se a Solução Final fosse a punição da Alemanha nazi aos
judeus, que os nazis consideravam culpados de iniciar e prolongar a II Guerra
Mundial”
No seu texto, Herf deu um exemplo assustador da ligação entre propaganda
e genocídio, a saber, o discurso de Hitler no Reichstag de 30 de Janeiro de
1939, que apresentou “o que tornou a narrativa nazi central do conflito que se
apresentava”: “Eu quero hoje ser um profeta novamente: se as finanças
internacionais judaicas dentro e fora da Europa conseguirem mergulhar as nações
mais uma vez numa guerra mundial, o resultado não será a bolchevização da terra
e, portanto, a vitória dos judeus, mas a aniquilação da raça judaica na Europa”.
Não houve país que lhes não franqueasse as suas portas. Mas logo
que se viam instalados os judeus “refugiados” compreendiam a conveniência de se
desembaraçarem rapidamente de hóspedes tão incómodos. Foi então que seguiram
para o Norte de África e para a América verdadeiros carregamentos destes
foragidos”
Claro que a história deste conto mesquinho acaba com um germânico, que dera acolhimento em Bruxelas a um judeu, antes daquele partir para a
guerra, deixando a sua esposa grávida, no regresso constatar que a filha que a
sua espessa dera à luz “era o fiel retrato daquele judeu que ele albergara caridosamente
na sua casa”.
No conto “Na Comédia dos centres d´Accueil”, onde começa por
dizer que “os aliados espalharam
pelos quatro pontos cardiais, com tendenciosa má-fé, as “atrocidades” dos “nazis”,
acompanhando essa campanha com vasta “documentação” fotográfica “fabricada” com
o propósito de criar uma atmosfera de indignação que justificasse represálias
que estavam já preparadas, embora os propaladores dessas infâmias soubessem que
não informavam a verdade”, o Visconde do Porto da Cruz decide criticar, pelo
contrário, as condições dos “centres d´accueil” que recebia alemães derrotados
e “colaboracionistas” e depois centra-se numa personagem feminina pertencente a
um casal refugiado, “que pertencia a uma família de judeus ricos que tinham fugido
para França (…) Leon Blum, também judeu e milionário, era chefe do governo francês
e por isso se explica o motivo das facilidades que tiveram os israelitas,
conseguindo a legalização dos documentos falsificados”. Prosseguindo a
narrativa, a rapariga acaba em Lisboa, onde “pede o auxílio dos judeus, pois
que dada a infiltração que eles tinham feito na vida portuguesa, dispunham das
influências suficientes para resolverem o problema. Logo nessa tarde, quando os
barcos de guerra americanos já tinham saído a barra, compareceram nos
calabouços da polícia alguns judeus. A jovem exultou de alegria. Declarou-lhes
que dispunha de dinheiro bastante para satisfazer as exigências que lhe fossem
postas. Um desses judeus era advogado… Assegurou as maiores facilidades e
pediu uma avultada soma “para as primeiras despesas” (…) O advogado visitava-a
de vez em quando para levar-lhe esperanças e exigir-lhe novas importâncias. (…)
Mas um dia foi parar à polícia um político a quem a pobre rapariga contou a sua
odisseia (…) O português compadeceu-se daquela jovem e sem lhe extorquir um
centavo resolveu o assunto restituindo-a à liberdade, com o protesto do advogado
hebraico que via assim terminar aquela rendosa “exploração”. A rapariga sofreu
outros percalços e ia relatando aos “seus companheiros de infortúnio o seu
curioso drama. E nos seus relatos dizia que “em Portugal os judeus são
fascistas”, englobando no seu rancor pelas horas amargas que sofreu em Lisboa,
por causa do advogado que era seu irmão de raça, todos os outros…”
E conclui o narrador/ comentador: “Era ingrata a judia
austríaca. Mas os judeus são em regra assim. Quando estão na “mó de baixo”
imploram misericórdia, apresentam-se como vítimas indefesas, prometem
impossíveis… Mas logo que chegam à “mó de cima” tornam-se despóticos,
esmagadores, impiedosos e maus, esquecendo o que beneficiaram e desenvolvendo a
mais negra ingratidão”.
O ÓDIO AOS JUDEUS parte I
Eram
mais de duas dezenas de manifestantes com a bandeira da Palestina, alguns com
as palmas das mãos pintadas de vermelho, outros com cartazes e gritos de ordem
a pedir “liberdade” para o povo palestiniano e a acusar a atual presidente da
Comissão, gritando palavras de ordem em inglês: “Podes esconder-te, mas não
podes esconder que financias o genocídio”, in “Observador” de 6/6/2024, a
propósito da campanha da AD no Porto, que teve a presença de Ursula Von der
Leyen.
No
final da década de 70, uma mão cheia de anos após a revolução e mais de trinta
depois do holocausto e da perseguição dos judeus na Europa, ainda ouvia pela
rua dos Murças o desdém dos jovens que se queixavam do preço da bebedeira, designando
o dono do bar, um meu homónimo, de “judeu”, um epíteto que designaria um
explorador ou alguém que procurava o
lucro.
O
Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente, representado pela primeira vez
em 1517, dado nas escolas aos alunos do 9º Ano é geralmente apresentado como
uma sátira social que denuncia os males da sociedade portuguesa do início do
séc. XVI. Trata mais impiedosamente a personagem “Judeu”, um usurário, do que
qualquer das restantes personagens que embarcam para o Inferno, pelas acções
que praticaram em vida. Tal como o Onzeneiro (que emprestava a onze por cento),
ou até o Sapateiro, esta personagem é criticada por desejar o lucro, mas, e
principalmente, por judaizar, ou seja, assumir a sua religiosidade, distinta do
cristianismo. É tal a rejeição e a
maldade que lhe é imputada que até o próprio Diabo não lhe permite entrar na
barcaça, humilhação máxima, tendo de fazer a viagem amarrado à barca diabólica.
Gil
Vicente, desculpado pela “circunstância da época”, apenas veiculava o
pensamento dominante no seu tempo, pois D. Manuel, no seu casamento, assumia o
compromisso de expulsar de Portugal os judeus que os Reis Católicos de Castela haviam
escorraçado do seu reino em 1492.
António José Saraiva, em Inquisição e Cristãos Novos mostra como a ideia
do rei português de criação da figura do cristão-novo permitiu depois que a
Coroa e a Igreja, através da Inquisição, se unissem para beneficiar da riqueza
acumulada por estes judeus, vítimas das mais horrorosas torturas e autos-de-fé
onde eram queimados diante de populações exuberantes de ódio.
António
José da Silva, relembrado no drama O Judeu, de Bernardo Santareno, foi,
como sabemos, um dramaturgo luso-brasileiro perseguido, torturado e queimado em
auto-de-fé pela Inquisição portuguesa. Bernardo Santareno parte desse fundo
histórico para nos mostrar como clero, nobreza e povo se juntavam no ódio aos
judeus:
“PADRE PREGADOR (Dirigindo-se
aos espectadores de «O Judeu», que, nesta cena, funcionam como assistentes do
auto-de-fé.)
Ai, irmãos, meus muito amados nas entranhas
benditas de Nosso Senhor! Ai, cristãos, herdeiros da justiça e da misericórdia
divinas! Vinde e contemplai comigo a fera bruteza da herética pravidade: Pior
que a lepra do corpo, que nos apodrece as carnes, nos rói os ossos, nos bebe a
luz dos olhos e nos desfibra a raiz da fala… pior que a lepra do corpo, é a
lepra da alma — o pecado mortal. Uma criatura humana em pecado mortal: Um
túmulo nojento, engravidado pelo pus e mais sumos da podridão, pelos vermes
inchados, pelos répteis venenosos! O pecado; os vossos pecados, meus irmãos!
Ai, os vossos pecados mortais!…
(Vindo da assistência, ouve-se um
choro de mulher aflita.)
Eu sei, amados meus, eu sei: Os
vossos, são os pecados da humana fraqueza (…) Mas o pecado de heresia não é
fraqueza, antes força: Força pertinaz e convicta, a que o sémen maldito do
Demónio dá a erecta contundência! (…) Lobos raivosos, panteras sanguinárias… (Apontando
para os réus, com voz de estertor:) Judeus! Raça de víboras! Raça maldita
dos Judeus!! (Pouco a pouco surgem da sombra os penitentes do Santo Ofício:
De pé, ao longo dos dois genuflexórios, descalços e de cabeça descoberta,
envergando uma espécie de hábito negro sem mangas; alguns vestem sobre este
hábito um sambenito com línguas de fogo pintadas; todos empunham na mão direita
um círio aceso. Ao lado e um pouco atrás de cada réu, está um fidalgo Familiar
do Santo Ofício; junto dos que se destinam à fogueira, também um Padre Jesuíta.
Rumor hostil do povo exaltado.) Sobre o crime nefando dos judeus deicidas
passaram mil anos, mais quinhentos, mais duzentos ainda… e eles continuam
surdos aos apelos terníssimos de Nosso Senhor, planeando — hoje como outrora… —
o sangradoiro da Sua divina carne! Hoje
como dantes, podeis vê-los diante daquela Santa Imagem (aponta o Cristo
Crucificado) trincando as surdas orações do ódio, mil serpentes de sombra
traiçoeira escoando-se-lhes dos olhos vis…! Hoje como outrora, podeis vê-los
diante da Divina Figura de Jesus Crucificado, ougados de vício nefando, a baba
pestilenta da fornicação demoníaca escorrendo dos seus danados beiços…!
VOZ DE HOMEM DO POVO (Entre os
espectadores.) Ao queimadeiro! Façam a barba aos cães judeus!…
PADRE PREGADOR (Impondo
silêncio.) Judeus conversos? Cristãos-novos? que venham, sus! A Santa
Madre Igreja abrir- lhes-á as suas portas com repique de sinos alvissareiros,
beijar-lhes-á as faces, enxugar-lhes-á os pés!… (Com ódio ateado nos olhos:)
Mas que dispam as imundas vestes hebraicas antes de entrarem! As vestes
manchadas com o Sangue bendito de Nosso Senhor… Que as dispam resolutos, sem
impostura, nem disfarce!! (,,,) E são estes heresiarcas — verdugos do Senhor,
matadores de Jesus! — que possuem a grossura desta terra, onde habitam com mais
folgança que muitos de vós, seus naturais: Os judeus — eles são praga, neste
infeliz reino! — não lavram, nem plantam, nem constroem, nem guerreiam… Qual
quê?! Vivem do trabalho suado dos outros, sem esforço dos membros próprios,
ociosos e cozidos de todas aas manhas!… Como os ratos correm ao queijo, eles
vão de desgraça em desgraça, de miséria em miséria: Enganam, corrompem, roubam…
E desta sorte, ainda por cima, acham mando, honra, favor e dinheiro! Nunca
houve, não há, nem jamais haverá, nação mais inclinada à usura que a nação
judaica: Já o disse São Jerónimo, já o gritava Santo Agostinho! Porque vos
admirais, cristãos, porque vos admirais do mar de fome e moléstias, de crime e
concupiscência que afoga este reino?! Esta terra foi lavrada para a semente demoníaca
dos hereges, a gangrena alastra das chagas horrendas que nela ferem
protestantes e feiticeiros, iluminados e mais desquitados, místicos e
materialistas averroístas, judeus… ai, judeus, judeus! (Teatral, retórico:)
Acudi-nos, Senhor, salvai-nos e salvai Portugal! (Com fúria santa:)
Judeus, heresiarcas hediondos, açoutes de Deus!! (Clamor do povo.) Ano
após ano, as colheitas dos vossos campos cada vez mais se vos negam de secas e
minguadas (,,,) Castigo de Deus".
(continua)




