terça-feira, 28 de novembro de 2023

Os amigos da sociedade

 

                (foto retirada do jornal La Montagne, Clermont Ferrand)

Em tempos de pandemia, a vida transformou-se, não parou, como alguns disseram. Uns cantaram às varandas, outros diante do computador, o trabalho passou a realizar-se em casa e disseminaram-se as empresas de entregas ao domicílio.

O medo de um inimigo invisível apoderou-se das pessoas, em todo o mundo. Quem teve de sair à rua, pela atividade profissional, e até de contactar doentes e cadáveres procurava munir-se de todos os meios de defesa, com protecções a lembrar os filmes futuristas sobre fugas e ataques químicos a prenunciar o fim do mundo, ou melhor, o extermínio da humanidade. Cantava-se à varanda para espantar o terror.

Como é comum nestas situações, surgiu a candura etérea das vozes angélicas a anunciar que da pútrida sociedade de consumo capitalista surgiria um mundo novo, com homens novos, uma comunidade de arco-íris e bondade. Vendia-se um grande reinício para a humanidade que sobrevivesse à catástrofe pandémica, uma terra de leite e mel para todos.

Para a sobrevivência, os grandes laboratórios farmacêuticos, geralmente empresas famosas pelo teor benemérito com que se revestem, à custa dos seus parcos rendimentos, como sabemos, trabalharam dia e noite à descoberta de antídotos salvíficos que se espalhassem pelos cantos todos do mundo. Fabricadas pelas empresas em contenda, vacinas e outros curativos foram adquiridos pelos governos de países ricos e pobres, aos milhões, aos milhões para inocular todos os que quisessem sobreviver.

A rapidez com que as vacinas foram criadas, o facto de não evitarem a doença e de apenas menorizarem as suas consequências, de terem sido colocadas no mercado antes de decorridos os prazos aconselháveis para vacinas experimentais – passados apenas doze meses, quando a análise de testes das vacinas, sempre exigiu, pelo menos, dez anos de análise científica – além da difusão de efeitos secundários que poderiam acarretar sequelas para a vida, levou a que algumas pessoas se recusassem a vacinar-se contra a Covid.

Os confinamentos obrigatórios, multas e prisões perante imposições tão ridículas como a proibição de ir a praias ou respirar os ares marítimos ou dos cumes serranos foram aceites por cidadãos que abdicaram de liberdades básicas sem questionamento, tornando-se até auxiliares da polícia e denunciantes. Só um escasso número de pessoas foi capaz de sair à rua para cantar e dançar o hino contra o confinamento que nasceu em França (“Danser Encore”) e que em Lisboa se cantou também:

Cada medida autoritária,

Finge dar a segurança,

Abala a nossa confiança

Sempre com tanta insistência,

Confinando a consciência

 No, no, no, no, no, no ,no

 

Tu e eu somos livres para dançar, cantar

Temos corpo para sentir, pensar

Não podemos a vida adiar isso não, não, não, não

Como se não bastasse a arbitrariedade dos decisores políticos, que suspenderam direitos constitucionais, os laços familiares e de amizade foram minguando e as empatias se desfazendo pelo medo.

Quando as proibições começaram a diminuir, consequência do enfraquecimento do vírus, combinei com amigos um encontro numa esplanada. Começámos, como é uso, a conversar sobre política, para num ápice,  nos encontrarmos a falar da pandemia. Quantas doses já tínhamos apanhado? Nenhuma, respondi. Então tu, sendo professor, juntas-te aos ignorantes negacionistas e negas as virtudes das vacinas? A pergunta foi-me dirigida em tom firme, não como quem quer ouvir uma resposta, mas como quem quer impor o senso comum. E ele, também professor, era meu amigo – e ainda o considero como tal, apesar desse dia.

Como eu tivesse começado a apresentar argumentos que justificavam as minhas dúvidas sérias sobre este tipo de vacinas e não de outras quaisquer, que fui tomando durante a vida, o meu amigo professor passou a falar de cidadania e do interesse da colectividade,  e dos comportamentos individualistas que não podem ser admitidos quando prejudicam a sociedade. Não satisfeito com a crítica em tom generalizante, continuou:

 - Se fosse eu a mandar, nenhum funcionário público poderia negar vacinar-se, ou então teria de submeter-se a processo administrativo com vista ao despedimento.

Era um meu amigo a falar!

Já não me recordo se a conversa derivou para as despesas que a colectividade é obrigada a assumir, através do serviço público de saúde, pelos que se recusam a prevenir as suas doenças, mas não aguardei muitos anos para ler o comentário que faltava. O autor da mensagem não foi o mesmo amigo, mas há muito que eu sabia que haveria de chegar. Pergunta então outro defensor do bem público, atacando os deputados que se opõem à intensificação de medidas anti-tabágicas, com a diminuição legal dos locais de venda, se já calcularam quanto custa ao SNS o tratamento das vítimas do vício. Não falou ainda do álcool, nem da gordura das carnes, nem do açúcar, nem dos hambúrgues ou cachorros-quentes, ou das pizzas, ou do café, ou das doenças venéreas, ou do excesso de comida no ventre. O que interessa é que o Estado proíba tudo, perseguindo os viciosos.

De liberdade não se fala, neste país tão ocidental!

 

 

 

 


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