domingo, 26 de novembro de 2023

OS CAMARADAS

Em A curva dos dias, onde refiro, ano por ano, um facto significativo da minha vida, evidencio, no texto "2013, Libertação", a minha desvinculação do Partido Socialista. partido ao qual aderi em 1996. Na carta que enviei ao Secretariado do PS-Madeira, afirmava, conforme citei no meu livro: "Quero frisar que esta decisão não se deve a nenhuma divergência com os órgãos dirigentes, mas, e volto a sublinhar, a diferenças ideológicas decisivas relacionadas com a filosofia, o programa e os princípios do Partido Socialista". Mais à frente, definia bem o lugar onde me posicionava: "... não estou disponível para lutar pelo Socialismo nem por ideologias defensoras do intervencionismo estatal". 
Apesar de ter dado a conhecer publicamente, logo depois, através da rede social que utilizo, o "Facebook", o conteúdo da carta, continuo a ser visto por alguns como um "camarada", o que, vindo de certas pessoas, entendo como aceitável, até pelo facto de, apanhando-me a Revolução do 25 de Abril de 1974 com 17 anos, eu procurei, então, ligar-me ao partido mais à esquerda que houvesse na ilha. Ingressei na União do Povo da Madeira, cuja maioria dos militantes passou à UDP e, pouco depois à Frente Eleitoral Comunista (Marxista Leninista). No final de 1975, porque li Estaline e depois o que se dizia sobre ele, abandonei a extrema-esquerda, nunca tendo deixado de me pensar à esquerda da política e próximo do socialismo democrático que norteia o PS, até 2011.

Esse passado distante e as vivências mais próximas da minha demissão deste partido dificultaram a compreensão do meu novo posicionamento ideológico, de tal modo que os desatentos ainda hoje entendem que me afastei por o PS não ser verdadeiramente socialista - e costumam alcunhá-lo como "bengala" do PSD. No entanto, outros existem, mais entendidos, que me atribuem um dos dois "pecados capitais": o de ser neo-liberal ou de me ter tornado um fascista, títulos com que comunistas, e, por concomi(li)tância, os socialistas costumam difamar os seus adversários à direita, já que o epíteto de burgueses já se gastou, de tanto uso, ou prática, sabe-se, entre os dirigentes comunistas e socialistas.
 Evidentemente, não quero apagar o meu passado - cada um dos seus recantos ou escombros me pertence integralmente -, lamentando, no entanto, que só a crise económico-financeira do último governo de Sócrates me tivesse obrigado a pensar profundamente nas lastimosas consequências do pensamento socialista, veneno que se engole velado em ideais de bem-estar e mundos novos, de admiráveis que eles são.

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