terça-feira, 26 de junho de 2012

Massacre ou Conhecimento Explícito da Língua






                Teolinda Gersão, ex-professora catedrática da Universidade Nova de Lisboa, onde ensinou Literatura Alemã e Literatura Comparada, e escritora de méritos reconhecidos, como atestam vários prémios literários, entre os quais se destaca o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores, para o seu livro A Casa da Cabeça de Cavalo, em 1995, escreveu recentemente um artigo para o jornal “Público”, onde, ficcionando uma redação de um aluno do 8º Ano, zurze no estado atual do ensino de Língua Portuguesa, especialmente no que concerne à Gramática, a que ora se dá o nome de Conhecimento Explícito da Língua.
            A redação, de um tal João Abelhudo, intitula-se “Declaração de Amor à Língua Portuguesa” e denuncia sarcasticamente as mudanças na terminologia gramatical que, a cavalo de um grupo de linguistas mais interessados na difusão das suas teses académicas do que na defesa e ensino da Língua Portuguesa, atravessou caminhos tortuosos como a TLEBS (Terminologia Linguística para os Ensinos Básico e Secundário) para encalhar no Dicionário Terminológico e neste CEL (Conhecimento Explícito da Língua), imposto à disciplina de Português a partir de 2009 como mais uma competência essencial.
            João Abelhudo, começando por afirmar que “as aulas de português são um massacre”, estranha a passagem de alguns complementos circunstanciais para a nova designação de complementos oblíquos ou até para estranhos predicativos do sujeito, como na frase “O Quim está na retrete”, em que “na retrete” passa a ter o mesmo valor sintático que “bonita” na frase “ela é bonita”. Depois ironiza com “verbos epistémicos, percetivos, psicológicos e outros” e com muito mais: “o tema e o rema, e deve haver coerência e relevância do tema com o rema; há o determinante e o modificador, o determinante possessivo pode ocorrer no modificador apositivo e as locuções coordenativas podem ocorrer em locuções contínuas correlativas”. Pergunta ainda: “o que acham de adjetivalização deverbal e deadjetival, pronomes com valor anafórico, catafórico ou deítico, classes e subclasses do modificador, signo linguístico, hiperonímia, hiponímia, holonímia, meronímia, modalidade epistémica, apreciativa e deôntica, discurso e interdiscurso, texto, cotexto, intertexto, hipotexto, metatatexto, prototexto, macroestruturas e microestruturas textuais, implicação e implicaturas conversacionais?”
            Para não deitar a gramática na retrete, como ameaça o João Abelhudo, é necessário que haja mais vozes a gritar que o rei vai nu nestas terminologias e sobretudo no ensino da Língua Portuguesa, como já avisou Maria do Carmo Vieira ao falar da TLEBS no livro editado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos: “Nem sequer é uma nova terminologia, mas uma nova e voluntarista teimosia em emplastrar os Ensinos Básico e Secundário com pastosas nomencla(tor)turas que, salvo um ou outro aspeto mais fecundo, não devem, à letra, ser usadas nestes níveis de ensino”.
            A valorização do CEL nos novos programas de Português acompanha, como é óbvio, o incremento da pragmática e a desvalorização dos conteúdos literários, caminhando forçadamente a disciplina para o “massacre” de que se queixa o João Abelhudo. Só a beleza e o simbolismo dos textos literários e o amor à Língua Portuguesa por parte de pessoas como Teolinda Gersão, professores e outros intelectuais poderão impedir o desastre.
                                              


terça-feira, 19 de junho de 2012

Golos contra a inveja


Bem mais importante que um jogo de futebol foram as eleições na Grécia e quiçá o próprio ato eleitoral francês, mas para analisar estes momentos políticos andam por aí muitos especialistas, formados em apressados cursos de economia, onde aprenderam a misturar a xenofobia antigermânica com anátemas antiliberais e a confundir discursos trotskistas com manifestos antitroikistas.
            Deixarei essas análises para os políticos que defendem como doutores a estratégia dos eurobonds e que podiam aprender com Mário Soares como trocar as voltas a essa entidade nebulosa a que chamaram mercados: ligar a máquina de fazer notas, e ir imprimindo noite e dia. Já em criança me custava a compreender como os governos não ajudavam os pobres, se podiam fabricar moeda e distribuir por toda a gente. Também estranhava a razão por que se emitiam notas pequenas, se elas poderiam ser todas de mil.
            Por hoje resta-me falar de futebol, correndo o risco de ser apontado como mais um a desviar a atenção do povo face aos problemas que o cercam, mas o que hei de fazer se me enviam pelo facebook o relato, feito por Nuno Matos, da Antena 1, do segundo golo de Portugal contra a Holanda? Foi por emoções destas que comecei a gostar de futebol antes de saber o que era um campo de jogo, mas disto nunca perceberão certos racionalistas de fino, frio e organizado pensamento político e económico.
            Falarei de futebol e de Cristiano Ronaldo, lá terá de ser, umbilicalmente ligados na hora que passa. O madeirense é um dos maiores futebolistas atuais, mas o futebol é um jogo coletivo e tanto considero errado destacar-se até ao Olimpo o marcador dos golos de ontem em todos os títulos mediáticos como obscurecer-lhe a prestação, quando a equipa não brilha. Depois dos golos contra a Holanda cantam-lhe hossanas, mas antes ecoavam críticas pelo seu narcisismo, auto-endeusamento e exibicionismo. Esquecidos de que Cristiano se fez estrela por querer muito ser o que é, por trabalhar desde menino para alcançar os seus objetivos, por desejar superar-se constantemente, muitos dos seus críticos veiculam tristemente a mesquinhez de quem não consegue atingir o cume da montanha que um dia desejou escalar, por ter desistido à primeira dificuldade.
            Há anos ouvi uma anedota a ilustrar este espírito mesquinho: “Numa cidade americana, à saída de uma fábrica onde trabalhavam muitas mulheres, dois operários assistiram ao exibicionismo de um indivíduo que fazia piões ao volante de um Ferrari Testarrossa. Um dos operários disse ao outro que um dia haveria de ter também um carro daqueles, para mostrar às mulheres. Numa cidade portuguesa, o Funchal, dois amigos veem um Ferrari Testarrossa a passar repetidamente junto à Sé, com grande ruído do escape, a exibir-se perante as raparigas que saíam do comércio, ao final da tarde. Um dos amigos disse ao outro: oxalá este “gajo” se espatife ali na ponte do Bazar do Povo”.
            Se a inveja é doença coletiva, ela destaca-se principalmente quando vem de uma pretensa elite intelectual e se dirige àqueles que a si próprios se fazem, escalando a pirâmide à custa dos seus próprios braços ou, como é o caso, através de uma atividade em relação à qual não há cunha ou herança familiar que ajude a distinguir. Certos racionalistas tratam o futebol desdenhosamente como “ludopédio”, quando ele é capaz de motivar e entusiasmar até ao clímax milhões de pessoas em cada país. No Campeonato da Europa como noutros grandes momentos, presidentes e governantes interrompem as suas tarefas políticas para estarem presentes. Raras atividades merecem tão grande atenção como o Futebol. Que faz de tão grandioso gente que procura diminuir o futebol e os futebolistas de alto nível?
            Cada golo de Portugal é um manifesto contra os que acusam o futebol de alienante. Cada golo de Cristiano Ronaldo é um golo contra a inveja.
                                                                                       in Diário Cidade, de 19/6/2012

terça-feira, 12 de junho de 2012

Rol de contradições




                 Prosseguindo uma azáfama que lhe vem garantindo artigos, fotografias e páginas num diário da nossa praça (crendo nas estratégias de comunicação que prometem vitórias eleitorais à custa de propaganda e boa circulação nos órgãos de comunicação social), os socialistas procuram sobretudo disputar com o CDS o lugar de maior partido da oposição regional, e o resto é conversa mal feita.
            Visitando a Calheta, disponibilizaram muitas fotografias a entregar jornais partidários à porta das igrejas, a um passo apenas do seu interior, depois de terem criticado negativamente, durante semanas a fio, o facto de o PSD e o CDS terem estado a fazer o mesmo. Como o local devia ser propício, Victor Freitas pôs-se a perorar sobre o que é de Deus e o que é de César. Desgraçadamente, foi para a porta da igreja falar de pecados, seminários, padres e bispos em vez de falar da política (de César), ou seja, praticou o que procurava criticar.
             Mas não se ficou por aí Victor Freitas, e, (descontando a ignorância de o sítio do PS-M noticiar que Victor Freitas anunciou o desemprego e a imigração (sic) como os principais problemas da Região), na sua ânsia de juntar o CDS e o PSD como culpados da situação regional, afirmou: “todos os madeirenses (e porto-santenses) já perceberam que ele já não manda no seu próprio governo; quem manda no Governo Regional, infelizmente para mal dos nossos pecados, são Pedro Passos Coelho e Paulo Portas e o Dr. Alberto João Jardim não mandando no que foi eleito para mandar…”. Vejamos o que diz Victor Freitas: Pedro Passos Coelho e Paulo Portas mandam no Governo Regional (para mal dos nossos pecados), pelo que implicitamente quer dizer que seria bom que Jardim continuasse a mandar. Depois critica Jardim por não mandar, quando foi eleito para o fazer, mas há alguns dias atrás foi o Grupo Parlamentar do PS a fazer um chinfrim a propósito de uma menção de censura, onde se garantia que o povo que elegeu Jardim para mandar já o queria ver pelas costas. Contradição atrás de contradições, mas não há problemas, porque certo diário da nossa praça continua a garantir artigos, fotografias e páginas.
            A visita à Calheta seguiu-se a uma visita à Assembleia da República, onde Carlos Zorrinho, líder parlamentar do PS nacional ameaçou com um projeto de lei para obrigar o Jornal da Madeira a respeitar regras comerciais, democráticas e de competição económica. Depois de tanto se apregoar defender a Autonomia contra o malvado governo da República, a impor regras nas contas regionais que a oposição (todos ao molho) muito critica (e com razão), vai-se a correr pedir ajuda ao Continente numa luta que não é apenas pela liberdade de empresa, pois é evidente o combate cerrado entre dois jornais e grupos económicos.
            Zorrinho esqueceu-se de dizer que o Presidente da República, a quem mais uma vez o PS-Madeira apela no caso “Jornal da Madeira”, vetou por duas vezes uma proposta de lei do pluralismo e da não concentração nos meios de comunicação social por o PS, com maioria absoluta, não ter sabido criar consenso com os outros partidos na Assembleia da República. Praticamente nada alterou, na segunda proposta, em relação à primeira, em possível demonstração de duas hipóteses: ou não queria o PS que a proposta de lei fosse aceite ou quis mostrar o seu poder absoluto em situação de maioria absoluta. Contradições atrás de contradições, quando se fala do papel do Estado na Comunicação Social, do perigo de concentração dos meios de comunicação em grupos económicos e da liberdade de expressão e respeito pelas vozes minoritárias.

terça-feira, 5 de junho de 2012

Que alegria quando me disseram


Senti-me envolvido por uma alegria esfusiante quando me disseram que todos os partidos de oposição regional se uniram num pacto pela democracia, “de modo a trazer para o quotidiano regional a ética democrática e valores da Liberdade e da livre expressão”. Para que tudo fosse magnífico, assinaram esse pacto partidos defensores de regimes totalitários como as ditaduras do proletariado ou as repúblicas populares que nunca respeitaram minorias e direitos individuais.
            Que alegria saber que “a batalha fundamental dos partidos deve centrar-se no funcionamento da ALRAM” e não no contacto com os cidadãos e com as preocupações e dificuldades destes.
            Que alegria quando estes partidos todos se comprometeram a lutar pela ilegalidade e inconstitucionalidade de algumas normas do Regimento da Assembleia e até o vão tentar alterar, apesar de este parlamento já se submeter a este regime há sete meses e o PSD ditar regimentos e normas parlamentares semelhantes há décadas.
            Que alegria quando este pacto defende a redução dos custos do parlamento e a revisão do Estatuto Político Administrativo da Região, “estabelecendo um conjunto de incompatibilidades, extinção de subsídios de reintegração e subvenções vitalícias de deputados, a duração dos mandatos e a acumulação de reformas como propostas urgentes”. Que alegria, porque não concebo que esta gente seja hipócrita e só defenda estas ideias porque sabe que serão derrotadas pela maioria PSD. Que alegria, porque acredito votarão juntinhos pela diminuição drástica do jackpot, mesmo que isso implique diminuição de festanças e propaganda partidárias. Que alegria, porque calculo que neste grupo não estejam deputados à espera de mais uns aninhos para a sua subvenção vitalícia nem outros a acumular reformas com vencimentos, quando a lei permite que se suspendam reformas. Que alegria, porque acredito que, como se acabaram os direitos adquiridos para os restantes cidadãos, estes representantes do povo cortarão a eito nas mordomias adquiridas por antigos deputados, a gozarem, com bom corpo e saúde para o trabalho, subvenções e reformas sem idade para isso.
            Que alegria quando se percebe que estes deputados pretendem acabar com incompatibilidades como a acumulação da atividade parlamentar (que proporciona imensas e privilegiadas relações com o mundo empresarial) com a vida dos negócios. Que alegria constatar que estes deputados não estão apenas a pensar nos que, sendo do PSD, acumulam funções de compatibilidade duvidosa, mas em alguns deles próprios, assinantes do pacto. Que alegria prever o fim da partidocracia e da demagogia!
            Que alegria quando me disseram: vamos para a casa da Democracia.

                                             in Diário Cidade de 5/6/2012