De repente, parece que passou um furação pelo País e ficou tudo de cabelos em pé e boca aberta.
Como se ninguém tivesse alertado ainda para o modo de gestão do bem público na Madeira, um coro de carpideiras colocou o negro véu e desatou em choradeira maluca, a propósito de dívidas ocultas do Governo Regional.
Quem assistiu aos alvores da Autonomia, cedo percebeu que o termo serviria para muita politiquice e avultados rendimentos.
Quem se recorda dos métodos que elevaram aos altares o boi doirado só poderia tomar uma das seguintes posições: aceitar o novo deus, por medo ou por interesse, ou então denunciar, acusar, revoltar-se e passar a engrossar a lista dos opositores, dos tontos, dos idiotas úteis, dos traidores, dos loucos, dos comunistas e comunas, dos socialistas e súcias. Agachar-se ou ser vilipendiado, era a questão.
Existiram, porém, aqueles que nunca se vergaram, ainda que tivessem de suportar fardos ignominiosos. Esses denunciaram, ao longo de trinta e seis anos, a feia nudez do rei, mostrando contornos, manchas, nódoas, malfeitorias e corrupções. Não direi o nome dessas pessoas, chamá-los-ei homens.
Não falarei dos seus opostos: dos que se sentam, dos que esperam, dos que aproveitam, dos que se associam, dos que adoram. No fundo, praticam o princípio da velha religião romana: “do ut des” (dou para que me dês).
Desarmados, indefesos ante os interesses que se alteavam, os contestatários erguiam a voz. No meio do Atlântico gritavam às naus de passagem. Respondiam-lhes como se faz aos pobres de pedir: paciência, luta, esperança. Prometiam-lhes apoios, que rapidamente trocavam por palavras de circunstância e de apoio tácito ao deus-rei.
Todos foram chamados a interferir, todos sabiam, todos encolheram os ombros e quem de direito não reagiu, porque a situação lhe servia, ou, porque, como diz o povo, “é bom ter amigos até no inferno”.
À sombra deste altar profano, ergueram-se impérios e pequenos poderes, comendas e medalhas de latão. Ao serviço deste boi dourado se entregaram discursos, carreiras e vidas. Só faltou um verdadeiro poeta que o cantasse, apesar de alguns medíocres esganiçados terem tentado erguer a voz tremelicante na horinha sem vergonha. Agora, após trinta e seis anos, só restam as carpideiras de negro véu.
in Diário Cidade, de 20/7/11
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