Sempre gostei de encarar a vida com a imagem da encruzilhada. Como não acredito no destino, entendo que o homem se afirma e realiza de acordo com o seu livre-arbítrio: escolhe o caminho por onde deslocar o seu corpo mais os seus sonhos.
Desconfio dos que apontam o caminho único, em frente, com ar de implacável determinação. Escondem publicamente os desenganos, os erros, os truques e as taras que derramam perante os confessores.
O homem livre arrisca permanentemente. Por vezes falha, outras não, diante da cruz projetada no chão.
Dificilmente nos encontramos perante uma encruzilhada de escolha tão difícil, como nestes tempos: no Mundo, na Europa, no País, na nossa terra.
Nas próximas eleições, os madeirenses e porto-santenses arriscarão mais uma vez o caminho a trilhar. Será uma escolha difícil para muita gente, principalmente para quem se habituou à estabilidade do voto sempre na mesma cor. Na cruz de caminho, os insatisfeitos ou desiludidos escolherão a via da abstenção ou do voto nulo ou a via do pequeno partido de protesto, mais à esquerda, ou mais à direita. Estes eleitores nada decidem, porque haverá sempre quem ocupe o espaço das decisões.
Restam o partido do poder, com os mesmos defeitos e as virtudes (leia-se “o que é bom” para o eleitor que quer defender “o seu determinado interesse”) a se desmoronarem, ou, como alternativa, o partido líder da oposição, a mostrar vontade em assumir finalmente a governação, com uma coleção de figuras e um conjunto de ideias a serem difundidas por uma comunicação social que até agora se mostrara simpática para com o poder, apesar das aparências.
Nesta encruzilhada se encontram os Madeirenses, muitos dos quais têm trocado as hipóteses de um futuro equilibrado para si e para os seus descendentes por satisfações e folguedos presentes, ainda que hipotecando o porvir. Entendo porém que nada disto é caraterístico apenas dos meus conterrâneos, nestes dias.
Espaço humano, os partidos políticos vivem as mesmas incertezas. O Partido Socialista renovou a liderança, a nível nacional, sem que tenha mudado grande coisa quanto à organização, ainda que a ideia de um “código de ética” para os responsáveis por cargos públicos me pareça uma medida a saudar.
No âmbito regional, este código de ética faz pleno sentido e será uma garantia de que os socialistas não ocuparão o poder para cometerem os mesmos pecados que criticam enquanto oposição. Alguns passos já foram dados neste sentido quando os candidatos a deputados em Outubro assinaram um termo de honra, exigido pela Comissão Política, de que os que se encontram a receber reformas ou pensões as suspenderão enquanto ganharem como deputados. Espero que todos eles estejam também em condições de lutar, sem “rabos de palha”, para que a Assembleia Legislativa da Madeira impeça claramente que os deputados, governantes ou seus familiares próximos com negócios e interesses empresariais possam beneficiar, enquanto detentores de cargos públicos e num período de cinco anos após cessar funções, de legislação aprovada no Parlamento ou no Governo.
O Partido Socialista será reconhecido pelos eleitores quando garantir, sem dúvidas, que os seus responsáveis e os seus eleitos entendem a política como serviço público. No fundo, trata-se de escolher um caminho, nas encruzilhadas da vida.
in "Diário Cidade" de 13/9/2011
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