O Fado dos coitadinhos
Ao longo da vida, fui conhecendo muitas pessoas que, não conseguindo ou não querendo justificar os seus actos, atribuem sempre aos outros a causa de erros próprios ou limitações individuais.
Recordo-as desde a escola primária, quando colegas nada dispostos a trocar as suas brincadeiras por alguns momentos de estudo atribuíam ao professor as responsabilidades pelos seus fracassos. Uma mãe, chamada à escola para ser avisada da atitude cábula do seu filho, que não evoluía na leitura, atirou presunçosamente, enquanto passava a mão pela cabeça do seu menino: “Ó professor, ou é do malho ou do malhadeiro”, querendo naturalmente assacar ao mestre as culpas do aluno. Pouco importa agora a forma douta como o professor resolveu o assunto, pedindo a outra criança que lesse uma página qualquer do livro virado ao contrário. O que me interessa realçar é ser esta a minha primeira lembrança dos que sacodem as culpas dos ombros.
Encontrei muita gente assim ao longo da vida, como ia dizendo, tal como me foi dado ler e ouvir teses sociológicas, psicológicas e políticas a defenderem as eternas vítimas do outro. Para alguns destes teóricos, a culpa será sempre da sociedade, isto é, o conjunto de todos os outros, que não a coitada da vítima.
Custa de facto assumir a culpa, principalmente quando se substituiu a confissão grátis pela onerosa consulta do psicanalista. Quanto melhor seria termos aprendido com os Gregos antigos, pela função catártica que atribuíam ao Teatro…
Sacudir responsabilidades e atribuir a entidades alheias os fracassos não é fado apenas português e tornou-se mesmo nuclear na estratégia política de muitos governantes pelo mundo fora. Atribuir culpas a inimigos externos não só serve para apontar um dedo para muito longe, como até ajuda a construir um forte espírito de coesão entre os mais próximos. Esta estratégia serve para a defesa como para o ataque.
Ligada à ideia de desculpabilização, os governantes usam também o processo metonímico de dar a parte pelo todo: Khadafi, por exemplo, para se salvar e à sua clientela política, pedia ao povo para “salvar Trípoli da oposição”, dizendo que era a obrigação de todos os líbios. Quando Salazar se referia aos seus adversários políticos, catalogava-os como “inimigos de Portugal” e “traidores à Pátria”. Experimentem agora olhar para os cartazes do PSD e substituir a palavra “Madeira” pelo vocábulo real, pelo verdadeiro interessado em que as coisas sigam pelo mesmo caminho, sempre “prà frente”, sem assumir responsabilidades.
Se os governantes já não conseguem convencer ninguém sobre os improváveis inimigos externos, ou se os nomes destes já se tornaram inconvenientes, passam à teoria da conspiração: os adversários conjuram pelos cantos, sabe-se lá onde; ordens secretas comandam lá do alto; um monstro de nuvens ergue-se às costas dos opositores. Fantasia-se como se contam histórias às criancinhas.
Na Madeira, os grandes culpados de todos os males já foram a Maçonaria, Bush e a Trilateral, tal como Lisboa e a Oposição, corrida a vitupérios. Agora os grandes culpados do desastre económico e financeiro voltam a ser a Oposição, com o PS à cabeça, e a Maçonaria, mais Merkel, Sarkozy, o jornal do Blandy e a Europa que já não dá guito.
Como a culpa é sempre dos outros, siga em frente o fado dos coitadinhos…
in Diário Cidade, de 23/8/2011
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