terça-feira, 30 de agosto de 2011

Derrotar o quê?

Acossado pela necessidade imperiosa de meios financeiros, o Presidente do Governo Regional procura reagir com os métodos do costume, mas nota-se que não vive os seus melhores dias de forma intelectual. Parece mesmo um daqueles futebolistas que ultrapassaram a idade em que as suas capacidades físicas ainda permitiam um bom desempenho e vão arrastando pelos relvados as memórias de uma antiga estrela.
            Afirmar que o brutal endividamento do Governo Regional se deve à necessidade de derrotar a Esquerda pode ser verdade, mas é uma lamentável justificação.
            Os governos não deveriam ter como objetivo derrotar partidos políticos adversários. Os governos deveriam preocupar-se em criar condições para que as populações possam usufruir da melhor qualidade de vida possível, sem hipotecar o futuro do território ou das gerações seguintes.
            Os governos deveriam procurar a vitória do desenvolvimento equilibrado, hoje designado como desenvolvimento sustentável, e não a derrota de quem quer que seja, até porque os cidadãos de esquerda fazem parte da coletividade a quem os governos devem servir.
            Os governos deveriam procurar a vitória sobre o desemprego, sobre a pobreza, sobre a injustiça, sobre a ignorância, sobre a intolerância, sobre a falta de educação, sobre a corrupção, sobre os salários baixos, sobre a falta de habitação condigna, sobre a exploração humana, sobre a doença, sobre a degradação da Natureza, sobre o desastre ecológico. Os governos devem realizar o que for humanamente possível  fazer-se para que os cidadãos obtenham a sua vitória individual sobre a mediocridade
            Quando o responsável por um partido há 35 anos no Poder proclama que governa para derrotar a Esquerda, quando lhe sai uma verdade destas da boca para fora, mais do que mostrar que a sua carreira ultrapassou os limites do aceitável, afirma bem alto que afinal o interesse da sua governação era defender a Direita e o seu próprio partido.
            Qualquer cidadão tem o direito de perguntar, dando um soco em cima da mesa, se afinal brincam com ele aos jogos partidários. Tem o direito a indignar-se diante dos propósitos com que lhe sacam os impostos.
            Perante o colapso presente e diante da hipoteca que as gerações futuras terão de pagar, querem derrotar o quê?
                                                                                               in Diário Cidade, de 30/9/2011

terça-feira, 23 de agosto de 2011

O fado dos coitadinhos

O Fado dos coitadinhos

             Ao longo da vida, fui conhecendo muitas pessoas que, não conseguindo ou não querendo justificar os seus actos, atribuem sempre aos outros a causa de erros próprios ou limitações individuais.
            Recordo-as desde a escola primária, quando colegas nada dispostos a trocar as suas brincadeiras por alguns momentos de estudo atribuíam ao professor as responsabilidades pelos seus fracassos. Uma mãe, chamada à escola para ser avisada da atitude cábula do seu filho, que não evoluía na leitura, atirou presunçosamente, enquanto passava a mão pela cabeça do seu menino: “Ó professor, ou é do malho ou do malhadeiro”, querendo naturalmente assacar ao mestre as culpas do aluno. Pouco importa agora a forma douta como o professor resolveu o assunto, pedindo a outra criança que lesse uma página qualquer do livro virado ao contrário. O que me interessa realçar é ser esta a minha primeira lembrança dos que sacodem as culpas dos ombros.
            Encontrei muita gente assim ao longo da vida, como ia dizendo, tal como me foi dado ler e ouvir teses sociológicas, psicológicas e políticas a defenderem as eternas vítimas do outro. Para alguns destes teóricos, a culpa será sempre da sociedade, isto é, o conjunto de todos os outros, que não a coitada da vítima.
            Custa de facto assumir a culpa, principalmente quando se substituiu a confissão grátis pela onerosa consulta do psicanalista. Quanto melhor seria termos aprendido com os Gregos antigos, pela função catártica que atribuíam ao Teatro…
            Sacudir responsabilidades e atribuir a entidades alheias os fracassos não é fado apenas português e tornou-se mesmo nuclear na estratégia política de muitos governantes pelo mundo fora. Atribuir culpas a inimigos externos não só serve para apontar um dedo para muito longe, como até ajuda a construir um forte espírito de coesão entre os mais próximos. Esta estratégia serve para a defesa como para o ataque.
            Ligada à ideia de desculpabilização, os governantes usam também o processo metonímico de dar a parte pelo todo: Khadafi, por exemplo, para se salvar e à sua clientela política, pedia ao povo para “salvar Trípoli da oposição”, dizendo que era a obrigação de todos os líbios. Quando Salazar se referia aos seus adversários políticos, catalogava-os como “inimigos de Portugal” e “traidores à Pátria”. Experimentem agora olhar para os cartazes do PSD e substituir a palavra “Madeira” pelo vocábulo real, pelo verdadeiro interessado em que as coisas sigam pelo mesmo caminho, sempre “prà frente”, sem assumir responsabilidades.
            Se os governantes já não conseguem convencer ninguém sobre os improváveis inimigos externos, ou se os nomes destes já se tornaram inconvenientes, passam à teoria da conspiração: os adversários conjuram pelos cantos, sabe-se lá onde; ordens secretas comandam lá do alto; um monstro de nuvens ergue-se às costas dos opositores. Fantasia-se como se contam histórias às criancinhas.
            Na Madeira, os grandes culpados de todos os males já foram a Maçonaria, Bush e a Trilateral, tal como Lisboa e a Oposição, corrida a vitupérios. Agora os grandes culpados do desastre económico e financeiro voltam a ser a Oposição, com o PS à cabeça, e a Maçonaria, mais Merkel, Sarkozy, o jornal do Blandy e a Europa que já não dá guito.
            Como a culpa é sempre dos outros, siga em frente o fado dos coitadinhos…
                              
                                                                                                   in Diário Cidade, de 23/8/2011

           
           
           

terça-feira, 16 de agosto de 2011

O triunfo dos pobres

O triunfo dos pobres

O líder da JSD/Madeira deve ter tido uma educação melhor do que aparenta, apesar do espalhafato malcriado com que se procura distinguir.

Embora a sua conhecida reação contra a admoestação policial, por presumivelmente andar a fazer “chichi” em lugar impróprio, possa ser entendida como um tique de “menino”mimado, até pensei que isso tinha sido uma atitude condicionada pela idade e pela viagem noturna.

As suas afirmações recentes sobre o delegado da Comissão Nacional de Eleições, ameaçando pô-lo “no meio da rua”, atestam, porém, uma ânsia de exibição política que não lhe augura um futuro promissor.

Se a velhice não é um posto, o respeito pelos mais velhos sempre fez parte das regras de boa-educação de qualquer cidadão bem formado. Não o demonstra o líder da JSD/Madeira. O delegado da Comissão Nacional de Eleições é o juiz Paulo Barreto, isso mesmo… um juiz, pessoa com formação e que desempenha importante missão na coletividade. A Comissão Nacional de Eleições é uma instituição que deve ser respeitada, tal como o seu delegado e a pessoa do juiz. Se o líder da JSD/Madeira não respeita pessoas e instituições, dificilmente se poderá dar ao respeito e fazer respeitar a instituição partidária que diz defender.

Mas começo a compreender melhor as posições do líder da JSD/Madeira: antes dele nascer, já a Comissão Nacional de Eleições era uma reconhecida instituição da democracia portuguesa e o juiz Paulo Barreto era cidadão respeitado. Antes dele nascer, outros políticos tinham conquistado notoriedade usando linguagem agressiva e desrespeitadora dos seus adversários. Se esses políticos conseguiram impor-se eacumular vitórias eleitorais, o jovem sente que deve ser esse o caminho mais fácil. Não percebe que os tempos mudaram.

Deve ter ouvido falar de um tempo em que se amedrontavam pessoas com bombas ou do tempo em que se levavam cidadãos ao aeroporto. Não percebe que os tempos mudaram.

Olha em volta e vê o exemplo dos mais velhos, dos que também chegam agora e querem agradar ao chefe a todo o custo. Mais papistas que o papa, repetem-lhe os discursos: se o chefe só fala de autonomia, as bandas convidadas não tocam o hino nacional; se o chefe vitupera um jornal, eles expulsam os seus jornalistas. Mas ninguém explica ao jovem que estes são os pobres de espírito de um tempo de mudança.