Acho
que sim, que se lixe tudo, para usar esta gíria que tomou conta da
língua e do nosso quotidiano.
Ilustres
descendentes de Celtas e de Iberos, heróicos filhos dos Lusitanos,
saudosos rebentos muçulmanos ou excelsos descendentes dos Visigodos,
não estamos para aqui dispostos a admitir regras de ninguém de
fora. Ouviram? De ninguém.
A
culpa nunca é nossa. Somos assim, tenham paciência, mas a culpa não
é nossa. Nós votámos nos governantes que nos trouxeram até esta
miséria, mas a culpa não é nossa. Nós festejámos em conjunto,
sem ninguém se preocupar com quem pagava as contas. Alguém há-de
pagar, gritava-se em uníssono, siga a festa. E depois... depois? Que
se lixe.
Construímos
auto-estradas em profusão, rotundas, centros cívicos, em novo
fontismo. Era dinheiro da Europa, éramos modernos então, e
desenvolvidos, e não nos faltavam os bons carros para nos sentirmos
ricos e felizes, como os burgueses por essa Europa fora, conduzindo
os topos de gama alemães.
Os
governantes alimentavam-nos as ilusões enquanto proliferava a
corrupção, o compadrio, as relações ambíguas entre o poder
político e os interesses económicos, numa evidente caminhada de um
lado para o outro. Soubemos disso mas não reagimos. Se não fossem
uns seriam outros, ora que se lixe, desde que não tocassem no de
cada um.
Se
algum Velho do Restelo alertasse para os perigos do esbanjamento, se
alguém avisasse que a factura teria de ser paga, se qualquer
aprendiz de Economia afirmasse que as dívidas “de hoje” seriam
os impostos “de amanhã”, encolhia-se os ombros. Os vindouros
resolveriam, em nova engenharia financeira. Nunca os rendimentos
foram tão elevados, nunca as poupanças tão reduzidas. Até às
crianças se deixou de contar a “reaccionária” história da
cigarra e da formiga, ou narrava-se em elogio da cigarra. De facto,
nunca uma geração foi tão egoísta: mimou os seus filhos,
enchendo-os de “gadgets” e ilusões, mas sugou-lhes o futuro.
Afinal
o dinheiro acabou. A riqueza era mesmo ilusória. Segundo dizem, só
havia trezentos milhões de euros quando o governo de Sócrates pediu
ajuda à Banca mundial e europeia, ou seja, à famigerada “troika”.
Nós não produzíamos para o que gastávamos com os funcionários
públicos, com o Estado Social, com as mordomias dos políticos e com
um aparelho de Estado tão pançudo como um bojo de baleia sempre
apto a incorporar as hierarquias formadas nas “universidades” dos
aparelhos partidários.
O
governo de Sócrates pediu ajuda para que a “troika” nos
emprestasse a juros mais baixos do que nos exigiam os malditos
tubarões do capital financeiro. Maldito capital que tanta falta nos
faz!
Emprestem-nos
o dinheiro e não se preocupem com mais nada. Não queremos reformar
a Administração Pública, não queremos diminuir os benefícios do
Estado Social para todos, não queremos reduzir os rendimentos nem
aumentar os impostos. Queremos manter tudo igual mesmo que não nos
tenhamos preparado para uma produtividade semelhante à dos
rendimentos. Emprestem-nos o dinheiro e não se preocupem. Somos
filhos dos Celtas, dos Iberos, dos Lusitanos, dos Visigodos,
cruzámo-nos com os Romanos e os Muçulmanos, e temos a bênção de
Nossa Senhora de Fátima e a Providência há-de valer-nos, não se
preocupem. E sabem que mais? Lixem-se.
Que
se lixe a “troika”, gritar-se-á nas ruas, ao som da “Grândola”
do Zeca. Muitos prometem lá estar, como o líder do PS-Madeira, sim,
esse, do mesmo Partido Socialista que teve uma responsabilidade
imensa na grave crise económica e financeira que se abateu sobre os
Portugueses e acordou com a “troika” a maioria das medidas que
hoje impendem sobre todos, já garantiu participar na manifestação
sob o lema “Que se lixe a “troika”.
Também
acho: isto é que é mostrar a responsabilidade de quem quer demitir
um governo e candidatar-se à presidência do Governo Regional. O
actual presidente também não pensa da mesma maneira? Que se lixe a
“troika”, que se lixe tudo, ora essa.
in "Diário Cidade" de 26/2/2013