terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Que se lixe


Acho que sim, que se lixe tudo, para usar esta gíria que tomou conta da língua e do nosso quotidiano.
Ilustres descendentes de Celtas e de Iberos, heróicos filhos dos Lusitanos, saudosos rebentos muçulmanos ou excelsos descendentes dos Visigodos, não estamos para aqui dispostos a admitir regras de ninguém de fora. Ouviram? De ninguém.
A culpa nunca é nossa. Somos assim, tenham paciência, mas a culpa não é nossa. Nós votámos nos governantes que nos trouxeram até esta miséria, mas a culpa não é nossa. Nós festejámos em conjunto, sem ninguém se preocupar com quem pagava as contas. Alguém há-de pagar, gritava-se em uníssono, siga a festa. E depois... depois? Que se lixe.
Construímos auto-estradas em profusão, rotundas, centros cívicos, em novo fontismo. Era dinheiro da Europa, éramos modernos então, e desenvolvidos, e não nos faltavam os bons carros para nos sentirmos ricos e felizes, como os burgueses por essa Europa fora, conduzindo os topos de gama alemães.
Os governantes alimentavam-nos as ilusões enquanto proliferava a corrupção, o compadrio, as relações ambíguas entre o poder político e os interesses económicos, numa evidente caminhada de um lado para o outro. Soubemos disso mas não reagimos. Se não fossem uns seriam outros, ora que se lixe, desde que não tocassem no de cada um.
Se algum Velho do Restelo alertasse para os perigos do esbanjamento, se alguém avisasse que a factura teria de ser paga, se qualquer aprendiz de Economia afirmasse que as dívidas “de hoje” seriam os impostos “de amanhã”, encolhia-se os ombros. Os vindouros resolveriam, em nova engenharia financeira. Nunca os rendimentos foram tão elevados, nunca as poupanças tão reduzidas. Até às crianças se deixou de contar a “reaccionária” história da cigarra e da formiga, ou narrava-se em elogio da cigarra. De facto, nunca uma geração foi tão egoísta: mimou os seus filhos, enchendo-os de “gadgets” e ilusões, mas sugou-lhes o futuro.
Afinal o dinheiro acabou. A riqueza era mesmo ilusória. Segundo dizem, só havia trezentos milhões de euros quando o governo de Sócrates pediu ajuda à Banca mundial e europeia, ou seja, à famigerada “troika”. Nós não produzíamos para o que gastávamos com os funcionários públicos, com o Estado Social, com as mordomias dos políticos e com um aparelho de Estado tão pançudo como um bojo de baleia sempre apto a incorporar as hierarquias formadas nas “universidades” dos aparelhos partidários.
O governo de Sócrates pediu ajuda para que a “troika” nos emprestasse a juros mais baixos do que nos exigiam os malditos tubarões do capital financeiro. Maldito capital que tanta falta nos faz!
Emprestem-nos o dinheiro e não se preocupem com mais nada. Não queremos reformar a Administração Pública, não queremos diminuir os benefícios do Estado Social para todos, não queremos reduzir os rendimentos nem aumentar os impostos. Queremos manter tudo igual mesmo que não nos tenhamos preparado para uma produtividade semelhante à dos rendimentos. Emprestem-nos o dinheiro e não se preocupem. Somos filhos dos Celtas, dos Iberos, dos Lusitanos, dos Visigodos, cruzámo-nos com os Romanos e os Muçulmanos, e temos a bênção de Nossa Senhora de Fátima e a Providência há-de valer-nos, não se preocupem. E sabem que mais? Lixem-se.
Que se lixe a “troika”, gritar-se-á nas ruas, ao som da “Grândola” do Zeca. Muitos prometem lá estar, como o líder do PS-Madeira, sim, esse, do mesmo Partido Socialista que teve uma responsabilidade imensa na grave crise económica e financeira que se abateu sobre os Portugueses e acordou com a “troika” a maioria das medidas que hoje impendem sobre todos, já garantiu participar na manifestação sob o lema “Que se lixe a “troika”.
Também acho: isto é que é mostrar a responsabilidade de quem quer demitir um governo e candidatar-se à presidência do Governo Regional. O actual presidente também não pensa da mesma maneira? Que se lixe a “troika”, que se lixe tudo, ora essa.
                                                                           in "Diário Cidade" de 26/2/2013

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Reformas e Estado Social


Decorreram uns dez dias depois que a Comunicação Social divulgou o facto de Ana Teresa Sá, presidente da Câmara Municipal de Palmela, ter solicitado a sua pensão de reforma aos 46 anos de idade.
O Gabinete da presidência da Câmara esclareceu, em comunicado, para além do valor da reforma, “dentro do que a lei estipula”, que a autarca, “reunindo os requisitos legais exigidos, após 26 anos de trabalho, entendeu requerer a aposentação, que usufruirá apenas quando cessar funções, no final do presente mandato”.
Como em tantos casos de escandaloso benefício dos titulares de cargos públicos/ políticos, como o quer permite o Estatuto Político Administrativo da Madeira, ninguém questiona a legalidade da senhora presidente. O que se destaca é a falta de decoro com que este sistema partidocrático decidiu criar um conjunto de privilégios para os seus representantes. Em que alínea de qualquer ética republicana se concebe que um ano de trabalho político (bem pago pelos contribuintes) conte a dobrar para a reforma/aposentação?
A senhora presidente trabalhou 26 anos e terá uma reforma na ordem dos 1.800 euros. Quantos portugueses andam por aí a trabalhar desde os 14/15 anos, para se reformarem depois aos 65 com uma nota de 500 na algibeira, se tanto? Enquanto a senhora presidente, que nasceu em 1966, poderá gozar os seus 1800 euros de reforma a partir de Outubro próximo, muitos que começaram na labuta antes de a senhora nascer continuarão a descontar do seu vencimento para essa reforma antecipadíssima.
O caso desta senhora eleita pelo PCP não é único, até porque Seruca Emídio, autarca de Loulé, eleito pelo PSD, também pediu a reforma, aos 58 anos, suspendendo o pagamento da reforma até concluir o seu mandato municipal.
Por vezes os partidos políticos disfarçam a imoralidade do sistema de privilégios que construíram para os seus dirigentes e eleitos, atacando um caso ou outro entre os grupos opositores, mas não conseguem esconder que a guerra pelos lugares é proporcional à vontade de aceder às mordomias, às ajudas de custo, aos subsídios de reintegração, ao mundo dos negócios ou às douradas reformas antecipadas, para não falar dos políticos que saem do serviço público directamente para a administração de grandes empresas (com “know how” acrescido, como se diz modernamente).
Apesar do escandaloso benefício da função política, esta notícia quase passou ao esquecimento apenas dez dias depois, sem a ressonância habitual. Um manto de silêncio deveria cair sobre o caso. Afinal é a própria partidocracia que poderia ser julgada e a senhora não pertence à “direita dos interesses” ou aos “grandes capitalistas que querem destruir o Estado Social”. A senhora presidente da Câmara de Palmela foi eleita pelo PCP e o Estado Social também tem o dever de a defender, mesmo que seja à custa do suor e da miséria dos contribuintes.
                                                                                                                                            in "Diário Cidade", de 22/1/13

A crise vista pelas crianças



Perante a perspectiva de um debate organizado em que o professor seria o mediador, os alunos de onze/doze anos escolheram o tema da crise, quem sabe se atraídos pelas exaustivas discussões nos canais televisivos ou por sentirem no seu quotidiano a frieza do vocábulo.
Debateram o tema a partir dos efeitos da crise económica na vida concreta, para se concentrarem depois nas propostas para a superação destes tempos difíceis.
Todos possuem consciência de que vivem momentos de dificuldades desconhecidas até há relativamente pouco tempo. O professor descobriu, pela linguagem utilizada, que a crise é tema recorrente nos lares dos seus alunos, onde se discute muito as suas causas. Embora exista uma confusão, habitual igualmente entre os adultos, entre governantes e políticos em geral, as crianças apontaram o desperdício como causa fundamental da penúria do Estado: o luxo dos gabinetes e a frota de carros de luxo foram as principais razões apontadas.
Para ultrapassarem as dificuldades e principalmente para evitarem crises futuras, quase todos falaram da necessidade de poupança, a qual, segundo alguns, deve começar por eles mesmos, guardando sempre algum dinheiro do que recebem dos parentes. Criticaram os maus exemplos das crianças que tudo exigem, sob a ameaça de birras, e aquelas que pedem constantemente jogos novos para rapidamente se fartarem, quando ainda não testaram todas as possibilidades dos jogos que possuem.
Alguns jovens passaram para um plano mais geral e falaram da necessidade de o País utilizar veículos com energias alternativas ao petróleo, para diminuir as exportações, e apontaram a aposta no transporte colectivo em detrimento dos automóveis individuais e até o uso privilegiado da bicicleta.
As crianças preparam-se para um mundo diferente, com muita sabedoria, mesmo aquela que criticou os que desperdiçam água, quando lavam as mãos ou os dentes com a água correndo abundantemente. Disse-o como Isabel Jonet, com sensatez. As outras crianças entenderam-na. Quanto a muitos adultos, continuarão a acusar outros, sempre os outros.
                                                                     in Diário Cidade de 4/12/12