quarta-feira, 21 de novembro de 2012

O clima




                Tal como prometi ao meu amigo A. P., divulgo agora o seu conto satírico, salientando que o texto é ficcional e que qualquer semelhança com pessoas, lugares e situações será mera coincidência:

                “Jeremias era um político moderno: restrita cultura mas imensa arte de gerir um currículo baseado em apoios e traições, em unir e em afastar, em gritar ou ocultar. Embora tenha aprendido a andar e a vestir como deputado citadino, nunca conseguiu, porém, apagar o tom e o gosto de uma ruralidade a contaminar-lhe linguagem e discurso: iniciava as conversas falando do tempo e do clima, como qualquer camponês preocupado com a chuva e as sementeiras.
                - Precisamos de criar um clima; precisamos de criar um clima – suspirava a cada canto o nosso político, falando de artes, de economia, de educação, de desporto ou de finanças, aliás falava de tudo, como um rouxinol.
                - Qual clima, qual clima, tropical ou temperado? – Questionavam em volta.
                - Um clima, um clima – voltava aos seus trinados.
                Um dia, os seus correlegionários  julgando agradar ao distinto político, que se alçara ao lugar mais alto do grupo, decidiram espalhar pela cidade dezenas de cartazes com um clima maravilhoso: sol brilhante, temperatura suave, brisa acariciadora.
                - Loucos, loucos, querem matar-me? Desci eu lá das montanhas e dediquei a minha juventude inteira a que o tempo me desse razão para acabar deste modo, como se não pudesse haver mais desgraças, mais misérias, mais conflitos, mais história?
                Perplexos, os seus apaniguados reuniram-se para ouvir o líder:
                - Quando criarem o meu clima, pintem-no cinzento e frio, com derrocadas e aluviões.
                - Mas, se estivermos no Verão? – Perguntou um ingénuo.
                - Aí pintarão de fogo e cinzas.
                - Olhe em volta, grande líder, a realidade ultrapassou a sua alta imaginação: já fomos todos presenteados com todas essas desgraças, com tempestades no Inverno e incêndios no Verão.
                Jeremias inchou de rubor, os olhos esbranquiçaram-lhe de prazer e gritou para os sequazes:
                -Está criado o clima, meus senhores. Para nossa felicidade, eis o clima!
                - O clima? Mas o povo sofre de fome e medo – insistiu o ingénuo.
                - Por isso erguerão as mãos carentes até mim.
                Uma gritaria histérica e ensurdecedora ecoou pela sala, por isso ninguém percebeu que as paredes não aguentaram tanta algazarra e começavam a ruir, enquanto o tecto se desfazia sobre as cabeças ululantes.
                Então Jeremias soltou as suas últimas palavras de ordem:
                - O clima a vermelho e negro, a vermelho e negro, a vermelho… e negro.”

                A.P
  

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Desculpas e maus pagadores




                As declarações do porta-voz do Partido Socialista sobre o encontro entre Passos Coelho e Ângela Merkel, chanceler alemã, mostram como à mediocridade partidária se liga facilmente, nos dias de hoje, a ânsia do assalto ao poder e ao aparelho de Estado. Afirmar que o Primeiro-ministro “prefere o consenso com a chanceler alemã em vez do consenso com o País” e falar que “o Governo demonstrou submissão e subserviência”, para além de aproximar o discurso socialista ao da esquerda comunista, atesta ignorância em relação à história do Partido Socialista.
                Formado em 1973, na República Federal Alemã, sob os auspícios da Fundação Friedrich Ebert, o Partido Socialista viria a receber avultadas somas do SPD alemão, tal como receberia de outros partidos da Internacional Socialista (com destaque para o PS-D Sueco), e dos próprios Estados Unidos, através da C.I.A., conforme descobriu Rui Mateus no seu livro “Contos Proibidos – Memórias de Um PS desconhecido”. Dirá o antigo responsável pelas Relações Internacionais do PS que, para exemplo, “no ano eleitoral de 1976, vários partidos e entidades estrangeiras entregaram avultadíssimas somas em dinheiro, por todos os meios, os quais a Administração Financeira – do PS - ia classificando como “angariação de fundos”.
                Como há quem acredite que neste mundo da política possa haver o conceito de desprendida solidariedade internacional, sob os auspícios de uma Internacional Socialista, cito uma extensa passagem do livro que venho referenciando: “foram criadas – durante os dois primeiros governos - as primeiras Fundações que teriam no PS um papel de grande relevo. Mário Soares seria sempre o primeiro fundador e a República Federal Alemã e os Estados Unidos passariam a ter um papel determinante na vida política portuguesa.
                Os enormes fundos das fundações políticas alemãs, ligadas aos partidos Social-Democrata, Democrata Cristão e Liberal, eram postos à disposição destes pelo Estado Alemão para garantir, no estrangeiro, a abertura de portas aos interesses daquele país. Nos países onde estas fundações actuam, às vezes com gestos de solidariedade em tempos difíceis, como foi o caso do apoio ao PS português durante a clandestinidade, há sempre uma fundação alemã próxima do governo desse país. No caso português, houve sempre fundações para as diferentes alternativas: a Friedrich Ebert ligada ao PS, a Konrad Adenauer ao CDS e a Friedrich Naumann ao PSD”.
                Talvez porque na altura ninguém sonhasse com redes sociais, não víamos militantes socialistas acusarem os líderes alemães de nazis ou anátemas do género – esquecidos de que o povo alemão livre sofreu a perseguição dos seus próprios governantes, que milhões de jovens soldados germânicos perderam as suas vidas no serviço militar obrigatório e que o povo alemão também sofreu o seu holocausto sob as bombas dos vencedores e nos trabalhos forçados nas sibérias soviéticas – nem os acusarem de dominadores económicos. Na altura exaltava-se a “Europa Connosco” e não se discutia as intenções dos Estados Unidas e da República Federal Alemã que nos emprestaram 1,5 mil milhões de dólares, com o aval do FMI e respectiva austeridade, no chamado Grande Empréstimo.
                Conforme diz Manuel Maria Carrilho, antigo ministro socialista, os portugueses estão perante uma perda de soberania dramática, pelo que não deveria haver perdão para quem nos conduziu até aqui.
                Como os responsáveis pela actual situação do povo português não estão dispostos a assumir a sua culpa, o mais fácil é acusar o estrangeiro, o eterno responsável pelas desgraças caseiras: uma xenofobia institucionalizada e facilmente inculcada.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

O sonho de Agamémnon




O sonho de Agamémnon


                O amor à arte e a insistência de um amigo obrigam-me a abandonar o silêncio a que me dediquei durante algum tempo.
                O meu amigo A. P., desempregado de um escritório falido, faltando-lhe o dinheiro para a costumada deambulação pelos bares da cidade, tem passado o tempo em casa a escrever e a comer bolachas. Falou-me das suas dificuldades económicas, ao entregar-me um embrulho de papel pardo, onde, segundo dizia, apresentava ainda manuscrita, imagine-se, a aurora da verdadeira literatura madeirense, pedindo-me, além de um empréstimo por conta dos futuros rendimentos da obra, que a lesse, comentasse e divulgasse.
                Em folhas amareladas e com dedadas de gordura, encontrei uns poemas “da decadência” - bem superiores ao lixo acumulado em versos de meninas de liceu que se andam a editar por aí, rimando a descoberta do “eu” com a partilha dos afectos -, um conto satírico chamado “O clima” e o texto dramático “O Novíssimo Agamémnon”, classificado como tragédia.
                Lido o Agamémnon de A. P, conversei com o autor. Não eram dignas de tão distinto género algumas frases, apropriadas, pelo contrário, à comédia burlesca, mas o meu amigo, teimoso e convencido como só os artistas, não admitiu mudança alguma. Lavo então as mãos em relação ao previsível fracasso editorial, lamentando a reduzidíssima esperança em reaver o dinheiro emprestado. Observai criticamente, caros leitores, esta passagem:

Da escuridão solta-se um som cavo, como um grito opresso, um gemido aflito. A mão de Agamémnon acende a luz ténue da mesa-de-cabeceira da sua cama de dossel e o príncipe soergue-se, inchado de medo, até um grande espelho, defronte. Ao seu lado, Clitemnestra desperta do sono e empunha de imediato uma raqueta.
CLITEMNESTRA – Um mosquito outra vez?
AGAMÉMNON – O sonho, o maldito sonho: espetam-me facas nas costas, os malditos. Permitiram-me os deuses, depois de tantas vitórias, pisar os bordados tapetes púrpura da minha habitação, mas são os meus, os meus, a quem ofereci quarenta e quatro triunfos e décadas de favores e prebendas, a desejarem a minha morte. E tu, Clitemnestra, tu sabes quem eles são. No meu sonho vejo-te ao lado dos mesquinhos e invejosos.
CLITEMNESTRA – Quem não é invejado, não é digno de o ser. E como poderia querer-te mal,
se até os deuses  te invejam? Só os ditadores permaneceram tantos invernos no trono. És realmente o único a obter tal número de vitórias pelo voto. Esquece o sonho, ou visita novamente a brasileira. Ela sempre previu o teu tapete de vitórias.
AGAMÉMNON – Facas, centenas, milhares, cada vez mais facas nas costas. Ofereci-lhes carros, casas, empregos e dinheiro, muito dinheiro, que nem sabiam donde vinha. Defendi-os como um pai, ou um padrinho. Deveriam ficar permanentemente agradecidos…
CLITEMNESTRA – Mais que um pai terreno, és o pai da pátria e o seu deus, e eles adoram-te.
AGAMÉMNON - Esses malditos apenas adoram o poder e o dinheiro. Quanto à pátria, prometi-a como ideal, e quis erguê-la, mas trocaram-na pelo vil metal. Facas nas costas… mas confrontá-los-ei um a um. Ameaçarei retirar-lhes títulos e benefícios e olhá-los-ei bem no fundo dos seus olhos, borrados de medo. E tu, Clitemnestra, desaparece-me do sonho. Apanhaste algum mosquito?”