terça-feira, 25 de setembro de 2012

Política ineficaz




                O grupo parlamentar do PS na Assembleia Legislativa da Madeira parece mais reduzido do que efectivamente é, entregue quase completamente à dupla Carlos Pereira/Victor Freitas.
            Este apagamento dos restantes quatro deputados pode induzir os cidadãos a imaginarem um grupo mais pequeno que o próprio PTP e considero uma má estratégia que o deputado Avelino da Conceição não ganhe relevo, tendo em conta que representa um concelho tão importante como Machico; que Luísa Mendonça não levante mais vezes a voz em defesa do Porto Santo; que Carina Ferro, eleita como representante da JS, não seja mais interveniente em nome de uma juventude com problemas gravíssimos à conta de décadas de políticas erradas das gerações anteriores. Quanto a Maximiano Martins, presumo que a sua situação se deva ao facto de ostentar conhecimentos na mesma área em que se move o líder do grupo parlamentar, Carlos Pereira: a economia.
            Um grupo parlamentar eficaz e credível poderia catapultar o PS para uma posição alternativa face a uma governação regional que perde popularidade e crédito em função das crescentes dificuldades económicas dos cidadãos, que começam a imputar às governações o descalabro em que se vêem mergulhados. Esses cidadãos não acreditarão no PS, porém, se o encontrarem sobretudo empenhado em guerrear o CDS para voltar a ser o maior partido da oposição regional  ou em fazer política de títulos para os jornais, colecionando “bocas” de efeito duvidoso, como tratar de “casa dos segredos” um lugar a quem já tinham apelidado antes de “casa dos horrores”.
            O frenesi do líder parlamentar socialista leva-o agora a considerar "vergonhoso" que a Assembleia Legislativa da Madeira continue encerrada, quando a Região atravessa momentos muitos difíceis, como se fosse a reabertura da Assembleia que poderia resolver algum dos graves problemas dos Madeirenses, a mesma Assembleia que Carlos Pereira disse, em Novembro de 2011, “que é um órgão de fantasia de uma democracia doente” e que “ao estarmos cá, toda a oposição, contribuímos para branquear  esta ALRAM que, como sabemos, não corresponde às exigências democráticas mínimas”.
            Não é “mandando bocas” para fabricar títulos jornalísticos que o PS-Madeira se pode tornar alternativa na Região. Afinal se a ALRAM é um órgão de fantasia, porque se dramatiza com as suas longas férias? Como pode uma instituição que Carlos Pereira acusa de não corresponder às exigências democráticas resolver os problemas do povo?
                               in "Diário Cidade", de 25/9/12








terça-feira, 18 de setembro de 2012

À espera de problemas



                Na noite de sábado passado, as televisões portuguesas postaram-se junto à Assembleia da República, para acompanhar, em directos constantes e demorados, o final da manifestação “contra a troika”. Os repórteres narravam dramaticamente as movimentações dos manifestantes e da polícia, aguardando com expressa emoção o momento do conflito que desse razão a tanto aparato mediático.
            Os repórteres estão habituados a que as claques desportivas ou os manifestantes políticos entoem com intensidade redobrada os seus cânticos e palavras de ordem quando se apercebem da entrada em directo das reportagens televisivas. Os actores percebem bem como a sua acção apenas se justifica com a difusão do espectáculo e com a multiplicação dos espectadores.
            Num noticiário regional da rádio pública, a propósito da abertura de aulas, interessei-me pela entrada de uma reportagem junto de alunos, onde o locutor fazia referência à alegria das crianças que conhecem uma escola nova e à desmotivação dos que já conhecem a escola. Como professor em véspera de iniciar as aulas, agucei o ouvido para perceber as causas da insatisfação dos jovens, porém não ouvi de nenhum deles palavras de desencanto. O repórter, no entanto, fazia questão de justificar a introdução da locutora, ou, quem sabe, as ordens superiores, e forcejou, questionando as crianças sobre as possíveis consequências negativas da crise económica na sua vida escolar. Finalmente perguntou a uma criança se não estava “à espera de problemas” na escola por causa da crise. O miúdo então respondeu que “talvez”.
            Não há notícias pintadas a cor-de-rosa nem sobre casamentos felizes, mas deve haver limites para esta actual busca mediática da desgraça maior ou do recorde da catástrofe e, sobretudo, em relação às crianças, poupai-as, senhores, poupai-as do vosso apetite pelo sangue e pelo negrume. 
                     in "Diário Cidade" de 18/9/2012

terça-feira, 11 de setembro de 2012

A Língua não é lixeira


           Nos comentários internáuticos a uma notícia de um diário local sobre a diminuição dos professores contratados nas escolas madeirenses, alguém que se diz professor “há 14 anos” (embora custe a acreditar) exemplificou uma possível vinculação extraordinária, com cujos termos não concorda, com esta ridícula hipótese de frase: “ O Manuel e docente à 11 anos tem média de 21”.
            Saiba-se que o indivíduo, que eventualmente por vergonha encobriu o seu nome, defendia um meio “claro – justo e meritocrata – para acabar com as vantagens dos menos capazes sobre os mais capazes”. Ao ser alertado para a sua incoerência, o homem justificou-se, dizendo que não era professor de Português mas de Inglês, catalogando logo de “miseráveis” os que não discutem ideias e projectos, ficando “pelos pormenores”. Mas, se é professor, não o é numa escola portuguesa e não está obrigado ao uso correcto do Português?
            No facebook e outras vias informáticas, encontramos diariamente uma profusão de erros ortográficos ou sintácticos a testemunhar uma grande ignorância da Língua Portuguesa, rapidamente desvalorizada da mesma forma que o fazem as crianças de escola pouco interessadas em aprender ou evoluir: “Não interessa a forma; não percebeu?”
            Este desprezo pela língua mátria aparece muitas vezes na boca de petulantes sempre prontos a desqualificar (através de preconceitos, frases feitas, imagens ou fotomontagens) estadistas, políticos, académicos, cientistas e outras pessoas que pensem ou decidam a contragosto de gente que nem a sua língua é capaz de usar com um mínimo de sabedoria.
                Num espaço onde se pode encontrar o óptimo e o péssimo, o belo e o horrível, o são e o putrefacto, o sábio e o ignorante, existem jardins e lixeiras. É importante, porém, que não nos confundamos na escolha: a Língua Portuguesa não é lixeira.
                       in "Diário Cidade", de 11-9-12

terça-feira, 4 de setembro de 2012

O rio, as margens e os tacanhos




                Conhecendo, pela Comunicação Social, o que se passou com o Presidente do Governo Regional no Porto da Cruz, recordei-me dos versos de Bertolt Brecht: “Do rio que tudo arrasta/ diz-se que é violento/ mas ninguém chama violentas/ às margens que o comprimem”.
            Ainda que Brecht tenha apontado para a violência dos desesperados, nenhum democrata se poderá congratular com actos de grande ou pequena violência, como se vivêssemos em plena “lei da selva”, onde cada um possa fazer justiça pelas suas próprias mãos.
            Apesar de eu já ter lido textos em que Jardim chama de “súcias” aos socialistas e de o ter ouvido dizer que “os tipos do PS dão uma imagem péssima da Madeira” e afirmar em comício que quando os populares virem “gente do PS” poderiam dizer “vai ali um traidor”; de ouvi-lo chamar “bastardos da comunicação social para não lhes chamar f… da p… “, e de que, com ele “quem tem de comer come”, em alarde de linguagem a cheirar a pólvora, reprovo qualquer acto de violência contra o Presidente do Governo Regional como contra qualquer cidadão.
            Lamento que alguns funcionários políticos testemunhem publicamente a sua satisfação envolta em sarcasmo de pseudo-superioridade moral. E se procurassem derrotá-lo pela via eleitoral?
           in "Diário Cidade" de 4/9/12