terça-feira, 28 de agosto de 2012

Sem entusiasmo


Pelas razões já apresentadas anteriormente nestas colunas (relacionadas com a minha discordância pela realização do evento em ano de uma forte crise económica a que se juntou a desgraça dos incêndios), não fui à Festa da Liberdade, na Fonte do Bispo.
            As fotos e os vídeos disponibilizados pelo PS, via facebook, sem a preocupação, manifestada por alguns jornais, de redução de plano para aparentar muita gente frente ao palco, mostram, para além da fraca afluência de pessoas, uma triste falta de entusiasmo face aos discursos políticos e no momento da chegada de António José Seguro ao local da festa. Alguns jornalistas presentes reforçaram esta opinião sobre a falta de entusiasmo desta festa.
            Os dirigentes partidários necessitam de reflectir sobre a utilidade destas festas, num momento em que as pessoas atribuem à falta de qualidade dos políticos muitas das causas das tremendas dificuldades que atravessam e estas festas não credibilizam ninguém.
            Que ficou desta festa? Um enorme vácuo. Seguro veio à Madeira, acompanhado pelos responsáveis pela sua imagem, fazer um discurso para a comunicação social nacional, a propósito da RTP, mas só depois o PS fará a “reentré” política, como se a Fonte do Bispo não valesse nada, do ponto de vista partidário.
            A novidade discursiva esteve apenas presente no momento em que Vítor Freitas, emendando a opinião do seu líder parlamentar, apelou à presença dos “homens bons” nas listas  socialistas para as autárquicas, reconhecendo que a política não pode ser entregue apenas aos homens dos partidos. A ideia, porém, não é nova e costuma ser mais usada em regimes não democráticos, onde os “homens bons” só têm uma alternativa face à maldade intrínseca dos poderosos.
            No Chão da Lagoa também se apelará aos “homens bons”, agora com o nome de “verdadeiros madeirenses” ou “autonomistas”. No fundo, será mais uma festa, com discursos inflamados para a comunicação social do Continente, com muito álcool, menos gente e menos entusiasmo. Não é já tempo de se acabar com estes espectáculos pagos pelos cidadãos em crise real?

                                              in "Diário Cidade", de 28/8/2012

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Partidocracia


         Nos países comunistas (cujo maior exemplo era a União Soviética, mas onde se distinguiam as designadas repúblicas populares socialistas do Leste, a China ou Cuba), o poder político é sempre escolhido pelo comité central do Partido Comunista, sem que as populações possam interferir, pois vigora o sistema de partido único.
            Na República Democrática Popular da Coreia (Coreia do Norte), país governado, desder a sua fundação, logo após a II Guerra Mundial, pelo estalinista Partido dos Trabalhadores da Coreia, o poder passou de Kim-Il-sung para o seu filho Kim Jon-il e, com a recente morte deste, para o seu filho Kim Jong-Un, em autêntica monarquia comunista.
            No Bloco de Esquerda, que procura construir “uma esquerda socialista e popular” e que é uma plataforma que uniu o PSR (de tendência comunista trostskista e então liderado por Francisco Louçã) à UDP (de tendência comunista leninista-estalinista) e ao Movimento Política XXI, o seu líder anuncia abandonar a liderança e aponta os substitutos João Semedo e Catarina Martins para uma direcção bicéfala que será o expoente das quotas de género. Ninguém poderá estranhar, dado o método da escolha, a razão por que Louçã nunca experimentou uma direcção destas na sua liderança.
            Na Madeira, ouve-se que Alberto João Jardim será o responsável pela escolha do seu sucessor no PSD. As lideranças fortes, tantas vezes enaltecidas por comentadores de fraco espírito democrático, gostam de escolher os seus sucessores.

in "Diário Cidade" de 21/8/12
           
            

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Democracia ou partidocracia


A notícia do jornal I de que as reformas de alguns deputados e funcionários da Assembleia da República têm sido despachadas muito mais rapidamente pela Caixa Nacional de Pensões do que as dos funcionários comuns é mais um sinal da partidocracia instalada no nosso País.
            Esta situação dá razão ao cidadão que aponta o dedo aos políticos que se servem dos cargos de pseudo representação para defenderem os seus interesses individuais ou de grupo em prejuízo da colectividade. Nos parlamentos, criam regimentos, estatutos e leis onde não descuidam os seus benefícios pessoais ou empresariais, enquanto vão preparando adequadamente as aposentações ou “reintegrações”.
            Medina Carreira, no livro Portugal que Futuro?, afirmava, em 2009, que os principais partidos “nem sempre se têm comportado com suficiente lisura: prometem o que nem sequer sabem se podem cumprir; prometem e, pura e simplesmente, não cumprem; prometem mesmo o que já sabem não poder cumprir; fazem o que se comprometeram a não fazer; fazem, enfim, o que lhes convém e não o que interessa à sociedade”.
            Continua Medina Carreira, com as suas verdades corrosivas: “O nosso País está a suportar, assim e inconscientemente, a acção de um sistema político-partidário fechado sobre si mesmo, com reduzida qualidade, intencionalmente “armadilhado” na criação dos requisitos para a sua sobrevivência e, até agora, sem qualquer capacidade para promover a sua requalificação”. Dizia o antigo ministro das Finanças que o País suportava esta partidocracia de forma inconsciente, mas os Portugueses, atingidos por um choque devastador a que chamaram crise, têm tomado progressiva consciência de que afinal o mal não está no partido A ou no B, mas no edifício partidocrático que tomou de assalto os meios disponibilizados pelo esforço dos cidadãos.
            Os partidos terão de mudar obrigatoriamente, se quiserem obter pelo menos o benefício da dúvida e, para isso, terão de abrir-se verdadeiramente à sociedade, com alterações estatutárias que permitam uma verdadeira representatividade dos eleitos.
            Porque a democracia corre riscos sérios sob o domínio partidocrático e porque a cidadania não se esgota na vivência partidária, começa-se a valorizar mais os movimentos de cidadãos, tal como se deve investir nas associações e clubes independentes dos poderes públicos. Isto não significa que os movimentos sejam constituídos por gente desinteressada ou mais capacitada do que os dirigentes partidários, até porque se conhecem casos de gente que criou movimentos apartidários só depois de ter sido preterida de lugares cimeiros nas listas dos seus partidos.
            As pessoas não são melhores por estarem ou não filiadas em partidos políticos ou em movimentos de cidadania, por isso defendo, como a Secção Portuguesa do Movimento Internacional Lusófono, que, nas eleições legislativas, os deputados possam ser eleitos como independentes ou em listas não partidárias e que todos os deputados, mesmo que integrados em listas partidárias, respondam perante os cidadãos que os elegeram e não aos respectivos partidos.
            Os partidos seriam mais atractivos e menos sujeitos às lógicas aparelhísticas se houvesse ainda limitação dos mandatos dos deputados e primárias para a escolha de todos os lugares da lista. De igual modo, ganharia a democracia representativa se os eleitores pudessem escolher através do voto uninominal, votando no candidato e não apenas no partido.
                           in Diário Cidade de 14/8/2012

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Só os deuses sobem ao Olimpo


Apesar do excelente comportamento de alguns atletas, entre os quais se incluem os madeirenses Marcos Freitas, no ténis de mesa, e Helena Rodrigues, na canoagem, ouve-se já, antes do encerramento dos Jogos Olímpicos, o lamento por Portugal não conseguir conquistar medalhas olímpicas.
            Algumas pessoas começam a pedir a cabeça de responsáveis pelo Comité Olímpico, outras iniciam o coro dos queixumes pela falta de apoios estatais ou das próprias federações. Quem raramente se interessa pelo fenómeno desportivo vitupera atletas e a própria mediocridade portuguesa, seguindo o habitual menosprezo colectivo que nos contamina durante longos períodos.
            Quem esperava as duas ou três medalhas do atletismo esquece as lesões que atingiram atletas como Francis Obikwelu, Nélson Évora ou Naide Gomes, de quem se aguardava as conquistas. Quanto ao judo, falharam os atletas portugueses como os de muitos outros países e é isto o desporto. Ao invés, no remo, na canoagem, na vela, no ténis de mesa e até na maratona feminina, os lusitanos conseguiram bons resultados.
            No desporto, ganha-se ou perde-se. Nos Jogos Olímpicos estão os melhores dos melhores de todos os países, logo ganhar é dificílimo, e é isso que todos devemos considerar. Só os deuses sobem ao Olimpo. Muitos deuses actuais são formatados desde meninos por homens, máquinas e seringas, como muitas vezes se verifica semanas, meses ou anos após os Jogos Olímpicos.
            Para os que lamentam a falta de medalhas, num tempo em que todos precisamos de uma alegria portuguesa, verifique-se como a Espanha, com uma população quatro vezes maior que a nossa e uma aposta desportiva muito vincada, só possui três medalhas (duas de prata na natação e uma de bronze na canoagem), a Bélgica duas e a Áustria continua a zeros. E que dizer da rica Alemanha, com mais de 82 milhões de habitantes e apenas vinte e duas medalhas, quando antes da reunificação o Leste e o Oeste mediam forças com a União Soviética e os Estados Unidos?
            A falta de medalhas deverá levar-nos a pensar como custam a ganhar, valorizando-se mais os grandes atletas medalhados ao longo das diversas competições olímpicas. Para que continuem a surgir campeões portugueses, as escolas, a partir do 3º ciclo, deverão considerar a possibilidade de horários diferenciados ou turmas para os jovens desportistas identificados como de qualidade ímpar ou já integrados no desporto de alta competição. Agora com professores sem carga horária (ou horário zero), não será difícil possibilitar aos jovens desportistas compatibilizarem treino e estudo. Talvez assim surjam mais campeões olímpicos.
            Quem sabe se um português não ganha uma medalha nestes dias que faltam… Se assim não acontecer, percebamos que o desporto também é vida, onde se ganha e perde. Não é por acaso que se chama a alguns desportistas jogadores.

 in "Diário Cidade", de 7/8/2012