terça-feira, 31 de julho de 2012

Tempo de férias


Não abordarei as férias dos desempregados, dos funcionários públicos ou dos empregados em empresas com dificuldades. Para todos estes, no fundo a maioria da população, estas férias correspondem apenas a tempo de descanso sem dinheiro para gastos e muito menos para viagens para fora da ilha.
            Falarei do tempo de calmaria que nos oferecerão comentadores e políticos de diversos quadrantes, após meses de tentativa de nos convencerem das suas pessoalíssimas verdades ou das virtudes das suas ideologias. A malta que não vai de férias já não conseguia aguentar mais as acusações de uns para outros, a culpa da “troika” ou de Merkel, a culpa do neo-liberalismo, dos mercados, do sistema, da constituição, da falta de produtividade e de todos os inimigos públicos responsáveis pela crise, pelos incêndios e por toda a desgraça, todos, todos, todos menos os governos da simpatia dos acusadores.
            Ficaremos livres dos deputados que compuseram certamente os piores oito meses da história do parlamento regional e que transformaram o círculo da Assembleia num circo. Ainda ontem um amigo desculpabilizava a mediocridade desse espectáculo político, com a falta de tempo dos deputados, muito preocupados com os seus negócios ou com o marketing relacional a que se dedicam, a justificar o joguinho do “entra e sai” e a vulgaridade discursiva.
            Um descanso, meus senhores, após estes últimos dias de balanço altissonante e auto-elogioso ao trabalho parlamentar, numa azáfama de querer falar de tudo e atacar todos: ele era os incêndios e a falta de helicópteros, ele era a protecção civil e a falta de coordenação, ele era o CINM e os governos de cá e de lá, ele era o Estatuto da Carreira Docente e as explicações aos professores, ele era a RTP-Madeira que antes era um “telejardim” e agora deve ser protegida, ele era a redução do IVA, ele era o cardápio  de decretos, audições parlamentares, comissões de inquérito e requerimentos, uma trabalheira a pedir meças à habitual contabilidade do BE e do PCP na Assembleia da República.
            Que bom, o sossego!
                                                                  in "Diário Cidade" de 31/7/2012 

terça-feira, 24 de julho de 2012

Festa da solidariedade


Foi decepcionante para muitos socialistas a conferência de imprensa de Vítor Freitas, líder do PS-Madeira, nesta segunda-feira.
Apesar de uma azáfama de conferências de imprensa em que ora se garantia a necessidade de meios aéreos para o combate aos fogos, ora se propunha estudos sobre os mesmos meios; de deslocações de roupinha branca e de sapatos de verniz aos locais dos incêndios, com câmaras de filmar atrás, a criticar falta de coordenação, num aproveitamento partidário visível, esperava-se muito mais da direcção socialista.
Convém verificar, a propósito, a diferença de atitude, quanto aos incêndios, do PS-Madeira e do PS nacional, pois, segundo o Diário de Notícias, o próprio António José Seguro “recusou comentar a eventual falta de coordenação no combate às chamas no Algarve e ausência de meios aéreos na Madeira, alegando que os incêndios não devem servir para fazer política partidária”.
Alguns militantes movimentaram-se pressionando a direcção para anular a “Festa da Liberdade” na Fonte do Bispo, aplicando a verba de cerca de meia centena de euros no apoio directo às pessoas que perderam os seus bens. E essa verba poderia crescer com o compromisso da direcção em diminuir as verbas a aplicar na próxima campanha eleitoral autárquica.
Ainda que o mundo não pare com as desgraças que vão acontecendo um pouco por todo o lado e haja culturas onde se faz festa diante do morto, a verdade é que os partidos políticos sobrevivem com meios financeiros provenientes dos impostos dos cidadãos e a sua função primeira não é a de oferecer música à população, logo as festividades bem poderiam ser suspensas num ano em que a própria Fonte do Bispo (local da festa) foi afectada.
Oferece o PS-Madeira o lucro de barraquinhas e o “merchandising” do partido, quando estes não prometem nada que se veja em ano de dificuldades. Resta o valor dos bilhetes de autocarro, que não chegará a um quinto do que o PS-Madeira poderia dispor, em sinal de verdadeira solidariedade, se anulasse a sua festa deste ano.
O PSD também fará a sua festa? Esse é um problema desse partido. As acções ficam com quem as pratica.
                                  in Diário Cidade, de 24/7/2012

terça-feira, 17 de julho de 2012

Oportunidades para todos


A licenciatura de Miguel Relvas, ou o modo como foi conseguida, tem servido para os habituais discursos políticos assentes no acessório, quando sobretudo testemunha a situação a que chegou a política educativa no nosso país.
            A utilização da expressão “política educativa” visa, neste meu texto, mostrar como as duas palavras estão ligadas, de modo a podermos também falar de “educação política” sem nos desviarmos do essencial. Importa sobretudo sublinhar como a ascensão de determinadas figuras à mais elevada hierarquia de poder nos partidos políticos depende de certas “competências” e não de conhecimentos científicos ou humanísticos acerca do mundo e da sociedade.
            Como os poderes partidários estão sujeitos a um desgaste constante, ao ataque continuado e às alternâncias, os políticos “competentes” usam as estruturas onde se integram para estabelecer relações privilegiadas com o poder económico, seja através de sociedades secretas, seja pelas fundações, seja através do mundo empresarial.
            Certos políticos ascendem a uma elite económica e social que facilmente se apercebe das limitações de personalidade e de ciência de figuras formatadas por discursos vazios e repetitivos e alimentadas por televisões e jornais a padecerem das mesmas insuficiências. Para disfarçarem incapacidades, procuram decorar as paredes das suas casas com diplomas e títulos académicos, os quais até poderão servir para garantir um bom cargo em empresa pública ou instituto.
            Apesar da ironia de vermos um adversário do projecto “Novas Oportunidades” aproveitar o que a lei lhe permitiu, não deveríamos estar agora a assistir à segunda parte do jogo Sócrates-Relvas (como representantes do PS-PSD), com tiradas de mau gosto a substituírem os discursos políticos que interessava discutir. Quanto melhor seria analisarmos como os políticos desvalorizaram, ao longo de décadas, conhecimentos, saberes, escolas e universidades, substituindo-os por competências adquiridas em qualquer esquina da vida, com esforços mínimos…
            Reduzindo as dificuldades e o esforço exigidos pelo verdadeiro conhecimento, fingindo não perceber como a lhaneza do saber permite democratizar a mediocridade, alguns políticos, no seu pedestal de Bolonha, têm arrasado o elitismo universitário, para que possam enfim reinar os chicos-espertos.
            Sendo a política uma ciência de duas faces, sendo uma a nobre arte de governar a Cidade em favor dos cidadãos e a outra a “porca” arte de sobrevivência dos poderosos, fácil é perceber o lado onde os ministros adquirem as competências que lhes permitem os créditos universitários.

                                   in "Diário Cidade", de 17/7/2012


terça-feira, 10 de julho de 2012

A Língua Portuguesa nos exames nacionais


Os resultados dos exames de 12º Ano são aguardados nervosamente por todo o sistema de ensino, pela importância que têm na continuidade do percurso académico de cerca de setenta mil jovens de todo o País. Desta avaliação dependerá o curso escolhido e a universidade onde se matricular, com custos variáveis para as bolsas dos encarregados de educação.
            O ministério da Educação é sempre posto à prova, ano após ano, com alguma comunicação social, sindicatos, federações de pais e políticos a apontarem imediatamente erros e incompetências a sistemas e reformas, como se, em Educação, os resultados pudessem aparecer após meses de trabalho ou num simples estalar de dedos.
            Da angústia dos exames não se livram igualmente professores e escolas, visto que os resultados dos alunos dependem do seu esforço mas também da organização escolar e da qualidade do ensino. Apesar da compreensível desculpa de que os resultados dependem muito do número de alunos por turma e do estrato social dos educandos (e dos apoios que as elites ou classes médias podem dispor para os seus filhos), sabem as escolas e percebem os professores que os pais começam a estar atentos às escolas com melhores resultados nos “rankings” destes exames, que não podem ser vistos como um pormenor.
            Ainda que a média dos resultados da disciplina de Português seja um pouco melhor que os de Matemática ou de Física e Química, não deixa de ser negativa, a exigir análise e a impor melhorias. A propósito do início do ano escolar, o capelão-mor da Universidade Católica de Moçambique lembrava que “A entrada na Universidade não se preparava nas vésperas do exame (…)” mas “…desde o primeiro dia de aulas do ensino básico até ao último dia do 12º.” Já agora, e porque a visão é antitética à do nosso sistema de ensino, até agora predominantemente facilitista e baseado no ludismo, continuo a citar o mesmo clérigo de Moçambique: “Hoje em dia, Moçambique precisa de Homens e de Mulheres formados profissionalmente com qualidade, não precisa de profissionais que passaram com 10: desses temos muitos, não há mais vagas para essa turma. Temos muitas vagas para os estudantes que queiram passar o ano de 14 para a frente. É desses que Moçambique precisa”.
            Falando de números, as escolas terão de diminuir o fosso entre a avaliação interna de 14 valores e a nota de exame (média de 9,5), porque a avaliação da oralidade não gera esse desnível, que facilmente pode ser imputado à inflação facilitadora.
            Para além de mais rigor e exigência, o ensino do Português deve centrar-se no que é fundamental: ler, interpretar, escrever. Avaliar atitudes e valores não deve competir a esta disciplina. Os alunos devem cumprir o seu código de conduta, simplesmente. Ensinar competências como a de saber ouvir não deveria fazer perder tempo em relação ao fundamental. O mesmo se diga da Gramática, no modo como está a ser ensinada, a raiar a inutilidade. No exame, apenas 25 dos 200 pontos atestam conhecimentos especificamente gramaticais, pelo que, na realidade, sabendo interpretar e escrever, qualquer aluno se candidataria a uma boa nota.
            Nenhuma obra grandiosa pode ser concretizada sem esforço, nem “cos passeios moles e ouciosos”. O caminho do conhecimento é longo e difícil, mas no final os prémios e as recompensas estão destinados a “os que são de fama amigos” e aos que buscam “co seu forçoso braço”. Não era disso que falava Camões nos versos saídos no exame?
          
                                                         in "Diário Cidade", de 10/7/2012


terça-feira, 3 de julho de 2012

Contando os nomes


As dificuldades do ensino da Gramática colidiram, ao longo de décadas, com um sistema de ensino de tendência marcadamente facilitista e com a visão de uma escola submetida aos ludismos.
            Francamente contra o facto de, na escola, a Gramática (Conhecimento Explícito da Língua) passar a mais uma competência distintiva, em lugar de ocupar o seu posto normativo e auxiliar da leitura, da interpretação e da escrita, temo que se passe de um estádio de dificuldade dos professores para um nível onde estes se tornem papagaios desanimados.
            Hoje falarei do percurso escolar do “nome” ou “substantivo”. A tendência é para que esta classe de palavras deixe mesmo de ser “substantivo”, termo riquíssimo, derivado de “substância” ou “essência”. O problema, imagine-se, seria ligar a “esse”, o “ser” latino. Em vez de permitir os caminhos pelo Latim ou até pela Filosofia, num tempo tão inimigo da cultura e do pensamento, tudo se torna mais fácil com a aceitação de “nome”, ainda que, depois se tenha que ensinar as orações subordinadas “substantivas”, quando estas desempenham uma função característica do “nome”.
            Numa gramática didática atualíssima, definem-se “nomes” como “palavras que funcionam como núcleo do grupo nominal”. Mais do que um truísmo, esta definição é uma nulidade, semelhante a definir “mistério” como o caráter do que é misterioso. Na mesma gramática, ainda que se diga que “os elementos desta classe podem denotar entidades concretas ou abstratas, a verdade é que a tradicional divisão dos nomes entre concretos e abstratos desaparece no Dicionário Terminológico em vigor. Para além de continuar a haver nomes próprios e comuns e estes englobarem o “coletivo”, desaparece a referida dicotomia concreto/abstrato para surgir a oposição “contável/não contável”, sem que se perceba a utilidade destas novas subclasses para a compreensão da língua.
             Estamos efetivamente num tempo de números, onde interessa contar e não pensar ou filosofar. Tornava-se difícil explicar a alunos habituados, desde os primeiros anos, a perceber os concretos como os “substantivos” que indicavam o que podia ser apreendido pelos sentidos, que palavras como “Deus” ou “anjo”, seres impercetíveis, podiam ser concretos. Mas essa era uma tarefa enriquecedora das aulas e do pensamento. O que interessa agora é o mundo explícito, contável, material, que pode e deve ser veiculado com uma folha na mão, bem preparadinha na noite de véspera pelos burocratas dum ensino que caminha para erradicar de vez a imaginação e o pensamento. Nomes? Contáveis ou não contáveis? Alta sabedoria!

                                                                         in "DIário Cidade", de 3/7/12