quinta-feira, 29 de fevereiro de 2024

Avante, Avante P'lo Benfica - Hino Oficial do Sport Lisboa e Benfica


Pelos 120 anos do Sport Lisboa e Benfica, uma paixão que se explica.

O Benfica estava cá quando eu nasci, como a mãe, o pai, o irmão, a casa, o mar, as árvores, a terra e o caminho. Já falei de como o meu amor nasceu, em "Benfica, 1962", em A Curva dos Dias, em que não referi as canções que ouvia na "Música pedida" da rádio, como "Benfica, eu sou do coração/ Benfica, até debaixo de água" ou "A minha mulher em casa me diz/ Ó Xavier, venha quem vier, eu amo o Benfica". Mas também poderia falar do que passei naquele 26 de Novembro de 1969, pelos meus 13 anos:
O Benfica havia perdido por 3-0 em Glasgow contra o Celtic na 1ª mão da 2ª ronda (oitavos-de-final) da Taça dos Clubes Campeões Europeus e disputava-se no imenso Estádio da Luz, nessa noite, o segundo jogo. Como me acontecia sempre (e ainda se vai passando, como hoje, enquanto não chega o desafio contra o Sporting) que o Benfica enfrentava grandes adversários, pouco me apetecia fazer e o tempo parecia não passar até à hora do jogo, após as aulas de manhã. Passei o tempo na varanda, olhando o mar, à espera.
Estranhamente, depois do jantar, quis ficar na cozinha para ouvir o relato, mas a mãe não deixou, pela primeira vez. Que eu ainda não tinha estudado, disse. Mas eu não precisava, tirava boas notas sempre; não tinha trabalhos para fazer, ripostava, não servindo de nada, não, não e não.
Voltei a pedir na hora em que o jogo se iniciava: não! Sentei-me, deitei-me, tornei a sentar-me. Levantei-me, fui à janela, esperando ouvir gritar golo pela vizinhança. Ouvia os sons de rádios ao longe, momentos de intensidade gritada, parecia-me que gritavam golo constantemente, não podia ser; seria ou não seria? O vizinho mais próximo era um maritimista dos sete costados, mas benfiquista também; de certeza ouviria o relato. Dirigi-me à casa de banho, onde passei quase meia hora empoleirado junto da pequena vidraça aberta: ali ouvia-se melhor os ruídos da casa vizinha e confirmava que se ouvia o relato: golos, mais gritos, mais golos, não podia ser. Seria ou não seria?
Cansado e para fingir que estudava regressei ao quarto, esperando que os 90 minutos se concluíssem. 
- Mãe, deixa-me ouvir o resultado?
- Vá lá, ouve!
Corri, liguei o aparelho e ouvi alto e em bom som: GOOOOOOOOLO DO BENFICA! DIAMANTINO! BENFICA, 3; CELTIC, 0. Bola ao centro e acaba a partida! Vamos para prolongamento. Comecei a tremer, nas mãos, no peito, tremia com aquele golo, tremia mesmo! 
Nada se passou no prolongamento e acabava o jogo. Seguia-se o sorteio da moeda ao ar (não havia desempate por pontapés de grande penalidade naquele tempo). Nunca deixei de tremer durante esse período de espera. 
O locutor descreveu o que percebia: Benfica! Passou o Benfica! Não; não, Celtic, e pronuciou o nome da equipa escocesa devagar, pausadamente, como se não a quisesse dizer!
Continuei a tremer; tremia sem parar. A mãe assustou-se, fez-me um chá "para os nervos; para dormir". Na cama tremia ainda... até acordar no dia seguinte, com as nuvens cinzentas de Novembro, mas sem tremer, aguardando dias mais luminosos.

HINO:
letra: Félix Bermudes música: Alves Coelho Interpretação do Orfeão Sport Lisboa e Benfica
(canal youtube de António Maia)

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2024

O tempo da justiça e outras coisas que tais


Mais fatal que o fado é o habitual dicurso, usado por responsáveis políticos quando são associados a casos de corrupção, ou alguma figura destacada do partido onde ocupam posição de destaque sofre essa acusação, de que, enquanto o acusado não sofre pena judicial, se está no tempo da justiça e não no da política. Dizem isso ou, parafraseando Jesus, extremam a distância: à justiça o que é da justiça e à política o que é da política.

Quando se trata de comentar uma acusação a um político de partido concorrente aos lugares do Estado por que se batem, a generalidade dos políticos esquece-se imediatamente das justiças que estão a funcionar ou dos tempos dela face aos dias da política. Juízes sem martelo, não resistem ao ataque desenfreado, 

No recente caso que levou à queda do Governo da Região Autónoma da Madeira e à demissão do presidente da Câmara Municipal do Funchal, tão colossal como a magnitude da acusação do Ministério Público ou dos meios bélicos utilizados (a gerar obviamente sentimentos contra o centralismo do Estado), foi o chorrilho de afirmações justicialistas por parte dos partidos oposicionistas desta Região (e a repentina retirada do apoio a um governo dirigido por Miguel Albuquerque, por parte do PAN).

Como outros, o líder dos socialistas madeirenses, afirmando que estava "na altura de pôr um ponto final em quase 50 anos de uma governação podre e desgastada", exigiu também que Albuquerque não se refugiasse na imunidade e se demitisse, no que foi corroborado pelo líder do seu grupo parlamentar regional.

A ânsia do ataque procura fazer esquecer que Miguel Albuquerque é presidente do Governo Regional desde 2015, quando é evidente que a sua responsabilidade governativa dura há sete anos e não há 50 - e, seguindo o seu pensamento, deveria ter referido 48 anos, se quisesse ser verdadeiro e credível, pois o I governo da RAM tomou posse em Junho de 1976 -, tal como Paulo Cafôfo não é responsável por o PS-Madeira nunca ter ganho eleições para o Governo Regional durante esses 48 anos. 

Enquanto Cafôfo vai dizendo que "Um governo que saia deste quadro parlamentar é um governo fraco e sem legitimidade por parte do povo", como se o povo não tivesse votado maioritariamente na Coligação PSD/ CDS há menos de cinco meses, e a insistir que "num momento como este, devolver a palavra ao povo é a unica forma para fazermos a Democracia funcionar e sairmos desta crise, Vítor Freitas, por seu turno, acusa PSD/CDS e PAN de serem os responsáveis por não termos orçamento", quando é claro que novas eleições atirariam a aprovação do orçamento para o final de 2024. Em que ficamos?

E em que ficamos agora, depois de o juiz de instrução ter libertado os detidos da estranha operação com meios militares, por "uma total falta de indícios"? Que dirão estes políticos da oposição e como dormirão descansados todos aqueles que encheram as redes sociais com "memes", dichotes e anátemas judicativos? Estarão seguros de que as vítimas destes "corajosos" que tanto apreciam espezinhar as vítimas ou os que estão indefesos nos seus momentos mais difíceis não os levarão à justiça por difamação?

Uma palavra para dois "Miguéis" que foram, sobretudo, humanos, neste momento. Miguel Silva Gouveia e Miguel Fonseca foram de uma dignidade, nas suas intervenções públicas sobre o caso e sobre os acusados, que eu devo realçar, por justiça.