terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Festas e dívidas



                Os Madeirenses vivem a Festa num contínuo entre o Natal e o Ano Novo, com os limites alongados até aos dias das missas do Parto e até ao Santo Amaro.
             A revéspera de Festa, com a tradicional ida ao mercado do Funchal, para a compra das frutas e legumes mais frescos e dos brinquedos em falta para o sapatinho transformou-se em mais uma passagem do calendário festivo, a ganhar cada vez mais popularidade.
            Ainda que não defenda a manutenção invariável das tradições para benefício do postal etnográfico, não aprecio que as festividades funchalenses da revéspera de Festa tenham evoluído para mais uma feira da poncha e da cerveja, tal como lamento a falta de engenho de algumas autarquias da ilha, as quais procuram fazer uma cópia (limitada) da “noite do Mercado”. Trata-se, na realidade, de atividades promovidas e /ou patrocinadas por entidades públicas, regionais ou municipais, sujeitas aos objetivos delineados nos gabinetes.
            A “noite do Mercado”alargou-se para mais ruas do litoral oeste do Funchal, permitindo mais espaço para um número crescente de pessoas em busca de folia. Este ano, mais do que nunca, e aproveitando uma temperatura de início de Outono, a população quis festejar, “enquanto se puder”, ou “para esquecer a crise”. O povo sabe o que o espera no próximo ano e o seu comportamento pode ser entendido como um grito coletivo contra a subjugação e a tristeza.
            Ao longo dos séculos, a maioria dos madeirenses passou por enormes dificuldades, não deixando de participar alegremente nos seus arraiais e festas, porque sempre soube que “tristezas não pagam dívidas”. A grande questão é saber como há de reagir perante as adversidades predestinadas, atendendo ao caráter da entidade destinadora.
            Os senhores da terra não poderão invocar Deus na hora amarga, e não será o álcool despejado em copos de poncha a saldar as dívidas fatais.
                                                                                                in "Diário Cidade" de 27/12/2011

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Vamos emigrar todos?



                Se, em linguagem cinematográfica, há países que não são para velhos, o nosso parece não servir senão os que circulam com carta branca nos palácios do poder.
            Por cá, enquanto encerram empresas, crescem as fileiras de desempregados, aumentam impostos, transportes e tudo o que se paga e se cortam salários, o parlamento regional continua a atribuir benesses e obscenas verbas aos partidos. Para os maus exemplos, para a mediocridade crescente e para a quase inutilidade do trabalho realizado, os Madeirenses gastam demasiado com esta Assembleia Legislativa.
            Alguns empresários, bem conhecedores da economia e da situação financeira regional, realizaram atempadamente aquilo a que chamaram de internacionalização das suas empresas. Souberam investir no bom tempo, nos passos certos, na boa direção do vento e aproveitaram tudo o que puderam. Uns constroem estradas e outras infraestruturas África dentro, com as mesmas técnicas que por aqui usaram, principalmente nas relações com os senhores do poder. Outros abrem hotéis em tudo o que é canto. Ainda há aqueles que andam pelos Açores enquanto é tempo e montam escritórios no Dubai, impossibilitados de sonharem negócios com a Venezuela ou com outros países amigos. Absorveram os dinheiros da Europa, tudo o que ela podia dispor em seus variados programas de auxílio, aproveitaram os investimentos públicos, e agora toca a investir no estrangeiro, passados os tempos em que do Leste e de África vinha para cá a mão-de-obra barata.
            Aos empregados, entretanto, só lhes resta sair da terra, como o dinheiro. Fazem-no preferencialmente os mais jovens, cada vez em maior número, seguindo as pisadas dos seus avós. Mas se estes o faziam por necessidade própria, sem motivação extrínseca, agora são os próprios governantes deste país que é para só para meia dúzia a convidar os jovens a emigrarem.
            Não é de agora que se ouve dizer que a União Europeia passou a ser um espaço comum e que, portanto, os nossos jovens devem olhar para a Europa e não apenas para o seu torrão natal, no momento em que procuram trabalho, mas torna-se chocante ouvir um secretário de Estado e agora o Primeiro-ministro, ele mesmo, convidando os jovens a saírem do País.
            Mais do que estranho, o apelo à emigração é chocante e surge como um atestado público da incapacidade dos governantes na criação de uma esperança para o seu povo, ténue que seja. Ao que chegamos…
                                                                                                     in "Diário Cidade"

           

            

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Cultura madeirense


José Tolentino Mendonça foi nomeado, pelo papa Bento XVI, consultor do Conselho Pontifício da Cultura, organismo do Vaticano. Esta nomeação realça a dimensão cultural deste padre madeirense, natural de Machico, um dos maiores poetas portugueses da atualidade.
            Para além de notável biblista e professor da Universidade Católica, o responsável pelo Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura possui uma obra literária de qualidade invulgar, onde religião e humanismo se exprimem em profunda mas luminosa poesia.
            Este poeta, que disse, no poema “Poética”, em De igual para igual, que

                                   Sobre a terra sem nenhum rumor
                                   um verso é sempre tão pouco
                                   em redor do que se pode observar

é o mesmo que escrevera em Os dias contados, o terceto “Final”

                                   O silêncio é a partilha
                                   do furtivo
                                   lume

ou, no poema “Para ler aos noviços”, de O viajante sem sono, esta primeira estrofe:

                                   Deus não aparece no poema
                                   apenas escutamos a sua voz de cinza
                                   e assistimos sem compreender
                                   a escuras perícias
           
            Reconhecido no panorama cultural europeu, José Tolentino Mendonça é mais um grande poeta madeirense, na esteira dos consagrados Herberto Helder e José Agostinho Baptista, que se alcandorou ao espaço onde se encontram os eternos Edmundo de Bettencourt e Cabral do Nascimento.
            Se é verdade que os Açores têm projetado grandes nomes da Literatura portuguesa, estejamos cientes de que, principalmente na Poesia, a Madeira pode orgulhar-se de, nos últimos cinquenta anos, ter visto nascer alguns dos maiores autores da Literatura lusitana.
                                                                                                
                                                                                      in "Diário Cidade", de 13/12/11
                                                                                 


terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Estranho caminho


Na Madeira, começa-se a sentir verdadeiramente o resultado de uma confluência de erros de más governações: no País, onde principalmente os dois partidos do centro desbastaram abundantes meios financeiros colocados à sua disposição, e na Região, em que os governos de um único partido, sob o comando de um só homem, gastaram o que regatearam e o que inventaram como se não houvesse amanhã, ou como se o saco não tivesse fundo, ou como se as mesmas estratégias dessem resultados semelhantes até à eternidade.
            E então a que assistimos? Enquanto os partidários do antigo governo nacional vão gritando que o governo vai além da troika, como se os socialistas não fossem também responsáveis pelo estado a que isto chegou, os situacionistas “laranja”, fingindo que nada têm a ver com o governo que ajudaram a eleger, desatam a atacá-lo que não é brincadeira. Olhemos para o seu órgão diário: todos os colunistas escrevem sobre um único tema: os responsáveis pela crise são os “medíocres” Merkel e Sarkozy, ou então esses neo-liberais do PSD de Lisboa. E não há outro tema nem assunto que interesse. Para tudo ser tragicómico, inventam uns imaginados leitores que escrevem o mesmo sobre o mesmo, em ladainha enjoativa, como se agora não houvesse mesmo poder autonómico nem responsabilidades insulares nesta catástrofe a que conduziram as ilhas de Zarco.
            Vão conseguindo os seus desígnios, entre decadentes oposicionistas locais, que, em uníssono, como convém, também vão debitando a mesma cantilena do Passos contra a Madeira e da Madeira contra Lisboa e de que a culpa é sempre dos outros, esquecendo rapidamente as críticas construídas ao longo de décadas. No fundo, criam-se as condições para que as avezinhas do costume venham novamente gritar independências ou separatismos, na senda das famosas autonomias totais ou das bombas de antanho.
             É verdadeiramente triste que, sempre que se quer mais dinheiro, se grite e ameace, em impudico desnudamento de mesquinhas intenções, mais adequadas ao comportamento das meretrizes.
            Caminham estes políticos ao lado de certos jornalistas e comentadores que, armados em estelares figuras, catalogam de menores (como se eles fossem excelentes e excelsos) os que não lhes querem pagar mais a mediocridade, a ignorância, o despesismo, o clientelismo, o nepotismo e tantos outros ismos de enganar o povo e manter o poder.
                                                                                   in Diário Cidade de 6/12/2011

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Desculpas esfarrapadas




            Parece ter bastado que o partido maioritário tenha invocado situações próximas na Assembleia da República para que se tenha deixado para terceiro plano o mediático tema das novas regras do quorum e das votações na Assembleia Legislativa da Madeira.
            Pessoalmente pouco me importa que noutros parlamentos existam regulamentos e regimentos com alíneas pouco dignificantes. Interessa-me questionar sobretudo o que se passa na Assembleia Regional, onde o recente regimento aprovado com o voto único do PSD incomoda uma população cada vez menos crente nos deputados que a deviam representar.
            O deputado Tranquada Gomes afirmou claramente que o PSD não quer ser apanhado desprevenido nalguma votação, e por isso fez aprovar a norma que estabelece que o voto de um deputado vale pela totalidade dos votos de todo o seu grupo parlamentar. Resta saber, como me dizia um amigo, se não bastaria a um funcionário de uma repartição ceder os seus subsídios de Férias e de Natal nos próximos dois anos, para que os seus colegas dessa repartição ficassem imunes a esses terríveis cortes. Outro amigo, menos meigo, perguntava se não bastaria uma refeição por dia a um deputado do PSD para que os outros se considerassem alimentados.
            Quando os cidadãos se vêem espoliados de toda a esperança, quando se aumenta, com grande alarido, em cem euros o limite que garante a defesa dos subsídios, mas, em troca, se aumenta os impostos sobre os juros dos depósitos a prazo (a maioria dos quais míseros aforros), uns senhores deputados dão-se ao desplante de defender o seu auto-legalizado absentismo.
            Esta estratégia dos deputados laranja destapa-lhes a careca: tão habituados ao poder absoluto, realmente correriam o risco de perder uma ou outra votação enquanto tratassem de importantes processos nos seus escritórios de advocacia ou realizassem grandes negócios nas suas empresas. Aqui está o busílis da questão: a Assembleia Legislativa da Madeira deveria rever o Estatuto Político-Administrativo, de maneira a incompatibilizar a função de deputado com determinadas práticas profissionais e empresariais. Quando isso for feito; quando acabarem as acumulações de salários com pensões ou reformas; quando os deputados só tiverem acesso a reformar-se na idade dos outros cidadãos; quando não houver subsídios de reintegração para os políticos; quando acabarem os favores e mordomias, então estarão em condições de pedir algum sacrifício aos cidadãos que dizem representar. Até lá, poupem-nos às desculpas esfarrapadas e às comparações desonrosas.


terça-feira, 22 de novembro de 2011

As mesmas pessoas, os mesmos erros


              Há gente que, por mais que erre, nunca aprende, vá lá saber-se porquê…
            O PS-Madeira levou um banho, nas últimas eleições regionais, que deveria obrigar a uma mudança de discurso e atitude. O problema é que os principais atores da última campanha foram premiados internamente e, porque devem pensar que são tão sábios que o povo simplesmente não os compreendeu, insistem, insistem, insistem.
            Antes do ato eleitoral, enquanto o PSD se entrincheirava na luta contra um inimigo externo e se desculpava na obra feita para justificar a dívida, o PS tornou-se um monstro anunciador da desgraça, em conúbio com um jornal diário, que ia apresentando títulos e parangonas a anteceder palavras de ordem e cartazes. Enquanto o PSD, imagine-se, se mantinha em silêncio – e era criticado por não apresentar medidas – os socialistas queriam ver, preto no branco e de imediato, a austeridade futura. Enquanto as pessoas queriam ver adiados os cortes e os sacrifícios por mais um mês, um mês que fosse, porque sempre seria mais um troquinho a guardar, esses arautos da má nova, geralmente bem instalados nos seus negócios ou jeitosas reformas, exigiam o sangue derramado das vítimas: rrrrr… dupla austeridade… rrrrr … IVA igual para todo o País… rrrrr… despedimentos na função pública … rrrrr … fim da Zona Franca … rrrrr … portagens nas vias-rápidas … rrrrr…
            Passadas as eleições, continuam na mesma lenga-lenga: embora afirmando que os Madeirenses, coitados, não têm culpa nenhuma das opções de um governo em que votam sucessivamente há mais de trinta e cinco anos, continuam a exigir saber antecipadamente medidas de austeridade que ainda estão em discussão, como a garantir, o mais cedo possível, o choro encomendado sobre um cadáver. Carpideiras da desgraça, querem desforrar-se, em vingativo trejeito: “Eu não vos avisara? Ora digam que eu não vos avisara!”
            Não há mais nada para dizer?
            Há gente que nunca aprende!

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Mais poderes autonómicos?



                No seu discurso de tomada de posse, presunçosamente longo mas, como se previa, de um absoluto vazio de novidade ou esperança, o presidente do Governo Regional reivindicou mais poderes para a Madeira.
            Quem sabe que a Região vive com extremas dificuldades financeiras e com uma dívida a asfixiar a atual mas sobretudo as futuras gerações perguntará se este caminho nos levará a lugar satisfatório.
            Quem está farto de ouvir gritar pela Autonomia quando se quer manter privilégios legalizados pelo Estatuto Político-Administrativo percebe a pérfida demagogia da invocação. À sombra deste estatuto, acumulam-se vencimentos e reformas, ganham-se pensões vitalícias, compatibilizam-se negócios e crescem riquezas obscenas.
            Todos entendem como a Autonomia servirá para as estruturas regionais dos partidos sorverem ainda mais meios financeiros ao erário público, que não é mais do que o conjunto das verbas que retiram em desmesura dos bolsos dos contribuintes.
            A Autonomia não serviu para impedir que os trabalhadores madeirenses venham a perder cerca de metade do seu Subsídio de Natal deste ano; a Autonomia não anulará a perda da totalidade desse 13º mês e do Subsídio de Férias dos funcionários públicos e reformados madeirenses; a Autonomia não tem salvado (o que é ainda pior) milhares de madeirenses do desemprego e do empobrecimento crescente.
            Se pensarmos que todos os impostos dos madeirenses ficam na Região (a não ser o Imposto Extraordinário sobre o Subsídio de Natal, sem se perceber porquê), verificamos que afinal todos os sacrifícios acumulados estarão ao dispor do Poder regional, que, pelo que se percebeu do discurso do eternizado presidente, se dispõe a realizar políticas semelhantes, sob o escudo autonómico.
            Entre a assistência ao ato de posse, alguns empresários de sucesso, quase todos ocupando cargos em clubes desportivos ou nas cadeiras políticas, davam entrevistas, satisfeitos. Vá lá, sempre há-de servir para alguma coisa, esta Autonomia.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

(In)utilidade da Assembleia


A (in)utilidade da Assembleia

Publicado em 08 Novembro 2011 por Juan Andrade
Tomam posse hoje os deputados eleitos nas eleições regionais de Outubro, com novidades evidentes principalmente na Oposição, já que no partido do Poder a maior curiosidade radica no comportamento do chefe jota, cujos antecedentes, a acreditar nalguma comunicação social, não auguram nada de aceitável. O rapaz olhou para o exemplo máximo do seu partido e, pensando que os delfins estão a envelhecer pelo desgaste, apostou na cópia, esquecendo-se que as coisas não são assim tão simples. É preciso ganhar estatuto, para que os outros aceitem os desvios como fórmula própria de sucesso. Não é excêntrico quem quer, mas quem pode.
Na Oposição, o CDS, pelo crescimento acentuado do seu grupo parlamentar, apresenta muitas caras novas para um trabalho difícil, que é sobreviver a meio da ponte, com ventos cruzados, isto é, tem de convencer os eleitores que nada tem a ver com o governo da República, apesar da grande aproximação entre José Manuel Rodrigues e Paulo Portas.
Apesar de todas as críticas sobre a qualidade da lista, que, como de costume, partiram geralmente do interior, o grupo parlamentar do PS não apresenta grandes novidades, a não ser o deputado machiquense, vindo directamente do poder local, como o anterior, e a candidata proposta pela JS, a qual só poderá ser melhor que o jota laranja, ou será difícil?
O PTP, mais conhecido popularmente como o Partido do Coelho, é uma grande incógnita. Apesar da frescura que a menina Coelho aparenta levar ao parlamento, com um discurso a se demarcar da demagogia, o grupo é heterodoxo e necessita de José Manuel para brilhar e ganhar notoriedade, porque José Luís Rocha é um homem da esquerda tradicional: pouco exuberante, rigoroso e empenhado na luta de classes.
Que dizer da CDU? Nem uma vírgula mudará. É a CDU.
O PND só pode mudar, com a seriedade demonstrada pelo eleito e substituta: vai tornar-se num partido cinzento e tradicional, a léguas do escárnio?
O PAN é a maior novidade, não se aguardando porém muito da mistura entre franciscanismo, budismo e vegetarianismo.
Finalmente, o MPT surge como o partido com o fato mais adequado a esta legislatura, pela escassa utilidade da sua ação. Obviamente irá reivindicar mais Autonomia, num período em que o poder real se afastará da Região.
A política regional tem perdido importância nos últimos anos, sobrevivendo de uma agressividade excessiva e de uma espetacularidade artificiosa (plasmadas na moeda onde Jardim é a cara e Coelho a outra face). As pessoas sabem que, estando a Região sem meios financeiros, cada vez mais a vida dos Madeirenses é decidida em Lisboa e em Berlim.
Que restará a esta Assembleia, para que valha a pena? Que os deputados dignifiquem a Política e respeitem os eleitores; que o Regimento permita aos deputados da Oposição intervir com tempo adequado; que a Assembleia possa cumprir efectivamente a sua função fiscalizadora e que os governantes tenham a humildade para entender o Parlamento como a casa da Democracia. Se isto acontecer (o que não acredito), então as eleições de Outubro terão servido para alguma coisa.
                                                                                   in "Cidade.net"

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Nada a esperar


Depois de alguns especialistas da informação terem andado semanas a engendrar entradas, saídas, avanços e recuos na orgânica do Governo Regional, olham a decisão do presidente do Governo fingindo-se indignados. Mas alguém esperaria uma realidade um pouco diferente? Se aguardavam outra coisa, então nem a experiência se lhes serve para aprenderem. O presidente é o mesmo e a RAM é ramerrame, então nada a esperar.
            Nem deve ser para admirar o facto de um presidente de sindicato de professores aceitar assumir uma secretaria onde a própria Educação é subalternizada. Do ponto de vista do Poder, convém menorizar uma área onde os meios disponíveis serão muito reduzidos e se aguardam impactos terríveis.
            Ninguém escolheu este governo maioritário à espera de mudanças. Servirá isto para perceber também uma das razões por que o CDS teve um crescimento relativamente idêntico ao da descida do PSD nas eleições regionais: o CDS propunha-se governar em coligação, tal como no Continente, se Jardim não fosse indigitado pelo partido maioritário. O CDS jogou bem as peças do seu tabuleiro, ainda que tenha perdido por pouco. O eleitorado ainda não quis esta alternativa, preferindo a estabilidade. Jardim, que percebe o Povo como ninguém, só podia respeitar a vontade deste: pouco mudar.
            As expectativas centrar-se-ão agora no modo de governação sem os habituais recursos financeiros e carência de crédito. Esta será a verdadeira novidade, porque sabemos que as estratégias reivindicativas sobre Lisboa não parecem vir a frutificar, mais pela impossibilidade do que pela vontade de cedência. Se não existisse a vigilância das entidades estrangeiras que procuram assegurar a devolução dos seus empréstimos, não duvido que Passos saltitaria de conversação em conversação até à cedência de meios aos correligionários madeirenses. Assim, tudo se tornará mais difícil… para os bolsos dos Madeirenses.
                                                                                                            in "Cidade.net", de 1/11/11

sábado, 29 de outubro de 2011

A proposta não se transformou em moção

Caros camaradas, caros amigos,
Decidi não avançar com a minha candidatura à liderança do PS-Madeira, ao perceber que ela não teria condições de criar as dinâmicas de que o partido muito necessita no momento presente e nos tempos próximos.
A difícil vitória eleitoral interna teria sido conseguida aglutinando forças contra uma determinada candidatura, o que eu, repetidamente, afirmei que não estava nas minhas intenções.
Sei que um vasto grupo de militantes, em diversos concelhos da Região, considerava as ideias expressas na proposta apresentada com o nome "REINVENTAR O PS-MADEIRA - Pela ética democrática" e a pessoa que a afirmou como uma alternativa às estratégias medíocres e maquiavélicas que têm feito carreira no interior do PS-Madeira.
Sei que muitos militantes anseiam um partido onde dirigentes e militantes comuns trabalhem com o desígnio único  de oferecer aos Madeirenses uma alternativa credível e não assente na demagogia, na falsidade ou nos interesses particularizados.
Sei que os militantes querem um partido com políticas afirmativas, que considere seus adversários o desemprego, o empobrecimento e a injustiça social e não perca energias, recursos e seriedade na crítica a outros partidos, estejam no Poder ou na Oposição. A verdadeira Oposição faz-se atacando os erros do Poder e mostrando outros caminhos.
Sei que os militantes querem investir o tempo disponibilizado para a cidadania e a intervenção pública em tarefas dignificantes, promovendo a qualificação do PS-Madeira e não o seu desprestígio e empobrecimento.
Sei que os militantes preferem um partido organizado com base em critérios bem definidos e não sujeito a facções clientelares, a chantagens de caciques e a decisões de tiranetes.
A todos esses militantes, peço desculpa por não ter conseguido criar condições para reinventar o PS-Madeira e por ter frustrado as expectativas em mim depositadas. Apesar dos muitos apoios sinceros, experimentei, porém, o desencanto de encontrar militantes que não cumpriram a palavra dada e cuja actuação impede claramente o êxito de uma candidatura.
Lamento ter desiludido os que me apoiaram sinceramente e foram corajosos na afirmação da sua escolha, mas asseguro que um dos principais factores da minha desistência agora é que o seu envolvimento não lhes provoque maior desgaste e desencanto superior.
Saio desta disputa eleitoral mais convicto de que o PS-Madeira tem um notável conjunto de militantes disponível para a vida política norteada pela ética democrática. Estou seguro de que o PS-Madeira tem futuro. O meu agradecimento a todos os que me permitem acreditar e a todos os que se solidarizaram com as minhas propostas.
Pelo que afirmei no início, deduz-se facilmente que não apoiarei nenhuma candidatura. Porém, estou disponível para servir o PS naquilo que estiver de acordo com a minha consciência, até que um dia possa ser dispensável.




quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Emprestem-me um megafone

Este é o primeiro texto para o “Cidade” eletrónico, o que me provoca profunda nostalgia. Nunca deixei de ler os meus artigos no jornal impresso, ainda que os tenha revisto variadas vezes em frente de um computador ou mesmo em papel de cópia.
Interessado na vida pública e nos conteúdos publicados, vejo frequentemente, logo pela manhã, os títulos de muitos jornais, pela internet, e chego a ler alguns comentários e artigos interessantes. No entanto, frequentemente releio as mesmas palavras, horas depois, sujando os dedos na tinta impressa. Hábitos velhos…
Ainda nesta segunda-feira um leitor de algumas crónicas lamentava o desaparecimento do “Diário Cidade”. Informei-o das alterações práticas, mas da minha continuidade no novo formato. O homem fez um trejeito, como quem diz: mas não é a mesma coisa.
Ganhei o hábito de dizer o que penso pela forma escrita, desde pequeno, sob diversas formas, desde o diário à crónica, passando pela prosa literária e pela poesia. Tudo continuará a ser aparentemente igual, o que fica distinto é o modo de leitura, aparentemente, insisto.
Aprendi a construir o mundo pelo papel e nele encontrei os mais loucos sonhos, as mais ousadas viagens e os mais terríveis gritos. Nele encontrei as guerras e as doces palavras de amor e paz.
Hoje, mais do que nunca, a palavra torna-se essencial para a reconstrução de um mundo que, fragmentado, se dissolve. Hoje é preciso juntar as vozes em clamor. É necessário cantar, gritar, falar, escrever poemas e palavras de ordem. Se não me permitem um cartão onde inscrever o que sinto, emprestem-me então um megafone!
                                                                                                                                                in "Diário Cidade", de 25/10/11

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Proposta aos militantes do PS-Madeira




REINVENTAR O PS-MADEIRA
- por uma ética democrática






1. A ética democrática contra o maquiavelismo
            O PS-Madeira, tal como a grande maioria das organizações partidárias, vive em permanente clima de maquiavelismo, de jogos que rebaixam os seus militantes, que trocam ideais por manigâncias. O PS-Madeira necessita de recuperar a ética nos comportamentos.
            Temos assistido aos piores exemplos dos artifícios de mesquinha astúcia, desde o se pendurarem dirigentes nos pelourinhos, até se reclamar da sua sanidade mental, para que sejam afastados e se torne o caminho livre para outros; desde a manutenção do poder pretensamente eterno pelo esvaziamento do espaço, até ao mais banal fingimento de que exigimos poder para o nosso concelho ou para a nossa freguesia, desde que esse representante sejamos nós, porque, se for outro, significa falta de respeito pelo “trabalho insano e descomprometido”, com consequentes demissões e outras aldrabices de carácter.
            Vamos reinventar um partido de ideais socialistas. Vamos erguer bem alto o pendão onde se inscrevem os ideais da democracia, da liberdade e da justiça social, em nome do respeito pelo mais alto valor da dignidade humana. Sejamos intransigentes para com as maquiavélicas figuras e respeitemo-nos a nós próprios, porque ainda podemos contar entre nós com muita gente recta, sincera e que perfila uma ética democrática. Olhemos para os militantes anónimos que, a troco de nada, oferecem o seu entusiasmo e crença em cada campanha e em cada actividade. Olhemos para os nossos militantes que, afastados dos salões de poder, oferecem a sua disponibilidade para manter em cada concelho, em cada freguesia, em cada lugar, o fulgor combativo por um mundo melhor.





2 – Democracia, Liberdade, Justiça Social
         A Democracia realiza as possibilidades do ser humano enquanto cidadão e corresponde ao anseio de fraternidade e de igualdade que tem derrubado as organizações sociais que se erguem com base na injustiça e na exclusão.
            A igualdade entendida pelos socialistas não corresponde à submissão do indivíduo à massa anónima e indiferenciada das sociedades totalitárias, mas à constatação de que todo o ser humano deve ser entendido como tal e os seus direitos absolutamente respeitados, independentemente da raça, sexo, credo ou ideário. O homem deve considerar o outro homem como seu igual, independentemente, também, da classe ou grupo social a que pertence ou donde é originário. A sociedade idealizada pelos socialistas deve dar a cada homem igual oportunidade para a realização individual.
            O Partido Socialista aponta o Socialismo Democrático como resposta para os problemas colocados às sociedades, no País e no Mundo. No entanto, entendemos como redundante a expressão Socialismo Democrático, dado que só em Democracia as experiências socialistas fazem sentido. Infelizmente, sob o nome do socialismo cometeram-se algumas das mais cruéis e totalitárias formas de poder que se conheceram depois do século XX.
            Os totalitarismos que usurparam o nome do Socialismo devem ser encarados como adversários políticos de primeiro plano. Conforme diz a Carta de Princípios do Partido Socialista, “defender a Democracia é não hesitar na confrontação democrática com os inimigos da democracia”. Se o Partido Socialista lutar contra os totalitarismos e os populismos inimigos do Estado de Direito, devem os socialistas, de uma vez por todas, marcar um espaço distintivo em relação a todos esses inimigos da Democracia e da Liberdade, ainda que alguns ocupem, por herança jacobina, um espaço à nossa esquerda.


            A Liberdade é um valor absoluto, essencial no combate por uma sociedade mais justa.
            O Partido Socialista empunhou desde logo a bandeira do Socialismo em Liberdade para se afirmar contra todas as formas de totalitarismo. A liberdade de opinião é essencial para que o respeito pelo outro se afirme em autenticidade.
            O Partido Socialista enfraquece sempre que no seu seio surgem tentativas de unanimismo, que tolhe as críticas e impede o diálogo vivo. Aparece então um partido amorfo, com os seus militantes transformados em seguidores de alguns homens instalados no aparelho partidário. A aceitação desta circunstância significará que o Partido Socialista ainda não se libertou totalmente das formas de organização fechada e de centralismo democrático que predominaram no século XX e que afastam muitos dos espíritos mais livres da sociedade.
            A Justiça Social é o objectivo democrático dos homens livres e humanistas. Nenhum homem poderá deixar de se incomodar com a injustiça de que é vítima um seu semelhante. Os socialistas passam do incómodo à acção, no combate por um mundo melhor, ou seja, mais justo, e onde sejam dadas a todos as mesmas oportunidades.
            O Partido socialista defende uma economia de mercado regulada por instituições públicas que sejam capazes de atenuar desigualdades e propiciar protecção àqueles que não conseguem por si mesmos encontrar recursos para viverem dignamente. Não existirá justiça social enquanto houver pobreza.
            O Estado Social só poderá subsistir se os recursos do País forem escrupulosamente geridos e os cidadãos respeitados. A ética democrática deve nortear a gestão dos recursos e o Estado deve ser entendido como uma instituição ao serviço da equidade social.
           


3 – A grave situação nacional
            PS e PSD dividiram quase por igual o tempo de governação nos governos constitucionais pós-25 de Abril, pelo que assumem perante os Portugueses responsabilidades face ao que a III República proporcionou, ainda que se devam fundamentalmente ao PS e ao seu fundador Mário Soares alguns dos passos mais significativos, no que respeita à afirmação da Liberdade, à democratização e ao desenvolvimento do País, sendo de destacar a adesão à União Europeia (Comunidade Económica Europeia, na altura).
            A sociedade portuguesa assistiu a uma profunda transformação política, económica e social. Aproximou-se rapidamente dos restantes países europeus nos domínios da protecção social, da igualdade de géneros, da saúde, da educação, das vias de comunicação, da tecnologia, do consumo, entre outros. No entanto, as desigualdades quanto à repartição do rendimento não diminuíram. Cresceu a exclusão, o desemprego, a marginalidade.
            O Estado Social cresceu exponencialmente, não só para abrigar no seu seio um número cada vez maior dos excluídos do desenvolvimento, mas também pela sua tendência universalista. O risco de falência está associado ao crescimento acentuado dos custos de saúde e de protecção dos excluídos, e sobretudo ao aumento do número de reformados e pensionistas. Apesar das pensões de miséria que a maioria continua a auferir, a verdade é que o número dos cidadãos activos já não é suficiente para garantir, sem o contributo de vultuosos meios do Estado, reformas e pensões às gerações mais idosas e muito menos às que agora se iniciam na vida activa. A reforma da Segurança Social, da responsabilidade do primeiro governo socialista de José Sócrates procura adiar o momento crítico, mas não conseguirá impedi-lo, se não houver um crescimento económico gerador de empregos para os mais jovens.
            A integração europeia permitiu a Portugal contar com meios financeiros avultadíssimos. Assistiram-se, nos anos de governação de Cavaco Silva, a índices de crescimento significativos, mas sem a garantia de um desenvolvimento sustentável. Apostou-se nas grandes obras públicas, essencialmente nas estradas, em troca do abandono da agricultura e das pescas. Criou-se um espírito da subsidio - dependência que se disseminou pelos sectores produtivos, incluindo as unidades industriais. Os recursos do Estado eram aplicados no remanescente necessário para aproveitar os diversos fundos europeus, para cuja arrecadação foram criadas empresas e departamentos governamentais.
            Desde 1990 (segundo governo de Cavaco Silva) até 2010, o País cresceu com a anémica taxa média de 1,8%, enquanto a despesa corrente primária crescia 3,8%. O País deixou de crescer de modo a criar emprego e riqueza, mas a dívida externa aumentava de 38% do PIB em 2000 para 109% do PIB em 2010.
            Os governos socialistas de António Guterres e José Sócrates não são os únicos culpados, mas chegados à situação de premente necessidade de intervenção internacional que permitisse ao Estado assumir as suas responsabilidades perante os financiadores, fornecedores e funcionários, não podem os socialistas continuar a assacar à conjuntura internacional e aos mercados as debilidades dos seus governos.
            Portugal esteve e está realmente à beira da bancarrota, com uma taxa de desemprego jamais vista e assustadora, com dívida pública e dívida externa como não possuía há mais de 120 anos. Os Portugueses entraram coercivamente num empobrecimento acelerado que provocará mais desemprego e mais exclusão.
            Entretanto, os governos socialistas pouco ou nada fizeram para reformar a Administração Pública ou o Estado Social, que continuaram a ser um sorvedouro da riqueza do País.
            O número de trabalhadores da Administração Pública subiu de cerca de 450.000 em 1980 para perto de 700.000 em 2010, à volta de 16% da população activa. Os gastos com o funcionalismo público e com as prestações sociais correspondiam a 80% das receitas fiscais em 1995 e 96% em 2010.
            Associado ao acentuado aumento dos servidores da Administração Pública, poucas vezes associado à melhoria dos serviços ou à sua eficácia, surge o Estado como instrumento da partidocracia, isto é, de um conjunto de dirigentes e clientelas dos partidos do Poder, em trânsito permanente do parlamento ou dos gabinetes governamentais para empresas públicas, onde usufruem de benefícios escandalosos, se comparados com as dificuldades da generalidade dos cidadãos.
            O Partido Socialista no governo, para além de manter despesismos e mordomias nada condizentes com um País que se endividava à velocidade de 1,8 milhões por hora, pouco contribuiu para acabar com a promiscuidade entre o poder político e os interesses económicos e não agiu eficazmente no combate à corrupção e ao enriquecimento ilícito.
            O aumento dos apoios sociais, para além de fazerem perigar a Segurança Social e eliminá-la do horizonte dos jovens, demonstrou que a governação criou mais dependentes. Os últimos actos do Governo de José Sócrates, com os cortes no abono de família e noutros apoios, mostraram claramente os excessos e os erros.
            Perante a cruel realidade de hoje, o Partido Socialista deveria ter assumido, perante os Portugueses, as suas falhas. Não o fazer implica correr o risco do discurso demagógico, inconsistente e descredibilizado.
            Os Portugueses empobrecem, mas, pior do que isso, as gerações mais novas olham para a sua pátria vazia de oportunidades. Não há trabalho; não há segurança. As gerações anteriores secaram-lhes a esperança; endividaram-nos; criaram um Estado Social que sugaram e destruíram.
            A própria democracia representativa corre riscos se o Partido Socialista não renovar o espírito com que combateu pela Justiça Social em Abril de 1974. Desse tempo, aos jovens só chegam os ecos da Liberdade e as formas cinzentas de um horizonte desesperançado.




4. – A situação política na Madeira
         A difícil situação económico-financeira a que a Madeira chegou, para além de reflectir as dificuldades por que passa todo o País, resulta do processo político a que o PSD designou por “Autonomia progressiva”.
            O Partido Socialista, pela sua natureza democrática, defendeu, desde a primeira hora, a Autonomia para os arquipélagos ilhéus. Tratava-se de uma aspiração de séculos e aproximava o Poder dos cidadãos, procurando prover aos anseios e problemas específicos.
            Com a sua primeira vitória eleitoral, em 1976, o PSD/Madeira, suportado nos primeiros anos principalmente pelos adversários da Democracia e da Liberdade que a revolução de Abril prometeu, transformou a palavra Autonomia em bandeira própria, que empunhou numa constante indefinição em relação aos seus fins, tal como dela se serviu para impor um poder tentacular e totalitário.
            Nunca o PSD/Madeira se preocupou em esbater as fronteiras entre “autonomia” e “independência”, diluídas através da expressão “autonomia total”, que foi repetidamente utilizada como arma de conquista de mais poder político e económico para uma clientela crescente.
            A regionalização dos serviços públicos permitiu que o PSD/Madeira pudesse compensar os seus seguidores com bons empregos e melhores negócios. O partido tomou conta de todo o aparelho de Estado regionalizado e condenou os adversários políticos ao ostracismo. Desde o início do “processo autonómico” que Estado e Partido se confundiram, numa promíscua relação de pessoas e interesses.
            Perante uma sociedade pobre, abandonada e condenada a relações feudais, o PSD/Madeira encontrou um terreno fértil para o seu crescimento. Os meios financeiros disponíveis pelo aparelho de Estado regional, a sua autêntica “frente” de combate político, o PSD/Madeira levou caminhos, estradas, água, luz, escolas, saúde e emprego a milhares de madeirenses que viviam arredados de qualquer forma de progresso ou riqueza material. Na retaguarda, alguns empresários do Estado Novo descansavam do abalo revolucionário e outros grupos económicos se impunham e solidificavam.
            O PS/Madeira juntou os idealistas da Democracia e da Liberdade a alguns jovens provindos da pequena elite rural que se formara politicamente nas lutas estudantis, travadas na Universidade contra o Estado Novo, e ainda alguns funcionários públicos que se destacavam nos diversos concelhos.
            O PSD/Madeira fortaleceu-se com a adesão inicial dos antigos regedores e com o apoio explícito dos mais altos ministros da Igreja, como o Bispo do Funchal, que encontrou em Alberto João Jardim um aliado para a manutenção do poder secular da Igreja Católica. Os antigos regedores e os padres conheciam as populações das freguesias, sabendo das suas dificuldades e condições. Facilitada a aproximação entre o PSD/Madeira e o povo, encontrados os apoiantes adequados à estratégia de disseminação do poder, restava-lhe encontrar uma bandeira e um inimigo que promovesse uma simbiose entre Partido e Região, de modo a que nos dias de hoje o eternizado presidente do Governo Regional possa dizer que o seu partido é a Madeira, num cume demagógico que já não espanta ninguém. A bandeira passou a ser a Autonomia e o inimigo a República Portuguesa e quem a apoiasse.
            O PS/Madeira, dividido inicialmente entre um posicionamento mais próximo das correntes marxistas, com consequentes discursos anti-clericais, e uma postura elitista resultante da inserção social de alguns dos seus dirigentes, foi vítima inicial de um racionalismo pretensamente “iluminado” e, depois, do afastamento de alguns militantes que se aproximaram da área do Poder que alargava os seus tentáculos.
            O poder do PSD/Madeira cresceu com a sua dinâmica totalitária, suportada pela existência de cerca de 30% de funcionários públicos entre a população activa (quase o dobro da média nacional), por uma economia dependente das políticas “keynesianas” da governação e por uma submissão alargada ao pensamento difundido pelos órgãos oficiais, ao serviço de um pensamento único e à exclusão dos seus adversários.
            Toda a estrutura do poder político assemelha-se ao de um regime comunista, “de colarinho branco”, com a idolatria de um presidente, uma economia dependente do Estado e seus burocratas, um partido único (a desqualificação de todos os adversários políticos pretende inequivocamente manter o PSD/Madeira como único partido aceitável) e uma comunicação social de pensamento único, ainda que se permitam alguns arremedos de oposição, para dar aparência democrática à situação. Também como nos regimes comunistas, vulgariza-se o discurso anti-burguês. Mas enquanto se oferecem condições de subsistência aos populares, a elite partidária usufrui de condições ímpares em relação ao cidadão comum.
            Sob a bandeira da Autonomia, este poder manteve-se absoluto até hoje, ainda que tenham decorrido trinta e cinco anos. Pela desqualificação dos adversários políticos, pela desconsideração das ideias opostas, pelo desrespeito para com os princípios do Estado de Direito, coagindo pelo medo, infringindo as regras democráticas, alimentando a clientela, o PSD/Madeira prossegue, após todos estes anos, o objectivo inicial de preservação do Poder.
            A estratégia utilizada pelo PSD/Madeira de ameaçar independências impediu amedrontados órgãos da República de agir quando as liberdades, a democracia e o Estado de Direito foram verdadeiramente ameaçados e desrespeitados. Os governos da República cederam permanentemente à chantagem do PSD/Madeira, que geriu os recursos públicos sem olhar a meios nem calcular consequências, como se lhe fosse permitido eternamente atirar para terceiros o pagamento de uma dívida e de um despesismo clientelar, demagógico e eleitoralista.
            Atirar para as gerações futuras o pagamento sacrificial das obras feitas e suas alcavalas significa governar para uma única geração, aquela que, para além do usufruto das benfeitorias, delas beneficia em empregos, lucros e poder.
            A dialéctica da “Autonomia progressiva” só atinge o seu limite numa circunstância em que o próprio País está numa situação tão difícil, nos planos económico e social, como está a Região Autónoma da Madeira. Num beco sem saída, a Autonomia corre verdadeiro perigo de regressão. Sem meios financeiros disponíveis para garantir o serviço da dívida, o pagamento dos funcionários públicos, algum investimento e a alimentação das clientelas, a governação do PSD/Madeira vê-se sujeita aos ditames de quem lhe poderia garantir subsistência, mas também não possui meios.
            O PS-Madeira precisa de se preparar para assumir a alternativa, que não deve tardar, ainda que habituais mensageiros do Poder se apressem a anunciar que só o PSD pode suceder ao PSD, à boa maneira dos partidos únicos de raiz totalitária. Usando a imagem conhecida, os eucaliptos ainda não secaram todos os arbustos, apesar de tudo.
           

           


           

           








5. PS-Madeira como alternativa  
            O PS-Madeira tem visto diminuir os seus resultados eleitorais nas últimas eleições, não só pela sua ligação à impopularidade do governo de José Sócrates, mas também por uma sequência de erros, bem patentes aquando do desastre eleitoral nas últimas eleições regionais, os quais foram alvo de análise em diversos meios de comunicação social e nos órgãos internos do partido. Importa agora perspectivar o futuro.
            Como partido da alternância democrática, o PS-Madeira precisa de apresentar-se aos cidadãos com políticas próprias. Ainda que deva respeitar os restantes partidos políticos e suas propostas, deve assumir um caminho distinto. Num momento em que na Assembleia Legislativa da Madeira estarão presentes oito forças partidárias, torna-se mais perigoso do que nunca o envolvimento em tomadas de posição conjuntas que coloquem em causa a credibilidade do PS-Madeira.
            O PS-Madeira deve preocupar-se com os problemas específicos dos cidadãos, sem que isso se confunda com actos demagógicos ou alinhamento em acções de protesto anti-institucionais. Respeitar as populações, viver com elas, perceber-lhes as tradições, a sua cultura, a sua religiosidade, os seus anseios e as suas mágoas torna-se fundamental para reinventar o PS-Madeira.
            O PS-Madeira deve autonomizar-se, de facto, em relação às estruturas nacionais. Até agora, as direcções nacionais eleitas sempre utilizaram a questão política da Madeira para ganharem promoção e simpatia entre os eleitores do território continental. Quando atingem a governação, passam a lidar com o poder político regional como se as denúncias antes proferidas não fossem mais que nomes num cardápio eleitoral. Misturando Madeira e madeirenses, entra-se no jogo preparado pelo PSD/Madeira e injecta-se mais confronto e odioso sobre o PS-Madeira. Ainda que esta situação seja recorrente e alvo de críticas continuadas entre os socialistas madeirenses, pouco ou nada se alterou nos últimos anos.
            O PS-Madeira deve entender que os seus adversários não se encontram no espectro partidário, mas nos problemas das pessoas. Os grandes inimigos do PS-Madeira são, neste momento, o desemprego, o empobrecimento dos cidadãos e a injustiça social. Em qualquer circunstância, no parlamento, num comício ou em simples discursos, o PSD/Madeira deixará de ser o grande adversário do PS. A partir de agora, os nossos inimigos serão comuns aos dos cidadãos vítimas do desemprego, da pobreza e da injustiça social. Só assim cumpriremos o ideal socialista.
            Neste momento de profunda crise, o grande desafio político é evitar o crescimento do desemprego, que atinge cidadãos de várias faixas etárias, mas essencialmente os jovens. O PS-Madeira entende, por isso, que apesar do peso do funcionalismo público no Orçamento Regional, qualquer governo regional deve defender o emprego dos funcionários, como medida inquestionável, não só pelo valor social mas pelo que representa numa economia periférica, frágil e muito dependente do comércio. A diminuição dos funcionários públicos deverá efectivar-se pela proibição de admissões e pela normal aposentação pelo limite de idade.
            Num segundo momento, a dinamização da economia deve privilegiar a integração de jovens no mercado de trabalho. A Região deverá promover programas específicos de apoio à micro e pequenas empresas que criem postos de trabalho para os jovens.
            O sector exportador por excelência, na Região, é o Turismo. Apesar da necessidade de reforço dos meios disponíveis para a promoção, de que os empresários terão de assumir um maior esforço, a qualidade do destino é o factor fundamental para a captação de turistas. Por isso, a gestão do território, do litoral, do ambiente e dos transportes é essencial.
            A aposta nas obras públicas dos governos do PSD/Madeira desfigurou a face da ilha e prejudicou o seu principal sector económico, do mesmo modo que a generalidade das câmaras municipais confundiu progresso com construção e urbanizou vilas, freguesias e lugares, uniformizando o espaço ao mesmo tempo que perdia valor distintivo.
            Uma exigência de qualidade na arquitectura urbana e na arquitectura paisagística deve prevalecer em território restrito e propenso ao Turismo, pelo que a própria Universidade da Madeira deverá ser um parceiro para a melhoria da qualidade do território.
            O mar, para além de permitir o incremento notório das pescas, da investigação projectada para a medicina e para a alimentação e o desenvolvimento de variadas actividades desportivas, possibilita ainda novas actividades turísticas.
            Do mesmo modo que as pescas devem ser dinamizadas, a agricultura necessita de ser apoiada, de modo a que os cultores da terra beneficiem de rendimentos justificativos da importante função de jardineiros do território. O seu trabalho duro deveria ser compensado com a atribuição de um valor resultante de uma pequena taxa sobre os lucros de todas as empresas do sector turístico.
            Libertar as casas do povo, as associações culturais e as juntas de freguesia do papel político de fazedores de uma cultura indiferenciada, folclórica e medíocre permitirá o florescimento de associações e artistas que dinamizarão espaços rurais e urbanos, enriquecendo a qualidade de vida de uma terra que, para além dos tristes espectáculos políticos que tem oferecido, é conhecida pela poncha e outros álcoois, quando gerou no seu seio alguns dos mais notáveis autores portugueses do século XX.
            Sendo o Turismo a alavanca para renovar a economia da Madeira e do Porto Santo, a economia de mercado terá de ocupar as funções que o Estado regionalizado subjugou. Para que essa economia floresça, deverão ser criadas condições para que a banca forneça crédito às pequenas e médias empresas geradoras de emprego.
            O Centro Internacional de Negócios da Madeira (CINM) é um pólo de desenvolvimento essencial para a economia da Região. Ainda no Estado Novo, os Madeirenses sonharam uma Zona Franca para a dinamização da sua economia, percebendo que o arquipélago não poderia fundamentar o seu desenvolvimento na indústria.
            O PS-Madeira tem de defender o CINM enquanto zonas francas semelhantes subsistirem no Mundo. Ninguém perceberia que os Madeirenses abrissem mão de uma actividade para beneficiar territórios concorrentes. Igualmente não é entendível que sejam exigidos critérios restritos às empresas que se pretendam instalar na Madeira, quando outras praças as aceitam sem as mesmas exigências.
            Apesar de ser preferível que as empresas criem mais postos de trabalho, a realidade é que o CINM criou quase 3.000 postos de trabalho por via directa e indirecta. Do mesmo modo, mais de 21% da receita de IVA arrecadada pela Região provém do CINM.
            Algumas críticas de que o IVA proveniente do CINM provocou um decréscimo de fundos europeus, pela consequente saída da Madeira do objectivo 1, que nos garantia mais ajudas, seguem caminhos pouco racionais. O crescimento do PIB regional é inegável, enquanto a perda de fundos comunitários pode dever-se a má negociação, ou apenas às regras do jogo do desenvolvimento.
            Assim sendo, o PS-Madeira só pode defender os empregos criados pelo CINM e precaver a continuidade dos impostos que podem ajudar a alavancar a economia.
            A justiça social implica igualdade de oportunidade para todos os cidadãos, pelo que a Democracia e a Liberdade são fundamentais. O PS-Madeira deverá bater-se intransigentemente pelo respeito pelo Estado de Direito na Região, tal como defenderá a liberdade de expressão e crítica e a imprensa livre de tutelas partidárias e estatais.
            A justiça social depende de uma educação de qualidade, onde a exigência promove a aprendizagem real para todos e não uma mistificação de igualitarismo pela disseminação de diplomas desqualificados.
            A justiça social exige igualdade de tratamento para todos, sem a necessidade de submissão a ditames partidários.
            A justiça social implica uma criteriosa utilização dos recursos financeiros públicos, que resultam do esforço e dos impostos dos cidadãos. Assim, o PS-Madeira deve lutar eficazmente contra o nepotismo e o clientelismo, tal como contra a corrupção e o enriquecimento ilícito.
            A justiça social resultará do respeito dos políticos pelos cidadãos em geral, pelo que o PS-Madeira deve combater a promiscuidade entre o poder político e os interesses económicos; lutar pela incompatibilidade entre deputados e outros detentores de cargos públicos e o exercício de actividade empresarial; pugnar pelo fim da acumulação de reformas ou pensões com o vencimento de cargos públicos; lutar contra reformas de favor para os políticos, que devem reformar-se com a mesma idade e com os mesmos critérios dos restantes cidadãos e sem possibilidade de acumulação de reformas; combater as mordomias e o esbanjamento público.
           
           
           











           

6. – Organização do PS-Madeira
            Os dirigentes do PS-Madeira devem gerir escrupulosamente os meios à disposição e respeitar os militantes, o maior valor da organização.
            Para além dos órgãos estabelecidos pelos Estatutos, será criado o Conselho Consultivo, que será composto por todos os presidentes de concelhia, que reunirão semanalmente com o Presidente, podendo ser convidados membros do Secretariado para essas reuniões.
            Será criado também o Gabinete de Estudos, a ser empossado no segundo mês de mandato da Direcção.
            Organizar-se-á o Curso das Ideias Políticas, com formadores qualificados.
            Retomar-se-á a Universidade de Verão, especialmente dedicada aos mais jovens.
            Será criado o Gabinete Autárquico, para formação, estudo e resolução de problemas dos autarcas socialistas e de todos os que se interessam por assuntos do Poder Local.
            O respeito pelos militantes implica o esbatimento da dicotomia entre políticos profissionais e amadores, entre os remunerados e os voluntários, com o envolvimento dos primeiros nas tarefas organizativas e no apoio à afirmação políticas dos segundos. O corpo do PS-Madeira não pode ser dividido entre cabeça e braços.
            A Direcção fará um apelo aos deputados eleitos para acompanharem os trabalhos políticos nas diversas concelhias, promovendo a notoriedade dos líderes locais e estará disponível para actividades junto dos cidadãos e instituições.
            O PS-Madeira realizará primárias abertas a simpatizantes, para a escolha dos seus candidatos à Presidência do Governo Regional, a candidatos à Assembleia da República e à Assembleia Regional. Do mesmo modo, os candidatos à presidência das câmaras resultarão de primárias envolvendo cidadãos dos concelhos específicos.
            Os recursos financeiros do PS-Madeira, que serão tendencialmente reduzidos, devem ser disponibilizados essencialmente para actividades de natureza política. Assim, um terço do valor disponível mensalmente será atribuído às concelhias, outro terço será destinado às campanhas eleitorais e o último terço servirá para as despesas correntes não concelhias.
            As verbas a atribuir às concelhias não dependerão de negociações políticas ou pessoais, mas submeter-se-ão a critérios bem definidos: número de militantes, número de eleitores e número de votantes nas últimas eleições autárquicas.
            Serão criadas condições para a afirmação do Departamento das Mulheres Socialistas, promovendo-se o debate e evitando-se conflitos paralisadores.
            Ainda que não seja posta em causa a autonomia da Juventude Socialista, esta organização juvenil será estimulada para uma acção mais eficaz e política junto da juventude madeirense e porto-santense. Os meios financeiros ao seu dispor dependerão sempre da qualidade das suas actividades.




Funchal, 17 de Outubro de 2011
Agostinho José de Freitas Soares, militante nº 35326