VERMES
Não, senhor bispo, o ser humano nunca pode ser comparado a um verme.
Bem sei que a expressão deve ser inserida no contexto próprio, pelo que passo a citar o período em que ouvi o recurso estilístico que utilizou para se referir à maldade humana:
"Sabemos como a humanidade progride, diariamente, para novos patamares da técnica - e que bom progredirmos em conquistas técnicas e científicas! Mas sabemos, igualmente, como em termos morais, em opções éticas que sempre é necessário realizar, continuamos a marcar passo, Somos mais semelhantes a pequenos vermos que a gigantes".
O bispo da Diocese do Funchal fez esta afirmação no passado dia 8 na Homilia da Solenidade da Imaculada Conceição e, para acentuar a santidade de Maria sem mácula, não necessitava de humilhar os fiéis que, sendo humanos, estão sujeitos ao "pecado" do amor dos seus pais e que, por isso nunca deveriam sentir vergonha, apesar de todo o enredo teológico com que teceu a sua mensagem.
Quis o bispo assinalar a crueldade da guerra na Terra Santa mas, sobretudo acentuar a pobreza que nos é próxima, numa comparação desequilibrada nos termos, e partiu daí para demonstrar que "o ser humano facilmente semeia dor e destruição".
Na sua homilia, nenhuma palavra para enaltecer o ser humano, que o Cristianismo entende ser criado à imagem do próprio Deus. Para falar deste Homem, que criou religiões, igrejas e catedrais apontando para o alto, que se civilizou, distinguindo-se dos bichos da Terra, poder-se-ia apontar erros que se identificam com o Mal, mas este só é reconhecido porque existe consciência do Bem e só o ser humano a possui, o que não é possível nos outros seres. Esta grandeza humana não foi comparada à de um qualquer ser vivo, à de uma flor, à de uma ave, à de um cão ou de um gato, mas à de um bicho rastejante e que vive na e da porcaria e excrementos.
Sim, um dia o nosso corpo cairá ao subsolo, mantendo-se a inumação, e será alimento de vermes, mas aí já não somos. Enquanto humanos, não merecemos a comparação que apenas menoriza, apouca e humilha.
Querendo falar da mãe de Jesus, porque não se situar na Pietà de Michelangelo? Porque o seu criador é um homem ou por quem a vê poder lembrar-se não de Maria, mas do olhar da sua própria mãe, desse amor tão humano e tão perfeito a que mãe e menino se entregam, como se nada mais existisse além desse sentimento que não precisa de maiúscula para ser magnífico.
