A voz dos
poetas comove-nos profundamente, mas, quando a palavra nos surge da pena de
José Tolentino Mendonça, ela possui o condão de nos interrogar como um espelho.
Em prosa
recente, Tolentino Mendonça alerta para o facto de vivermos “submersos num
mundo de palavras manipuladas, esvaziadas de verdadeiro sentido,
desresponsabilizadas”. Acertou-me na vontade de mais silêncio, face à gritaria
reinante. Não me refiro apenas às massas ululantes mas também às vozes pretensamente
autónomas, a repetirem refrões, frases feitas e epítetos.
Muitas vezes
falar menos significa dizer mais ou melhor. Confunde-se amiúde cidadania com
discursos irresponsáveis ou com ofensas que desonram sobretudo quem as profere.
Os órgãos de comunicação social, afirmando promover a participação, promovem o
desrespeito, a malcriação e o linchamento público. Na política, antiquíssima
arte nobre, substitui-se o serviço do bem colectivo pelo enganador artifício
discursivo. As pessoas precisam de verdadeira comunicação, por vezes num
silêncio que ajuda a pensar.
Como diz o
grande poeta madeirense no seu texto intitulado “Por uma nova comunicação”,
“precisamos de contrariar este movimento de demissão, reencontrando uma arte de
pensar, recuperando uma atenção mais crítica em relação ao que nos é servido a
toda a hora; construindo espaços de distanciamento favoráveis ao silêncio e à
reflexão”.
O poeta
encontrou-me nesta hora onde necessito sobretudo de ouvir o mar e a voz
interior que me pede silêncio.
in "Diário Cidade" de 2/10/12