terça-feira, 2 de outubro de 2012

Outras vozes




            A voz dos poetas comove-nos profundamente, mas, quando a palavra nos surge da pena de José Tolentino Mendonça, ela possui o condão de nos interrogar como um espelho.
            Em prosa recente, Tolentino Mendonça alerta para o facto de vivermos “submersos num mundo de palavras manipuladas, esvaziadas de verdadeiro sentido, desresponsabilizadas”. Acertou-me na vontade de mais silêncio, face à gritaria reinante. Não me refiro apenas às massas ululantes mas também às vozes pretensamente autónomas, a repetirem refrões, frases feitas e epítetos.
            Muitas vezes falar menos significa dizer mais ou melhor. Confunde-se amiúde cidadania com discursos irresponsáveis ou com ofensas que desonram sobretudo quem as profere. Os órgãos de comunicação social, afirmando promover a participação, promovem o desrespeito, a malcriação e o linchamento público. Na política, antiquíssima arte nobre, substitui-se o serviço do bem colectivo pelo enganador artifício discursivo. As pessoas precisam de verdadeira comunicação, por vezes num silêncio que ajuda a pensar.
            Como diz o grande poeta madeirense no seu texto intitulado “Por uma nova comunicação”, “precisamos de contrariar este movimento de demissão, reencontrando uma arte de pensar, recuperando uma atenção mais crítica em relação ao que nos é servido a toda a hora; construindo espaços de distanciamento favoráveis ao silêncio e à reflexão”.
            O poeta encontrou-me nesta hora onde necessito sobretudo de ouvir o mar e a voz interior que me pede silêncio.
                                        in "Diário Cidade" de 2/10/12