terça-feira, 27 de março de 2012

O mundo das hipérboles



                  Os jornais costumam projetar-se com títulos chocantes, cuja procura diária justificará uma boa jorna aos colaboradores capazes da permanente e engenhosa criação.
            Alguns periódicos especializaram-se em atrair a atenção dos seus leitores através de notícias que reflitam crimes e violência, outros procuram ser chamativos com escândalos comportamentais que envolvam figuras públicas, sejam do mundo do espetáculo, do desporto ou da política. Se esses escândalos tiverem uma pontinha de natureza sexual, garantem indubitavelmente o êxito do noticiário.
            Jornais e canais televisivos eticamente mais comedidos em relação aos títulos impactantes têm encontrado na crise económica do nosso país e da nossa região os motivos preferidos para os títulos chocantes: pobreza, miséria e desgraça, se preferível com narrativas, imagens e rostos exemplares, duma realidade tão próxima que emocione os espíritos que geralmente se exaltam com os dramas vizinhos.
            Se esta estratégia publicitária faz sentido em empresas cujo lucro só é possível com o aumento do número de leitores ou espetadores, não nos parece ser adequada ao discurso de políticos, já que a adjetivação hiperbólica ou a comparação excessiva podem afastar-se tanto da realidade que descredibilizam os utilizadores.
            Expressões como “Jardim transforma a Madeira na casa dos horrores”, “ as finanças da Madeira é (sic) uma bomba relógio e as empresas públicas são o rastilho”, “o Governo Regional mostra uma incapacidade monstruosa de nada fazer”,  “ a Saúde da Madeira é um calhambeque com o motor gripado” ou “fazer da liderança governativa uma actividade de tasqueiro que esbraceja por tudo e por nada” foram tão coloridas a vermelho e negro que agora o líder de um grupo parlamentar só pode satisfazer o seu gosto em criar figuras de estilo e alimentar os títulos noticiosos com excessos de tal monta que chocam pelo grotesco, como comparar orçamentos a cenas de sexualidade ou comparar as sanções da Madeira à da Síria.
            Com esta linguagem impressionista e com estes recursos estilísticos, o líder do grupo parlamentar arrisca-se a levar o seu partido para uma dimensão fantasiosa, nada condizente com os tempos que correm.
                                                          in "Diário Cidade" de 27/3/2012

terça-feira, 20 de março de 2012

A perda da representatividade




            “Compete aos partidos oferecerem ao eleitorado os seus melhores nomes, isto é, os seus mais valiosos correligionários, tornando-se garantes da sua idoneidade para a função legislativa. Se os eleitores não aceitassem como boa a escolha que os partidos fazem dos seus candidatos, correr-se-ia o risco duma tal dispersão de votos, que poderia chegar-se ao extremo disparate de ser um indivíduo… eleito por si mesmo, isto é, com o seu voto. (…) O demónio é não se poder exigir dos candidatos à representação nacional, deputados e senadores, que documentem a sua idoneidade para o exercício da função que se propõem desempenhar, sendo certo que essa exigência se faz para os mais humildes servidores do Estado.”
                                                                                                 Brito Camacho, “Os sem política”, in Matéria Vaga              

                Na semana em que se discutiu na Assembleia Legislativa da Madeira o Orçamento Regional para 2012, comentou-se profusamente a afirmação de Pacheco Pereira de que “a cama está posta para um novo Sidónio Pais”, referindo-se naturalmente ao messiânico anseio popular do surgimento de alguém que se imponha à mediocridade partidária, ainda que através da ditadura. Já José Brandão escreveu um livro sobre esse messiânico herói popular com o título Sidónio Pais – Ele Tornará Feito Qualquer Outro.
                Quem observasse o espetáculo degradante da discussão deste terrível orçamento num espaço que deveria ser respeitado por gente que se desse ao respeito e visse, assustado, que alguns jovens estudantes estavam a observar a vergonhosa atuação dos deputados, não duvidaria do recrudescimento do mito sidonista.
                Ao longo de todos estes anos de parlamento regional, habituei-me a vê-lo como um espaço de mau exemplo democrático, mas principalmente de deputados de duvidosa qualidade intelectual e com comportamentos deploráveis, um espaço a nunca levar crianças ou jovens em aprendizagem. Habituei-me a ver um indecoroso comportamento dos deputados da maioria, desprezando regras da democracia e do respeito humano.
            Ao longo destes anos, vi mentiras, enganos, demagogia e desprezo pelos outros. Nunca, porém, como agora, vi tanta pobreza humana, intelectual e democrática, de ponta a ponta, com raras excepções. Vi desrespeito pelos cidadãos que elegeram deputados para fazerem discursos inúteis, ocos e vazios, coloridos por linguagem de cocheiro, ainda que de saias. Vi deputados rindo, gozando, brincando, cruzando vozes, vociferando, gritando, telefonando, escrevendo enquanto ouviam discursos que comentavam ao instante e, cúmulo dos cúmulos, invocando situações anedóticas de sexo oral como putativo argumento.
            Mais baixo que isto deve ser difícil. Por isso, para evitar que os partidos corram o risco de nada nem ninguém representarem, vendo surgir, em seu lugar, Sidónio Pais feito qualquer outro, proponho que esta gente não receba o vencimento a que julga ter direito pelo trabalho da última semana. 
                                                                in "Diário Cidade", de 20/3/2012

terça-feira, 13 de março de 2012

A escolha das concessivas


         O treinador adjunto do Nacional afirmou, no final do jogo em que empatou, este domingo, com o Olhanense, que  marcar quatro golos e não ganhar não é agradável.
            Bem poderia o técnico nacionalista ter escolhido a afirmação de que embora o Nacional tenha sofrido quatro golos, não perder é agradável. A realidade não mudou, a perspetiva sim. Sobre esta, gozando como as lagartixas este eterno verão, pensei em como, ainda que a crise nos esvazie os bolsos em progressivo assalto, os madeirenses se podem dar ao luxo gratuito de sentir durante tantos meses as carícias solares, mergulhando nas águas do mar ou simplesmente ouvindo este espraiar-se calhau dentro em sua natural cadência. Porém recordei a irritação de um amigo quando um indivíduo da situação o aconselhou a não valorizar as questões políticas regionais e a gozar o sol, o mar, as montanhas e tudo o que esta terra possui de bom. Para o meu amigo da oposição, apesar da qualidade de vida que esta ilha oferece, tudo poderia ser ainda mais agradável se os madeirenses vivessem numa democracia melhor e com mais justiça social.
            Então coloquei a concessiva do outro lado: ainda que os madeirenses se possam dar ao luxo gratuito de sentir durante tantos meses as carícias solares, mergulhando nas águas do mar ou simplesmente ouvindo este espraiar-se calhau dentro em sua natural cadência, a crise que nos esvazia os bolsos em progressivo assalto preocupa-nos e revolta-nos, porque percebemos que os responsáveis pela desgraça social que se avizinha sairão impunes e quiçá premiados.
            Fiz como o treinador adjunto do Nacional e mudei a perspetiva, enquanto gozava o sol como as lagartixas.
                                                        in "Diário Cidade" de 13/3/2012

terça-feira, 6 de março de 2012

Independentes ou flores de lapela?


                Os últimos dias têm proporcionado bastos motivos de estranheza a quem segue a vida política regional e está atento às atividades partidárias.
            O PS-Madeira, na peugada do que realiza o Partido Socialista a nível nacional, criou o seu Laboratório de Ideias, para o qual convidou entidades e cidadãos diversos, entre os quais incluiu não-militantes, como candidatos recentes à Assembleia Legislativa da Madeira pelo PS, mas também quem chegou a ser eleito por outros partidos e quem veio da área do poder ou do descomprometimento partidário.
            Esta iniciativa pouco tem de inovadora, pois surge como um sucedâneo dos “Estados Gerais” de António Guterres, e das “Novas Fronteiras” de José Sócrates, e até do movimento “Mais Sociedade” do PSD. Estes encontros muito abertos aos independentes são geralmente promovidos quando os partidos se encontram na oposição e, ainda que se possa encontrarem-se virtualidades numa proclamada abertura à sociedade, valha a verdade que nas circunstâncias conhecidas em que os partidos assumiram o poder, os independentes cooptados para a governação tiveram muitas dificuldades de sobrevivência face aos aparelhos partidários.
            Se uma permanente busca de aperfeiçoamento pode levar-nos à ilusão de que desta vez tudo poderá ser melhor na relação entre os independentes e os socialistas locais, a atitude de alguns dos seus responsáveis transmite-nos elevada dose de ceticismo.
            Para além de a “abertura à sociedade” refletir o reconhecimento da distância entre alguns interesses individuais ou de grupo que os partidos defendem e os interesses gerais “da sociedade”, alguns socialistas vêm demonstrando um paradoxal temor face ao surgimento de movimentos de cidadania criados recentemente e em relação a algumas vozes a quebrar consensos que não são próprios de partidos que se querem abrir à “sociedade”.
            A renúncia à participação no Laboratório de Ideias por parte de dois cidadãos que não são considerados próximos do PS levou ao queixume crítico e mesmo a interrogações retóricas aos ausentes, acerca do medo e da sua coluna vertebral.
            Do episódio, percebi que os responsáveis pelo Laboratório de Ideias foram a correr a um jornal dar a informação de que tinham dois colaboradores da área do PSD, sem antes pedir licença para que os nomes dos convidados fossem publicamente conhecidos. Estes convidados sentiram que estavam a ser utilizados como flor na lapela ou, pior ainda, como arma de arremesso política. Sentiram-se usados.
            Entre a desconfiança em relação aos movimentos de cidadãos e a velocidade com que se colocam os troféus nas parangonas dos jornais existe uma linha comum de desrespeito pelos outros, como se pode ver pela reação de um dos responsáveis pelo Laboratório de Ideias, ao perguntar, com lamentável azedume, se o próximo peditório da Cáritas seria à porta fechada. Uma afirmação que deveria levar a um pedido de desculpas por parte do presidente do PS e da Coordenadora do Gabinete de Ideias.
                                                                  in Diário Cidade de 6 de Março 2012