terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Festas e dívidas



                Os Madeirenses vivem a Festa num contínuo entre o Natal e o Ano Novo, com os limites alongados até aos dias das missas do Parto e até ao Santo Amaro.
             A revéspera de Festa, com a tradicional ida ao mercado do Funchal, para a compra das frutas e legumes mais frescos e dos brinquedos em falta para o sapatinho transformou-se em mais uma passagem do calendário festivo, a ganhar cada vez mais popularidade.
            Ainda que não defenda a manutenção invariável das tradições para benefício do postal etnográfico, não aprecio que as festividades funchalenses da revéspera de Festa tenham evoluído para mais uma feira da poncha e da cerveja, tal como lamento a falta de engenho de algumas autarquias da ilha, as quais procuram fazer uma cópia (limitada) da “noite do Mercado”. Trata-se, na realidade, de atividades promovidas e /ou patrocinadas por entidades públicas, regionais ou municipais, sujeitas aos objetivos delineados nos gabinetes.
            A “noite do Mercado”alargou-se para mais ruas do litoral oeste do Funchal, permitindo mais espaço para um número crescente de pessoas em busca de folia. Este ano, mais do que nunca, e aproveitando uma temperatura de início de Outono, a população quis festejar, “enquanto se puder”, ou “para esquecer a crise”. O povo sabe o que o espera no próximo ano e o seu comportamento pode ser entendido como um grito coletivo contra a subjugação e a tristeza.
            Ao longo dos séculos, a maioria dos madeirenses passou por enormes dificuldades, não deixando de participar alegremente nos seus arraiais e festas, porque sempre soube que “tristezas não pagam dívidas”. A grande questão é saber como há de reagir perante as adversidades predestinadas, atendendo ao caráter da entidade destinadora.
            Os senhores da terra não poderão invocar Deus na hora amarga, e não será o álcool despejado em copos de poncha a saldar as dívidas fatais.
                                                                                                in "Diário Cidade" de 27/12/2011

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Vamos emigrar todos?



                Se, em linguagem cinematográfica, há países que não são para velhos, o nosso parece não servir senão os que circulam com carta branca nos palácios do poder.
            Por cá, enquanto encerram empresas, crescem as fileiras de desempregados, aumentam impostos, transportes e tudo o que se paga e se cortam salários, o parlamento regional continua a atribuir benesses e obscenas verbas aos partidos. Para os maus exemplos, para a mediocridade crescente e para a quase inutilidade do trabalho realizado, os Madeirenses gastam demasiado com esta Assembleia Legislativa.
            Alguns empresários, bem conhecedores da economia e da situação financeira regional, realizaram atempadamente aquilo a que chamaram de internacionalização das suas empresas. Souberam investir no bom tempo, nos passos certos, na boa direção do vento e aproveitaram tudo o que puderam. Uns constroem estradas e outras infraestruturas África dentro, com as mesmas técnicas que por aqui usaram, principalmente nas relações com os senhores do poder. Outros abrem hotéis em tudo o que é canto. Ainda há aqueles que andam pelos Açores enquanto é tempo e montam escritórios no Dubai, impossibilitados de sonharem negócios com a Venezuela ou com outros países amigos. Absorveram os dinheiros da Europa, tudo o que ela podia dispor em seus variados programas de auxílio, aproveitaram os investimentos públicos, e agora toca a investir no estrangeiro, passados os tempos em que do Leste e de África vinha para cá a mão-de-obra barata.
            Aos empregados, entretanto, só lhes resta sair da terra, como o dinheiro. Fazem-no preferencialmente os mais jovens, cada vez em maior número, seguindo as pisadas dos seus avós. Mas se estes o faziam por necessidade própria, sem motivação extrínseca, agora são os próprios governantes deste país que é para só para meia dúzia a convidar os jovens a emigrarem.
            Não é de agora que se ouve dizer que a União Europeia passou a ser um espaço comum e que, portanto, os nossos jovens devem olhar para a Europa e não apenas para o seu torrão natal, no momento em que procuram trabalho, mas torna-se chocante ouvir um secretário de Estado e agora o Primeiro-ministro, ele mesmo, convidando os jovens a saírem do País.
            Mais do que estranho, o apelo à emigração é chocante e surge como um atestado público da incapacidade dos governantes na criação de uma esperança para o seu povo, ténue que seja. Ao que chegamos…
                                                                                                     in "Diário Cidade"

           

            

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Cultura madeirense


José Tolentino Mendonça foi nomeado, pelo papa Bento XVI, consultor do Conselho Pontifício da Cultura, organismo do Vaticano. Esta nomeação realça a dimensão cultural deste padre madeirense, natural de Machico, um dos maiores poetas portugueses da atualidade.
            Para além de notável biblista e professor da Universidade Católica, o responsável pelo Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura possui uma obra literária de qualidade invulgar, onde religião e humanismo se exprimem em profunda mas luminosa poesia.
            Este poeta, que disse, no poema “Poética”, em De igual para igual, que

                                   Sobre a terra sem nenhum rumor
                                   um verso é sempre tão pouco
                                   em redor do que se pode observar

é o mesmo que escrevera em Os dias contados, o terceto “Final”

                                   O silêncio é a partilha
                                   do furtivo
                                   lume

ou, no poema “Para ler aos noviços”, de O viajante sem sono, esta primeira estrofe:

                                   Deus não aparece no poema
                                   apenas escutamos a sua voz de cinza
                                   e assistimos sem compreender
                                   a escuras perícias
           
            Reconhecido no panorama cultural europeu, José Tolentino Mendonça é mais um grande poeta madeirense, na esteira dos consagrados Herberto Helder e José Agostinho Baptista, que se alcandorou ao espaço onde se encontram os eternos Edmundo de Bettencourt e Cabral do Nascimento.
            Se é verdade que os Açores têm projetado grandes nomes da Literatura portuguesa, estejamos cientes de que, principalmente na Poesia, a Madeira pode orgulhar-se de, nos últimos cinquenta anos, ter visto nascer alguns dos maiores autores da Literatura lusitana.
                                                                                                
                                                                                      in "Diário Cidade", de 13/12/11
                                                                                 


terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Estranho caminho


Na Madeira, começa-se a sentir verdadeiramente o resultado de uma confluência de erros de más governações: no País, onde principalmente os dois partidos do centro desbastaram abundantes meios financeiros colocados à sua disposição, e na Região, em que os governos de um único partido, sob o comando de um só homem, gastaram o que regatearam e o que inventaram como se não houvesse amanhã, ou como se o saco não tivesse fundo, ou como se as mesmas estratégias dessem resultados semelhantes até à eternidade.
            E então a que assistimos? Enquanto os partidários do antigo governo nacional vão gritando que o governo vai além da troika, como se os socialistas não fossem também responsáveis pelo estado a que isto chegou, os situacionistas “laranja”, fingindo que nada têm a ver com o governo que ajudaram a eleger, desatam a atacá-lo que não é brincadeira. Olhemos para o seu órgão diário: todos os colunistas escrevem sobre um único tema: os responsáveis pela crise são os “medíocres” Merkel e Sarkozy, ou então esses neo-liberais do PSD de Lisboa. E não há outro tema nem assunto que interesse. Para tudo ser tragicómico, inventam uns imaginados leitores que escrevem o mesmo sobre o mesmo, em ladainha enjoativa, como se agora não houvesse mesmo poder autonómico nem responsabilidades insulares nesta catástrofe a que conduziram as ilhas de Zarco.
            Vão conseguindo os seus desígnios, entre decadentes oposicionistas locais, que, em uníssono, como convém, também vão debitando a mesma cantilena do Passos contra a Madeira e da Madeira contra Lisboa e de que a culpa é sempre dos outros, esquecendo rapidamente as críticas construídas ao longo de décadas. No fundo, criam-se as condições para que as avezinhas do costume venham novamente gritar independências ou separatismos, na senda das famosas autonomias totais ou das bombas de antanho.
             É verdadeiramente triste que, sempre que se quer mais dinheiro, se grite e ameace, em impudico desnudamento de mesquinhas intenções, mais adequadas ao comportamento das meretrizes.
            Caminham estes políticos ao lado de certos jornalistas e comentadores que, armados em estelares figuras, catalogam de menores (como se eles fossem excelentes e excelsos) os que não lhes querem pagar mais a mediocridade, a ignorância, o despesismo, o clientelismo, o nepotismo e tantos outros ismos de enganar o povo e manter o poder.
                                                                                   in Diário Cidade de 6/12/2011